Numa tentativa de manter a comunidade unida e homogênea, os imigrantes coreanos, habitantes de Koreatown, em Los Angeles, nos Estados Unidos, estão promovendo eventos onde pais procuram possíveis pretendentes para seus filhos. O jornal L.A. Times acompanhou um destes eventos e transcreveu os acontecimentos, como segue:

O solteiro Nº 647, um técnico de laboratório esbelto em uma camisa pólo azul e óculos de lentes grossas, que tentava se esconder enquanto seus olhos iam de um lado para o outro do salão. De pé, à sua direita, sua mãe dizia aos presentes que ele agora, com 30 anos, nasceu com 6 kilos. “Ele é responsável e diligente. Faz pós-graduação e trabalha. Seus hobbies incluem pesca, caminhadas e leitura. Ele está pronto. Ele inclusive já tem casa própria“, disse ela em coreano, antes de entregar o microfone a seu filho. Ele pediu desculpas por não falar bem coreano e mudou para Inglês. “Eu não sei. Eu acho que eu estou procurando uma garota legal, que seja extrovertida, é isso“, disse ele.

Na plateia, pais coreanos enchiam nove mesas debruçados sobre uma lista, canetas e marcadores na mão, com a seriedade de compradores num leilão de arte. Algumas notas rabiscadas. Vestindo crachás numerados com código de cores – vermelho para as filhas, azul para os filhos – os pais estavam lá para enfrentar o que o organizador do evento chama de “o maior problema social da comunidade imigrante coreana nos Estados Unidos”. Homens e mulheres jovens estão muito ocupados com suas vidas e carreiras para começar uma família.

Buscai e achareis“, diz Simon Jung, mestre de cerimônias da noite, à multidão, citando um trecho da Bíblia (Mateus 7:7). “Você quer um bom genro? Então, você tem que procurar, até que encontrar“.

Os jovens nos EUA estão optando por se casar cada vez mais tarde. Muitos ficam satisfeitos em apenas namorar até seus 30 ou 40 anos ou viver com um (a) companheiro (a) sem oficializar o relacionamento. Isso tem sido uma grande fonte de stress para a primeira geração de imigrantes coreanos, para quem, casar os filhos, é a última obrigação como pais.

JaeDong Kim, um gastroenterologista e diácono católico, teve a ideia de criar um evento para conectar os pais com filhos solteiros, há seis anos, quando casou o último de seus quatro filhos. Ele viu muitos compatriotas preocupados com as perspectivas conjugais de seus filhos, mas impotentes para fazer algo sobre o assunto. E uma das únicas opções disponíveos, os consultores matrimoniais profissionais, estavam cobrando taxas exorbitantes, às vezes na casa dos milhares de dólares, por apresentações. “Eu percebi que era um problema social grave que a nossa comunidade imigrante precisava tratar“, disse ele.

Jaedong Kim, Um Gastroenterologista E Diácono Católico, Surgiu Com A Ideia De Um Evento De Conectar Os Pais Com Filhos Solteiros, Há Seis Anos, Quando Casou O Último De Seus Quatro Filhos.
Jaedong kim, um gastroenterologista e diácono católico, surgiu com a ideia de um evento de conectar os pais com filhos solteiros, há seis anos, quando casou o último de seus quatro filhos.

Em abril de 2010, JaeDong, Simon e outros de sua igreja começaram o Chung sil Hongsil, assim chamado em alusão ao fio azul e vermelho usado nos ritos tradicionais conjugais coreanos para simbolizar a união entre marido e mulher. Eles convidam coreanos de todas as religiões e profissões e cobram uma taxa para cobrir os custos de alugar o espaço e servir o jantar. O resultado é um cruzamento entre uma reunião de negócios, um encontro às escuras e uma noite de bingo.

Cada um dos pais e, em alguns casos, os próprios filhos, faz uma introdução de dois minutos, descrevendo o solteiro (ou solteira) – idade, profissão, instrução, lazer, religião, proficiência em coreano e qualquer outra coisa que possa ser de interesse. Antigamente na Coreia, era normal os pais arranjarem casamento para os filhos, então, mesmo na era do Tinder e do eHarmony (aplicativos de relacionamento em ascensão), estes pais americanos-coreanos ainda sentem-se responsáveis em construir ou pelo menos, ajudar à construir uma família para seus filhos.

Resolvemos ajudar porque eles estão ocupados, estudando para se formar. Mas, é tudo questão de tempo“, disse o pai participante nº 670. “Os mais inteligentes têm mais dificuldade nisso“, opinou pai Nº 659, usando duas etiquetas de nome, porque ele estava apresentando tanto seu filho quanto sua filha.

Jung começou a noite, exortando os pais a serem proativos e anotarem os números dos jovens homens ou mulheres que despertassem seu interesse. A mãe Nº 632, uma mulher pequena e elegantemente vestida, falou de como ela estava perdendo o sono por seu filho e filha de 38 e 37 anos respectivamente, ainda serem solteiros. Sua filha, uma escritora freelance que gosta de ler e fazer yoga, está “à procura de alguém com uma alma clara – e ela diz que tudo bem, se a aparência for apenas mediana“, disse ela. Seu filho, um engenheiro biomédico certinho que não toca em álcool ou cigarros, “gostaria de encontrar uma mulher que fosse bonita e calma“.

O pai Nº 635, um homem careca com um vozeirão, disse que era sua terceira vez no evento. Ele estava à procura de potenciais companheiros para seus dois filhos, de 41 e 39 anos, respectivamente. Ambos dentistas como ele. Ele já tinha até posto um anúncio no jornal de Koreatown em busca de noras, mas até agora, não havia tido sucesso.
Eles são altos e muito mais bonitos do o pai“, disse ele, entre risos. “Mas acho que eles são muito exigentes”.

O solteiro Nº 644, vestindo um terno e gravata mal ajustada, com o cabelo bem penteado, foi o primeiro da noite a vir com a mãe. O homem, de 37 anos, sorria timidamente. Sua mãe apresentou-o como bio-engenheiro, amoroso e compreensivo com as duas irmãs mais velhas. “Ele gosta de cantar, e fez a Maratona de San Diego, disse ela“.

Não é conveniente quando os pretendentes veem em pessoa?” disse Jung. “Vamos dar-lhe uma salva de palmas“.

Na primeira reunião, há seis anos, Patrick C. Park apareceu para ajudar como voluntário. Mas, conforme ele ouvia as apresentações, ficou particularmente impressionado com um um dos solteiros. “Este jovem”, pensou, “seria ótimo para minha filha”. Então ele pediu as informações de contato do rapaz. Sua filha, tendo sido criada em nos EUA, rejeitou a idéia, cética e constrangida pela intervenção do pai. Mas, em algum momento, “ela finalmente concordou em dar ao homem uma chance”, lembrou o pai. Em novembro passado, ela deu à luz seu primeiro filho. Patrick e sua esposa ofereceram-se para todos os eventos desde então – 16 deles até agora. “Este evento dá oportunidade para as pessoas boas que querem criar famílias bonitas e conhecer uns aos outros“, disse ele.

Patrick C. Park Começou Apenas Como Voluntário No Evento, Mas Acabou Conseguindo Casar Sua Filha.
Patrick c. Park começou apenas como voluntário no evento, mas acabou conseguindo casar sua filha.

Os organizadores não rastreiam os relacionamentos que se iniciam na reuinião, mas já ficaram sabendo de muitas histórias de sucesso porque os pais lhes procuram para agradecer.

Entre aqueles no evento deste mês que esperavam um final feliz para a sua história estava uma mulher à procura de pares para seus irmãos gêmeos (um homem e uma mulher) – e uma mãe que contou a história de como ela e seu filho, na época com 6 anos, haviam chegado aos EUA com apenas uma mala depois de sofrer na Coreia pós guerra.

Os pais, um após o outro descreviam como, à seu ver, cada um de seus filhos era precioso e quase perfeito – e como gostariam de fazer alguém feliz. “Eu gostaria que fosse alguém rico“, disse o pai Nº 671, que tem uma filha de 34 anos de idade. “Não em dinheiro, mas no coração. Alguém que pudesse chorar e rir com ela“.

Depois de todas as apresentações, JaeDong Kim deu aos pais algumas dicas. “Troquem fotos antes de iniciar uma conversa“, disse-lhes. “Mostrar fotos é uma forma de interação e pode evitar momentos difíceis se você não gostar do que vê. Não desanime se um pai de alguém que você está interessado estiver falando com outra pessoa – pense no futuro de seus filhos e engula o seu orgulho”. Ele também aconselhou os pais a “mentir” para seus filhos. “Diga-lhes que um conhecido da família quer conhece-lo“, ele disse, “pois a geração mais jovem pode ficar petrificado com a ideia deste tipo de evento“.

Alguns pais andavam, relutante em fazer o primeiro movimento. Outros andavam ansiosamente de mesa em mesa, recolhendo os números de telefone ou endereços de e-mail. Em meio ao caos, em uma mesa no fundo da sala, um rapaz e uma moça conversavam animadamente. O rosto dele estava corado e ela timidamnte escondia parte de seu rosto em suas mãos. “Ali, há uma esperança“, disse JaeDong.

Em seguida, ele e a esposa despediram-se do pai Nº 635, o dentista com dois filhos, que já esteve no evento várias vezes. “Eu espero não vê-lo novamente“, disse ele, vendo o homem sair triunfante, com vários números de telefone enfiados no bolso de sua jaqueta de couro.


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