As mais novas medidas sul coreanas para aumentar a já “criticamente baixa” taxa de fertilidade, incluindo uma campanha que incentiva trabalhadores a deixarem o emprego sem informar seus superiores, vem sendo questionadas sobre sua efetividade.

O Ministério da Previdência anunciou no dia 22 de agosto uma medida de emergência à curto prazo para combater a crise demográfica, incluindo expandir o auxílio estatal para casais em busca de tratamentos de infertilidade e aumentar a licença paternidade para pais que receberem o segundo filho.

Em seu esforço para aumentar a taxa de fertilidade total de 1,24 bebês por mulher para 1,5 até 2020 – o que significa 20.000 bebês a mais nascidos no ano seguinte – o Ministério também encoraja que os conglomerados da nação alterem sua cultura de trabalho para que seus trabalhadores possam passar mais tempo com suas esposas e eventualmente terem mais filhos.

40798542 - Illustration Of The Concept Of Life And Work Balance.

A Coreia do Sul é famosa por suas longas horas de trabalho – que se encontra entre as maiores entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – além da forte cultura do álcool que é muitas vezes considerada como obrigação profissional.

Para combater o problema e estabelecer uma cultura de trabalho mais “propícia” para famílias e casamentos, o Ministério da Previdência fez inúmeras sugestões na penúltima semana de agosto. As sugestões incluem permitir que os trabalhadores saiam do trabalho no horário certo e sem se despedirem do chefe.

Saudar e despedir-se dos superiores e dos mais experientes quando chegam ou deixam o ambiente de trabalho é considerado “etiqueta básica” na Coreia.

Um funcionário do governo, que desejou manter o anonimato, disse que escutou de vários trabalhadores coreanos que não conseguiam deixar o trabalho na hora devida, porque sempre que iam se despedir dos chefes, estes lhes passavam mais trabalho ou expressavam descontentamento.

Acreditamos que será mais fácil para os funcionários, sair do trabalho na hora, se não tiverem que se preocupar com possíveis desvantagens que possam enfrentar,” afirmou o funcionário.

Encorajar trabalhadores a deixarem o local de trabalho na hora devida também está relacionado com o péssimo equilíbrio entre emprego e vida, principalmente entre as mulheres.

Estatísticas mostram que homens coreanos são os que menos passam tempo fazendo tarefas domésticas entre todos os homens dos países da OCDE. Em 2014, as mulheres coreanas passaram em média 2 horas e 25 minutos diários em tarefas domésticas durante a semana, enquanto homens passaram 39 minutos, em parte devido às longas jornadas de trabalho. Além disso, apenas 4.45% de todos os pais coreanos fizeram uso da licença paternidade após 2014.

Muitos homens escolhem não usar a licença por receio de efeitos negativos na carreira, como uma possível demissão, por exemplo, de acordo com relatórios feitos pelo Instituto de Desenvolvimento da Mulher Coreana. Apenas 29,9% de todos os empregadores coreanos tem pelo menos um funcionário que fez uso da licença paternidade, de acordo com a mesma instituição.

Ji-Eun Kim, uma profissional de 33 anos de idade em Seul, disse que as recentes medidas do governo são impraticáveis e até ingênuas. Ji-Eun, que trabalha em um dos maiores conglomerados afirmou que funcionários da companhia não são obrigados a se despedir dos superiores quando saem do expediente. No entanto, a norma é que “ninguém deve sair antes do chefe”. “Talvez essas medidas possam funcionar para funcionários públicos, mas não em grandes empresas privadas”, ela afirmou.

Não se trata apenas de se despedir ou não. São várias coisas relacionadas, como por exemplo, a carga de trabalho – Eu frequentemente trabalho nos finais de semana porque é o único modo de terminar os projetos dentro do prazo – e também organizar a hierarquia e políticas que são muito ligadas com o mundo profissional”.

Han-Sub Park, um funcionário de 30 anos de idade em Seul, afirmou que ele não entende o porque da baixa taxa de natalidade ser considerada uma “crise” pelo governo. Han-Sub, atualmente solteiro, disse que pensa em se casar um dia, mas não ligaria de passar uma vida sem filhos.

Considerando nossa economia e o desenvolvimento tecnológico, eu acredito que a próxima geração terá menos empregos de qualidade. Tendo isso em vista, eu não considero a baixa natalidade necessariamente algo ruim” disse ele, apontando uma tendência nacional entre os jovens de relutar em ter filhos.

O governo continua dizendo que a atual taxa de natalidade irá reduzir a população economicamente ativa. Mas acho que uma porção significativa da próxima geração – aqueles que são ‘jovens e logo economicamente produtivos’ – será desempregada ou viverá em condições limitadas de emprego. Acredito que a maioria dos jovens coreanos entende isso. Mas não acho que o governo entende”.


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