O naufrágio da balsa Sewol, ocorrido na Coreia do Sul, em 16 de abril de 2014, despertou uma grande especulação, como normalmente ocorre em situações de grande desastres e acidentes em que muitas vidas são perdidas, sobre as prováveis causas do acidente. De falhas técnicas à tentativa de responsabilizar a rígida hierarquia cultural sul-coreana, nenhuma das hipóteses levantadas por especialistas e jornalistas pareceu menos convincente do que a tradicional negligência corporativa e governamental, que não teve preparo, nem estratégia para atuar nesta situação.

Prova-se mais uma vez que o trabalho jornalístico pode ser observado como duvidoso, a medida que tenta buscar respostas absurdas, além de focar nos fatos que realmente expliquem tamanha falta de responsabilidade e dever, em especial do capitão Lee da MV Sewol que abandonou a embarcação deixando os passageiros sozinhos à própria sorte. Lembremos que a balsa Sewol transportava cerca de 476 pessoas, a maioria estudantes e professores da Escola Secundária Danwon de Ansan, localizada próxima a Seul. Eles iam da cidade de Incheon à ilha de Jeju. Em torno de 306 pessoas morreram e 172 foram resgatadas.

Yoo Byung-eun, ex-presidente da Chonghaejin Marine, empresa responsável pela balsa, recebeu intimações do Ministério Público de Incheon, mas acabou por ignorá-las. Em 22 de maio, o Tribunal Distrital de Incheon emitiu um mandado de prisão e ofereceu uma recompensa de US$ 48.800 por informações que levassem à sua prisão que, posteriormente, teria seu valor elevado para US$ 488.000. O empresário foi encontrado morto em julho de 2014.

 

O acidente com a balsa Sewol foi um fator chave para a oposição que a presidente Park Geun-hye viria sofrer, levando ao seu futuro impeachment. Em um relatório que veio à público em novembro de 2016, escrito pelo Serviço Nacional de Inteligência, o desastre é descrito “apenas” como um acidente de balsa e foi sugerido o controle dos protestos que ocorressem em nome da tragédia. Conforme fontes da imprensa, nenhuma menção e preocupação com relação às vítimas e familiares foi declarada. A popularidade da presidente, em meio ao fervor dos acontecimentos, caíra de 71% a 40% de aprovação.

A resposta dos sul-coreanos aos constantes erros da administração Park Geun-hye, apontam para um fator positivo de que uma população com altos índices educacionais, uma economia desenvolvida e que apresenta um certo senso de coletividade, seja o elemento principal para a luta contra as contradições de um sistema político-econômico corrompido. Contudo, existe ao mesmo tempo, a constatação de uma questão um tanto alarmante: o rápido crescimento e desenvolvimento econômico a que a população sul-coreana foi submetida, a desumanizou de tal forma, que originou uma chocante reação de indiferença por parte de figuras públicas e autoridades políticas, que apenas foi contrabalanceada pela ira da população.

Sem aposentadoria, 48% dos idosos encontram-se na linha da pobreza. Foto: Financial Times
Sem aposentadoria, 48% dos idosos encontram-se na linha da pobreza. Foto: Financial Times

Contudo, esta mesma nação que se viu unida e atuante contra a falta de humanidade da presidente e todo poder corporativo, é a mesma que ignora os diversos casos de doenças mentais, que são a causa de 40 suicídios diários, segundo o psiquiatra Ha Giu-sup, da Universidade Nacional de Seul e presidente da Associação Sul-Coreana para a Prevenção do Suicídio. E o mais espantoso é que estes dados sobre suicídio se referem, em sua maioria, a idosos. Neste caso, observa-se mais uma vez uma contradição – a mesma sociedade que valoriza tanto o respeito aos mais velhos, tem uma boa porcentagem da sua população envelhecida vivendo abaixo da linha da pobreza.

Uma crise social é como o sintoma de uma doença, podendo ser observada como algo positivo, já que leva à reações por parte do povo sul-coreano, que aos poucos vai apercebendo-se de algo que está errado e que precisa ser modificado. No entanto, até que cheguemos neste patamar, o contexto presente é um quadro que levará a muitas vítimas desconhecidas pelo grande público e que provavelmente podem não ter a justiça que merecem.


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