Quando Kim Eun-Ju casou-se em 2007, ela jamais esperaria que sua sogra fosse ligar para ela, todos os dias, para fazer uma pergunta em particular: O que você deu de café da manhã para o meu filho hoje?

Minha sogra ligava primeiro para saber a minha resposta e então ligava para o meu marido para confirmar, para ver se eu havia mentido ou não” disse a enfermeira de 39 anos. “Ela me ligou todos os dias durante os três primeiros meses do meu casamento – apenas para ter a certeza de que eu estava fazendo um café da manhã caseiro.

Ao longo de seu casamento de 10 anos, Eun-Ju disse que teve dificuldades com seu trabalho e a vida, em parte por causa de sua sogra, que insistia que todas as tarefas domésticas, especialmente cozinhar, era trabalho de mulher. Como uma enfermeira que trabalha em um hospital geral, Eun-Ju muitas vezes fazia plantões noturnos e precisava recuperar seu sono durante o dia.

Mas sempre que a sogra de Eun-Ju via o marido lavando roupas ou limpando, ela ficava chateada e o fazia parar. Ela dizia a seu filho: “Por que céus você tem que fazer um trabalho tão trivial? Toda a minha vida, meu desejo era vê-lo ser respeitado (por sua esposa e filhos).”

Muitas vezes minha sogra interrompeu meu sono durante o dia, chamando-me, só para me perguntar o que eu fiz para o meu marido comer” ela disse. “Eu estava tão estressada, que minha mãe acabou fazendo alguns pratos para mim, assim posso dizer a minha sogra que eu fiz para meu marido algo bom todos os dias“.

A estrutura familiar da Coreia do Sul passou por mudanças dramáticas desde a década de 1980.

De 2010 até 2014 apenas, o número de famílias de renda dupla aumentou de 27,9% para 31,2%. Mais mulheres na Coreia estão sendo educadas, participam na força de trabalho e adiam o casamento.

Relacionamentos turbulentos entre sogras e suas noras têm sido destaque inúmeras vezes nas series de TV, filmes e peças na Coreia do Sul. Uma cena da série de drama do MBC “Iron Lady Cha.” Foto: MBC

Na década de 1980, apenas cerca de 30% das meninas coreanas estavam matriculadas no ensino pós-secundário, Considerando que 74,6% dos estudantes eram meninas. A taxa de emprego feminina também subiu de 42,8% para 49,5% no mesmo período de tempo. A idade média do primeiro casamento entre as mulheres coreanas aumentou significativamente de 23 em 1981 para 30 este ano.

A dissonância geracional entre sogras coreanas – que esperam que suas noras cuidem dos maridos e tarefas domésticas, mesmo que elas tenham suas próprias carreiras – e suas noras “desgastadas”, vem sendo discutidas predominante nos meios de comunicação sociais da Coreia.

No início deste mês, um texto publicado na “coluna do leitor” no jornal Korea Herald provocou indignação entre os internautas, com alguns até mesmo chamando-o de “peça de terror”. Uma sogra, expressava seu desejo de ser convidada para um jantar preparado por sua nora grávida.

Os internautas perguntavam por que a autora esperava que a refeição caseira – que requer tempo, trabalho e dinheiro – deveria ser preparado apenas por sua nora, e não por seu próprio filho.

Há um espaço geracional grave entre mulheres nascidas nos anos 1950 e 60 e aqueles que nasceram na década de 70 e 80“, disse Hong Seung-Ah, uma pesquisadora especializada no equilíbrio entre a vida e o trabalho das mulheres, no Korean Women’s Development Institute. (Instituto de Desenvolvimento Coreano Feminino).

Enquanto muitas das mulheres mais velhas passaram suas vidas como donas de casa, pensando em tarefas domésticas e cuidados com as crianças como suas únicas responsabilidades, a geração mais jovem dá valor à felicidade individual e ambições profissionais, bem como compartilhamento do trabalho doméstico com seus cônjuges“.

Seung-Ah salientou que para as mulheres nos seus 50 anos ou mais, a ideia de compartilhar responsabilidades domésticas com seus maridos era praticamente impensável, mesmo se elas tivessem seus próprios empregos, enquanto criavam seus filhos.

Elas não são muito acostumadas à ideia de igualdade em casa. Independentemente do seu status empregatício, elas consideram tarefas domésticas como seu dever básico (como esposa e mãe). E algumas delas têm dificuldade de lidar com a mudança dos papéis dos gêneros, por isso, esperam que suas noras façam o mesmo“.

As estatísticas mostram que homens coreanos ainda gastam menos horas em tarefas domésticas. Desde de 2014, as mulheres coreanas gastam em média 3 horas e 25 minutos diariamente em tarefas domésticas durante a semana, enquanto que os homens normalmente gastam apenas 39 minutos.

Jeong Eun-Ji, uma profissional de 34 anos, disse que as mães coreanas nos seus 50 anos ou mais contribuem para a disparidade de gênero vivida por jovens mulheres casadas, por não ensinarem seus filhos a realizarem atividades domésticas enquanto os criavam.

Seu marido, por exemplo, viveu com os pais por 34 anos, até que ele se casou com Eun-Ji há dois anos. Ao longo de toda a sua vida antes do casamento, a mãe dele fez todas as tarefas domésticas para ele – preparar suas refeições, limpar o quarto dele e tratar de suas roupas. Ela disse que seu irmão mais novo foi criado de maneira similar – a mãe dela só fazia a própria ajudá-la na cozinha e outras tarefas domésticas.

Parece que minha sogra ainda me quer para substituí-la como cuidadora de seu filho ou cozinheira pessoal, ao em vez de tratá-lo como um adulto. Ela uma vez me disse, “seu marido precisa de alguém para cuidar dele. Caso contrário, ele vai pular as refeições”. Mas ele tem 36 anos. Se ele pular as refeições, deixe-o lidar com isso. É o tipo de coisa que não deveria mais ser problema da mãe“.

Uma cena da série de drama do jTBC “Childless Comfort”, que lida com uma farmacêutica em tempo integral (à direita) e seu relacionamento difícil com sua sogra. (jTBC)

Lee Mi-Yeon, uma funcionária pública de 38 anos, acha que a sogra é uma pessoa doce e bondosa. Nascida em 1948 numa pequena cidade rural, ela não pôde continuar seus estudos após terminar o ensino fundamental porque teve que cuidar de seus oito irmãos mais novos, enquanto trabalhava na fazenda da família. Depois de se casar com o sogro de Mi-Yeon, um trabalhador da estrada de ferro de uma família não-influente, tornou-se uma dona de casa e mãe em tempo integral.

Ela só pertence a uma geração diferente“, disse Mi-Yeon. “Isso não a faz uma má pessoa“.

Para a sogra de Mi-Yeon, fazer comida para seus filhos crescidos em feriados nacionais é uma das suas maiores alegrias. Ela também se orgulha de ser respeitada por suas noras, geralmente sendo convidada para uma refeição caseira.

Mas Mi-Yeon disse que nem sempre foi fácil se dar bem com sua sogra, que acreditava firmemente que as tarefas domésticas deviam ser feitas por mulheres. Sempre que ela e o marido visitavam a casa dos pais, apenas Mi-Yeon tinha que ajudar a fazer comida, enquanto mandavam seu marido descansar.

Ela sempre me dizia, ‘Eu aprecio seu trabalho duro,’ enquanto certificava-se de que meu marido não iria por pé na cozinha. Ela lhe dizia ‘por favor descanse, você tem que descansar. É a tua oportunidade rara para relaxar longe do trabalho.’ Mas, sabe, eu também trabalho o tempo inteiro“.

Uma vez, Mi-Yeon foi quase se atrasou para o trabalho, porque  sua sogra, que estava hospedada em sua casa por um tempo, insistiu que ela deveria fazer arroz novo no café da manhã para o marido, em vez do que foi feito na noite anterior. “Ela disse que seu filho precisa de um bom café da manhã com arroz recém cozido,” disse.

Outra hora, quando a família de Mi-Yeon foi à um parque de campismo, o marido dela acabou por grelhar a carne em um churrasco ao ar livre – porque ele era mais experiente com o fogo. A sogra dela ficou extremamente chateada. “Ela ficava dizendo, ‘ele deveria estar comendo (e não grelhando)!” ela disse. “Foi como se ela estivesse presenciando seu filho sendo severamente maltratado por outros em público“.

Meu marido explicou várias vezes que é mais comum para os homens grelhar a carne em um churrasco hoje em dia, mas isso só a fazia ainda mais chateada” disse Mi-Yeon.

Park Soo-Ha, 28 anos, profissional em Seul, disse que ela tinha que mentir muitas vezes para sua sogra, especialmente quando ela e o marido comiam fora. Assim como as outras mulheres entrevistadas, ela recebia telefonemas regulares de sua sogra, que sempre lhe perguntava o que ela fizera para o seu marido no jantar do dia anterior.

Eu falava qualquer coisa que vinha na minha cabeça” ela disse. “Um dia dizia que comemos ensopado de kimchi, no outro dia, dizia que cozinhei a carne que ela havia nos enviado alguns dias atrás. Se eu repetisse o mesmo menu do dia anterior, ela dizia ‘Vocês comeram isso hoje de novo?'”

Uma vez, quando Soo-Ha mentiu ter feito galchijjim refogado, para o jantar, sogra ficou desconfiada. “Ela me pediu para fazer o mesmo prato e leva-lo a sua casa na próxima vez que eu a visitasse” ela disse. “Então eu comprei o prato em um mercado e o coloquei em um recipiente de Tupperware, para parecer que era caseiro“.

Durante seu primeiro ano como uma mulher casada, Lee Su-Bin recebeu um telefonema inesperado de sua cunhada. Lee tinha acabado de fazer uma reserva em um restaurante para o aniversário da sogra.

Minha cunhada disse, ‘Noras devem preparar uma refeição caseira para primeiro aniversário de suas sogras em que elas comemoram como uma família. Você sabe disso, certo?'”

Apesar da pressão, Su-Bin foi à frente com o plano do restaurante, como apoio de seu marido. Mas Su-Bin disse que se sentiu culpada no aniversário seguinte de sua sogra. “Então decidi fazer à ela um jantar de aniversário caseiro para tirar isso do meu peito” ela disse.

Mi-Yeon disse que uma mulher que cresceu em uma cultura de gêneros específicos, encontra-se num sentimento de conflito sobre tais expectativas tradicionais ainda machistas com as noras.

Para ser honesta, eu sei que se eu tivesse um irmão mais novo e sua esposa não fornecesse um jantar feito em casa para o aniversário da minha mãe, ela também questionaria sua aptidão para se tornar um membro da nossa família,” ela disse.

So-Ha disse que até a própria mãe diz a ela para certificar-se de que o marido come corretamente. “Eu ganho mais dinheiro do que o meu marido, e eu trabalho mais horas do que ele” ela disse. “Mas ainda assim, cozinhar é considerada minha responsabilidade (segundo minha mãe e minha sogra)“.

Levou algum tempo para a sogra da Eun-Ju, a enfermeira, entender por que ela precisa recuperar o sono durante o dia. Ela nunca foi tratada como um paciente internado num hospital geral e só encontrou enfermeiras em pequenas clínicas. Ela simplesmente pensou que não seria “difícil” ser uma enfermeira durante noite.

No tempo da minha sogra, a maioria das mulheres casadas que trabalhavam tinham funções de contabilistas, empregadas domésticas ou professoras,” disse Eun-Ju. “Ela disse que todas as enfermeiras que ela já havia encontrado ficavam ‘apenas sentadas’ a maior parte do tempo“.

Há três anos, sua sogra temporariamente se mudou para casa da Eun-Ju para cuidar dos netos. Ela não entendia por que Eun-Ju estava sempre dormindo durante o dia, e por que seu filho fazia as tarefas domésticas. Uma vez, antes de ir ´para o trabalho, Eun-Ju estava prestes a almoçar em casa, depois de dormir uma parte do dia, quando de repente, sua sogra começou a limpar a geladeira e tirar todos os item para fora, deixando a cozinha muito bagunçada, para preparar algo.

Eu não entendi porque ela fez isso“, disse Eun-Ju. “Eu peguei um pedaço de pão no meu caminho para o trabalho e chorei até chegar no hospital. Parecia tão injusto“.

– incluindo a manutenção de relatórios de históricos médicos dos pacientes e prestação de cuidados imediatos durante emergências médicas.

Com a ajuda do marido de Eun-Ju, sua sogra mudou ao longo dos anos, “embora com relutância“, ela disse. Ela já não chama Eun-Ju durante o dia. Ela agora pede a seus próprios filhos que a ajudem com a preparação das refeições em dias especiais.

Minha sogra disse que apesar de meu marido ser seu próprio filho, ele é um homem adulto e ela não se sente confortável e nem costumava pedir favores à homens adultos“, disse Eun-Ju.

Uma das maiores alegrias da sogra dela é passar os ternos do filho. Eun-Ju nunca entendeu o porquê, até a quatro anos atrás. Tendo sido casada com um trabalhador de colarinho azul, sua sogra disse que ela esperava pelo menos que o filho fosse respeitado pelos outros. Para ela, um homem respeitado, era alguém que é altamente educado e bem sucedido, que não tem que se preocupar com tarefas domésticas e é bem tratado por sua esposa e seus filhos.

Sempre admirei mulheres que ficam passam os ternos para seus maridos” disse a sogra de Eun-Ju a quatro anos atrás, enquanto passava a camisa do filho. “Mas passar os ternos do meu esposo nunca foi um dos meus desejos ao longo da vida“, disse Kim.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



4 COMENTÁRIOS

    • Bom diaaa. Me desculpe se a tradução não foi de seu agrado, fiz a tradução do que se encontrava no texto. Farei meu melhor para melhorar. Beijos.

  1. Oioi

    Interessante o texto
    Não nego que me angustiava um pouco ficar imaginando as sogras ligando para suas noras todos os dias e perguntando o que cozinharam para seus maridos…
    Creio que deve ser principalmente pela diferença cultural. Aqui até temos relatos de problemas com a sogra… Nossa, sim, mas acho que me impacta mais pelo detalhe do respeito ao mais velho que tem na Coréia e a nora não dar uma resposta digamos, mais direta ou mesmo mais grosseria…
    O bom assim, está claro que de alguma forma os maridos não estão “compactuando” com suas mães para que suas esposas sejam também donas de casa… mas como diz no post, nem um terço do tempo deles comparado com o da esposa…

    Eu fico meio na dúvida se estou sendo preconceituosa na minha linha de raciocínio, porque, né, este é meio que o primeiro texto que leio sobre o assunto e eu não havia realmente parado pra pensar nisso. Então acho melhor parar por aqui e dar uma pensada no assunto.

    Parabéns pelo texto ^^
    bj ea té

    • Oii, fico feliz que tenha gostado. Infelizmente essa guerra entre sogras e noras é normal lá, imagina, estar no sossego do lar ou estar almoçando fora com seu marido e do nada um telefonema da sogra dizendo que vai aparecer na casa de vocês kkkk. Essa questão de respeito com os mais velhos é muito forte, na maioria das vezes se a sogra não aceita a nora, o casamento nem acontece. Até entendo essa preocupação das mães dos maridos, elas querem uma mulher boa para eles, que os cuidem como se fossem elas, porém algumas exageram. Há vários doramas que relatam isso, que realmente acontecem. Quanto a esposa trabalhar… MEU DEUS, para algumas parece ser o fim do mundo, ainda bem que aqui as coisas não são tão ao extremo.
      Beijoos, até.

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