Os millennials têm uma má reputação em todos os lugares, e na Coreia do Sul não é exceção.

À medida que mais millennials se juntam à mão de obra, sobram teorias e suposições sobre seu comportamento.

Os trabalhadores da geração do milênio são comumente chamados de fracos e cheios de direitos, ou então são retratados como se não se esforçassem o suficiente. Eles também têm uma reputação de serem “molengas” e pularem de emprego em emprego.

Mas culpar a “mentalidade millennial” por peculiaridades observadas nos jovens trabalhadores pode nos impedir de ver o quadro completo da situação, dizem os especialistas.

Para os jovens de hoje, conseguir emprego remunerado em período integral não significa mais um emprego estável.

No caso da geração de meus pais, a maioria das empresas prosperou com a economia em crescimento, pelo menos antes da crise financeira de 1997-98”, disse Seo Ye-jin, 25. “Você esperava permanecer em um emprego até atingir a idade para aposentadoria.

Mas agora, o lento crescimento econômico levou as empresas a reduzir de tamanho, contratando menos e forçando funcionários a pedir demissão – desse modo, a ideia de segurança no emprego tornou-se coisa do passado.

Foto: Pplware

Seo disse que sua geração procura desenvolver um conjuntos de habilidades que lhes permitam permanecer economicamente ativos depois que se aposentarem ou forem obrigados a deixar seus empregos.

As pessoas estão pensando no próximo passo mesmo depois de se firmarem em um trabalho de tempo integral porque sabem que isso pode não durar.

É por isso que os millennials tendem a pensar menos em uma empresa em particular como seu objetivo final e, em vez disso, buscam oportunidades nas quais possam desenvolver suas habilidades e ganhar vantagem competitiva, de acordo com o chefe de negócios da plataforma de recrutamento Wanted, Nam Song-hyun.

A falta de segurança no emprego deu origem à tendência de “assalariante” – um neologismo que combina trabalhador assalariado e estudante – enquanto os trabalhadores tentam permanecer à salvo em meio à economia em declínio.

Esse foi o caso de Lee Hyun-jung, 25 anos, que disse que estuda ao mesmo tempo em que trabalha em período integral.

Lee, que iniciou seu segundo emprego em 2018, matriculou-se recentemente em um curso de pós-graduação na esperança de melhorar seu desempenho no trabalho e aproveitar futuras oportunidades de emprego.

A ansiedade sobre status é real para os jovens coreanos na faixa dos 20 e 30 anos. Você não está garantido com um emprego estável, e não é como se houvesse uma rede de seguridade social à qual você possa recorrer “, disse ela.

Embora a segurança financeira seja uma preocupação importante, a geração do milênio também luta para lidar com costumes e regras nos locais de trabalho com as quais as gerações mais velhas estão acostumadas e se sentem confortáveis.

Como em outras faixas etárias, Nam disse que os millenials à procura de emprego estão principalmente interessados ​​no salário. Mas outros fatores também são importantes, como bem-estar, benefícios e cultura corporativa.

Jang Ji-hyeon, 28, que trabalha em uma empresa pública em Daejeon, disse que passou pelo que chamou de choque de gerações com seus superiores.

Por exemplo, meu chefe adora as saídas à noite com o pessoal do escritório – que frequentemente envolvem beber – e se mostra abertamente descontente com o fato de os funcionários juniores não parecerem dispostos a segui-lo“, disse ela.

As saídas pós-trabalho eram comuns no passado como parte dos costumes do ambiente de trabalho, mas a maioria dos trabalhadores jovens que conheço preferem reservar tempo para a vida pessoal após o fim do expediente.”

Ela disse que essa diferença cultural às vezes leva funcionários iniciantes a deixarem o emprego.

Poucos (em cargos menores e iniciantes) conseguem encarar seus superiores e dizer não, então eles acabam mudando para um novo emprego que seja culturalmente mais adequado

Foto: Pexels

Outro millennial, Cho Sung-jin, 28 anos, que trabalha na indústria da mídia, diz que a cultura de trabalho coreana não está acompanhando rápido o suficiente as demandas dos novos tempos e as expectativas dos trabalhadores mais jovens.

Cargas de trabalho gigantescas que deveriam ser distribuídas entre muitos trabalhadores são acumuladas em uma única pessoa, resultando em frequentes horas extras“, diz ele. “Além disso, a hierarquia dentro de uma equipe é extremamente rígida. Tenho que pedir desculpas aos colegas com mais tempo de trabalho por coisas pelas quais não sou responsável apenas para evitar conflitos“.

Cho diz que essa estrutura hierárquica dificulta a comunicação, o que ele acha frustrante.

Como os jovens funcionários podem ter uma contribuição significativa quando se espera que digam sim a tudo?

De acordo com uma pesquisa realizada em dezembro, com 1.831 pessoas em um site de recrutamento, 87,6% dos funcionários deixaram seus primeiros empregos – 30,6% deles no primeiro ano e 15,4% nos primeiros seis meses.

O professor de gestão de recursos humanos Yu Gyu-chang, da Universidade Hanyang, disse que a cultura hierárquica do trabalho costumava ter passe-livre na sociedade antes, até a chegada dos millenials.

Gerações anteriores, como a geração X, iriam suportar e dizer: ‘O que eu posso fazer? É assim que as coisas são’ – mas não os millenials“.

A resistência dos millennials às tradições tóxicas do passado pode estar fazendo as coisas mudarem para melhor, pois as empresas estão tomando medidas com o fim de estabelecer uma cultura de trabalho mais flexível e assim atrair e reter talentos dessa geração.

Foto: Medium

Um funcionário de relações públicas da LG Electronics disse ao Korea Herald que a empresa havia reduzido a escala de pontuação no trabalho de cinco para três, para criar relações mais laterais entre os funcionários. Os funcionários da Samsung Electronics agora usam o mesmo honorífico (“nim”) para se dirigirem uns aos outros, em vez de usar o nome dos cargos, como é a antiga convenção, de acordo com um funcionário da empresa.

O sociólogo Shin Jin-wook, da Universidade de Chungang, diz que uma coisa que caracterizava a geração do milênio coreana era seu senso de resignação e impotência.

A geração do milênio muda muito de emprego porque há poucos empregos bons disponíveis“, disse ele, explicando que a falha está no sistema.

No noticiário, conta repetidamente, histórias de escolas e empregos dos sonhos sendo entregues a filhos de políticos e chaebols, enquanto eles se esforçam para conseguir uma vaga em um estágio ou um emprego temporário. A confiança em um sistema justo tem se enfraquecido“.

Os Millenials estão passando sua juventude em uma época de recessão. A mobilidade social tem sido refreada ao longo das últimas décadas”, afirmou. “Não há promessas de um futuro próspero esperando por eles, do tipo que as gerações mais velhas experimentaram.

Mas,  uma vez que os millennials “venham à tona”, as perspectivas não são tão sombrias, de acordo com Shin.

Comparados à outras gerações, os millennials são os que menos se conformam com injustiças, então se espera que eles assumam a liderança na formação de uma sociedade mais progressista“, diz ele.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o artigo, fiquei surpreso pois não imaginava que a Coreia do Sul fosse como o Brasil neste aspecto . O sistema é falho, creio que tudo esta fadado a destruição. Neste último momento e com os recentes acontecimentos temos que nos firmar em Deus pois ele esta muito próximo. As coisas desta vida irão passar, então não vale a pena nos matar para este mundo, temos que apreciar o que Deus nos deixou e dar valor ao simples. Quando tudo acabar estaremos renovados morando com o Pai onde não haverá nem choro nem pranto, só alegria.

    • Todos os lugares e todas as épocas tem os seus diferentes desafios. Vamos sempre fazer o nosso melhor (e pedir forças à espiritualidade que você acredita) para superar esses desafios, sejam eles quais forem. Fighting!!

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