Há poucos anos, SulliGoo Hara estavam no topo da indústria, mas, no espaço de apenas seis semanas, as duas faleceram.

Sulli, de 25 anos, cometeu suicídio em outubro de 2019, após anos de abuso online. Sua amiga próxima, Goo Hara, que tinha a mesma idade, havia recém completado uma turnê pelo Japão quando seu corpo foi encontrado em sua casa, em Seul, junto de uma nota que, segundo a polícia, indica que ela estava se sentindo “pessimista”.

Netizens e a mídia marrom – os tabloides – viraram inimigos de Ha ra quando ela entrou com uma ação contra seu ex-namorado que a ameaçava com revenge porn. Sulli, por sua vez, ganhou o ódio das pessoas por seu feminismo e por tornar pública sua luta contra a depressão. As duas se negavam a cumprir o papel demandado à elas por seus compatriotas.

Algumas idols foram ostracizadas por não sorrir em um programa de televisão e por lerem livros sobre feminismo, o que contradiz a sociedade patriarcal sul-coreana“, diz Park Hee-a, uma jornalista que trabalha com k-pop.

Suas mortes e o caso de abuso sexual envolvendo diversos idols colocaram a indústria sob um escrutínio sem precedentes, principalmente com relação a forma de tratamento dispensados às mulheres que fazem parte dessa indústria.

Surgiram, também, questões desconfortáveis sobre a mistura tóxica entre misoginia e tabus relativos à saúde mental que tem destruído vidas, mais ainda do que a pressão intensa que essas idols estão sujeitas.

Sulli foi alvo de abuso online por não usar sutiã, por fazer uma live de uma noite de bebidas com os amigos, por chamar colegas – homens – mais velhos pelo primeiro nome e por se descrever como feminista, o que parece ser seu “crime” mais notório.

A sociedade sul-coreana ainda se apega à ideia de que homens devem ser respeitados e mulheres não, ao menos não como os homens“, diz Ryu Sangho, neurologista do hospital Haedong, em Busan. “A mídia se alimenta disso, então não é surpresa que o público não tenha a menor empatia com essas mulheres.”

Um ano antes de sua morte, Goo Ha ra levou seu ex-namorado, Choi Jongbum, aos tribunais, após ele ameaçá-la com um vídeo que mostrava o casal fazendo sexo. Choi foi condenado por abuso e chantagem e recebeu uma pena suspensa de 18 meses, mas foi considerado inocente no caso da filmagem ilegal. Ambos lados recorreram à sentença e, até a morte de Ha ra, o caso ainda não havia sido encerrado.

Houve muito pouca simpatia por Ha ra durante o julgamento, e a cantora atraiu uma gigante onda de abuso online e lúgubres histórias em tabloides sobre sua violação de uma lei imutável do k-pop: parecer inocente e sexualmente disponível.

O tabu sexual na Coreia do Sul pode ser comparado ao que existe em países ocidentais“, diz Tae Sungyeum, psiquiatra na clínica Gwanghwamun Forest. “O padrão moral exigido é muito alto, principalmente para mulheres celebridades, porque a Coreia do Sul é uma sociedade patriarcal.”

Porém, existem sinais que as atitudes estão mudando. Após a morte de Ha ra, além de diversos debates morais, uma petição foi criada no site da presidência, pedindo punições mais severas para os que comentam online. Em menos de um dia, a petição tinha mais de 20 mil assinaturas.

Mas isso trata apenas de uma pequena parte do problema relativo à saúde mental que a Coreia do Sul enfrenta e que foi trazido a tona após as mortes de Sulli e Goo Ha ra. Não é nenhuma coincidência que, na década em que diversas celebridades se suicidaram, houve um aumento de casos de doenças mentais e suicídios reportados na Coreia do Sul.

O país tem uma das maiores taxas de suicídio no mundo, que é a causa da maioria das mortes de pessoas abaixo dos 40 anos. Os tabus sobre saúde mental ainda impedem que muitas pessoas procurem ajuda.

As estrelas do k-pop, assim como milhões de sul-coreanos, são desencorajados a procurar ajuda para depressão, que é vista como uma falha moral.

A culpa é da sociedade sul-coreana, num geral“, diz Ryu. “Muitas pessoas com problemas ficam relutantes em tomar seus medicamentos por medo de serem vistos como fracos. Problemas de saúde mental devem ser tratados como problemas de saúde física. A sociedade sul-coreana tem que se atualizar.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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