O Ano Novo Lunar, ou Seollal, assim como o Natal no Ocidente, é para ser um período de família, divertido e relaxante. Mas para alguns – especialmente mulheres casadas na Coreia – o feriado é considerado como um teste de resistência com longas horas de trabalho doméstico.

De acordo com tradição confucionista em que cuidar da casa é a única “virtude” das esposas, visitar a casa dos pais do marido é priorizada durante os feriados. Enquanto estão com seus sogros, é considerada responsabilidade das mulheres cozinhar o banquete da festa para a família dos maridos.

Preparar comida para o Jesa – rituais tradicionais para antepassados – também é o dever das mulheres. A tradição baseia-se na noção de que, quando uma mulher se casa, junta-se à família do homem e, como papel tradicional das mulheres é ser dona de casa, acaba sendo responsável por cuidar de todos os membros da família.

Noras cozinham o banquete para o Seollal.
Donas de casa cozinham o banquete para o Seollal. (Yonhap)

A cultura patriarcal que persistiu durante séculos e passou a ser aceita de modo passivo por suas mães, agora parece bizarra para as gerações mais jovens, em especial quando o número de mulheres se tornando economicamente ativa só aumenta.

Eu testemunhei a minha mãe trabalhar como empregada doméstica enquanto estava na casa dos meus avós paternos sempre que havia encontros familiares, especialmente durante as férias, e eu não ligava muito. Agora, como eu também me tornei uma nora, acho isso muito injusto“, disse Shin Min-jeong, de 34 anos.

“Mas é curioso como pelo fato de ter crescido assistindo minha mãe sendo tratada como tal, eu tenho esse senso inato de responsabilidade de ter o mesmo comportamento“.

Kim So-hae, de 42 anos, diz que apesar de sentir que não há motivos razoáveis para as mulheres ficarem presas na cozinha, ela se contradiz, sentindo-se culpada sempre que sua sogra lhe diz para relaxar.

Eu sei que não sou obrigada a trabalhar na cozinha, mas de alguma forma sinto que estou quebrando uma regra séria quando sento no sofá enquanto minha sogra cozinha“.

Elas são apenas algumas das esposas coreanas presas em tal dilema, o que pode levar a um imenso estresse.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Incruit, um site local de pesquisa de emprego, mais de 60% das donas de casa sentem-se estressadas quando visitam seus sogros, três vezes mais do que quando visitam seus próprios pais. Cerca de 31,7 por cento afirmaram que o estresse decorreu da culinária e da limpeza.

Outro estudo do Health Insurance Review and Assessment Service sugeriu que a porcentagem de mulheres em seus 30 a  40 anos que sofrem de infecção da bexiga aumentou em torno de 20 por cento durante os feriados. A agência estatal que analisa as taxas médicas observou que as donas de casa se tornam vulneráveis à doença, pois o nível de imunidade cai sob estresse mental e longas horas de trabalho durante os feriados.

No passado, ser uma boa esposa significava uma mulher casada que cuida da família e dos pais“, disse Kwak Geum-joo, professora de psicologia da Seoul National University.

Mas o padrão de uma boa esposa mudou (para pior) nos dias de hoje. Elas também precisam ser super-mulheres que se destacam no trabalho e em casa. É por isso que enfrentam um grande estresse“, disse Kwak.

Um exemplo é a dificuldade que muitas mulheres casadas enfrentam ao decidir quando é hora de deixar os sogros após a celebração do Ano Novo terminar – sem a permissão dos mesmos.

Ser uma nora leal tem sido uma virtude das coreanas, mas mais mulheres também se começam a fazer perguntas, como “por que devemos?“, especialmente no campo cultural.

O documentário “Myeoneuri: My’s Son Crazy Wife” recebeu recentemente uma atenção inesperada pela representação da própria família do diretor em um confronto brutal entre sua esposa e sua mãe, sem filtrar uma palavra.

Apresentando sua esposa, Jin-young, como “uma mulher estranha“, a ação gira em torno das relações entre sua esposa revolucionária, sua mãe irritada e de si mesmo, em uma encruzilhada.

Jin-young vai contra sua sogra, que intervém constantemente em sua vida e até mesmo lhe diz qual a marca de cueca que seu filho deveria vestir. Depois de uma grande luta, Jin-young deixa de visitar os sogros, até para o Chuseok, o maior feriado de colheita de outono.

Eu não fui aos meus sogros durante o feriado. Em vez disso, tive as férias perfeitas “, diz ela com um grande sorriso no rosto em uma entrevista no filme.

Veja o trailer:

A webtoon “Myeoneul-agi” também explora a realidade de ser uma esposa e uma nora, e a ilusão da vida conjugal.

A personagem principal Sarin casa-se com o homem que ama. Mas depois de algum tempo, ela questiona por que se tornou uma mulher que sente a necessidade de satisfazer seus sogros toda hora, sendo que sua relação com os sogros naõ evolui para nada positivo.

Tanto o filme como a webtoon receberam muita simpatia de jovens coreanas, encorajando-as a elevar a voz.

Mas na realidade, a nora que levanta a voz ainda é vista como um tabu, e as mulheres temem ser taxadas como esposas fracassadas.

Eu não quero brigar com meu marido e enfrentar as críticas intermináveis dos sogros“, disse Kim Soo-hyun, uma mãe com uma filha de 6 anos.

Mas também não quero ver minha filha passar por isso, enfrentando as expectativas dos sogros de ser uma nora dócil como eu quando ela crescer. Espero que um dia essa sociedade comece a aceitar o que a igualdade de gênero significa na família. Eu acho que esse tempo ainda não chegou“.

Sem uma revelação extrema que realmente retrata a crueldade da desigualdade de gênero na família, a professora Kwak disse que seria difícil imaginar uma mudança imediata.

Deve haver um movimento drástico, algo como o #MeToo. Sem isso, (a definição social de uma boa esposa) continuará a ser a mesma“, disse ela.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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