O presente artigo foi elaborado pelo jornalista Jun Michael Park, do Korea Exposé em janeiro de 2017. Ele traz uma breve imagem do desespero e medo das famílias que ainda não tiveram a oportunidade de reaver seus entes queridos, que ainda sofrem com a incerteza e o trauma da tragédia da Balsa Sewol de 2014. Apesar de poucos remanescentes, cada família sem uma conclusão definitiva continua tendo lembranças vivas do acidente que tomou as vidas de 304 pessoas, muitas delas jovens estudantes. Esses familiares merecem respostas, merecem uma oportunidade de seguir em frente com suas vidas. Merecem que suas dores possam ser finalmente amenizadas.

1000 Dias de Espera

O Porto Paengmok é situado na ponta sudoeste da Península Coreana. É o ponto mais distante acessível por transporte terrestre, cerca de 400 quilômetros da capital da Coreia do Sul, Seul. Esse pequeno e afastado porto, normalmente usado para transporte de habitantes locais e bens de consumo para as ilhas próximas, se tornou um local de peregrinação após o naufrágio da Balsa Sewol. É também o porto mais próximo do local do acidente, cerca de 25 quilômetros, e onde centenas de parentes esperaram em vão pelo retorno de seus entes queridos no início de 16 de Abril de 2014.

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O quebra-mar, uma vez uma simples parede de concreto, agora é decorada com memórias. Placas feitas à mão com os nomes das 304 vítimas, assim como desenhos de flores e estrelas espalhados na parte interna da calçada que contorna o local. Bandeiras amarelas se alinham na cerca e balançam ao vento como sinos, aumentando a atmosfera de desolação. A fita amarelao símbolo da Sewol – está pintada no farol vermelho, que foi apelidado como “Farol da Espera”. Visitantes leem os cartazes escritos com cuidado e tiram fotos dos memoriais, seus olhos avermelhados pelas lágrimas. Um dos cartazes escritos em inglês se destaca: “Ainda existem pessoas presas dentro da balsa naufragada. Por favor, ajudem-nos a traze-los de volta para casa…cada um deles!

Além do quebra-mar e do estacionamento do porto, existe uma pequena colônia de casas temporárias que poderia ser facilmente confundida com terreno em construção ou espaço para pescadores. Mas é marcada por um pequeno altar que guarda os retratos funerários das vítimas do naufrágio. A colônia se tornou a segunda casa das famílias dos passageiros da Sewol, cujos corpos ainda não foram reavidos. As famílias esperam ali até a balsa ser removida e os corpos de seus filhos e parentes sejam encontrados.

As pessoas não sabem que ainda estamos aqui esperando. Nós nos sentimos isolados,” disse Park Eun-mi, mãe de Heo Da-yoon. Sua filha é uma das quatro estudantes desaparecidas da Escola Danwon. Dois professores e três outros passageiros – um pai e um filho, e uma mulher – também estão desaparecidos. Acredita-se que seus corpos ainda estejam presos dentro da balsa. Park e seu marido, Heo Heung-hwan, tem morado na colônia do Porto Paengmok há dois anos, junto de Lee Geum-hui e Cho Nam-seong, parentes de outro estudante desaparecido, Cho Eun-hwa, e Kwon On-bok, parente do pai e filho desaparecidos no naufrágio, Kwon Jae-geun e Kwon Hyeok-kyu.

Do Ginásio Jindo para o Porto Paengmok

Eu testemunhei o pandemônio quando entrei no Ginásio Jindo em 17 de Abril de 2014, um dia após o naufrágio. O local fica há 17 quilômetros do Porto Paengmok e estava sendo usado como abrigo de emergência para as famílias dos então passageiros “desaparecidos”. Lá dentro, pessoas entravam e saiam atordoados. Tapetes e cobertores de cores feias cobriam o salão principal em desordem, uma onda de murmúrios indecifráveis cobriam as notícias recentes vindas da grande tela de TV. Debaixo da forte luz fluorescente, os parentes, repórteres, voluntários e até alguns artistas se amontoavam em uma massa humana sem expressão. Aconteceu de eu escutar uma conversa enquanto tentava encontrar um familiar para entrevistar: “Se você pagar 100.000.000 wons [US$ 90.000 de acordo com a cotação da época], eu tiro seu filho de dentro do navio.

Ao mesmo tempo, o Porto Paengmok havia se transformado em um manicômio isolado do restante da Coreia do Sul. Conforme o tempo precioso passava, os parentes se tornavam mais impacientes. Corpos sem vida eram retirados do mar, sem nenhum sinal de tentativa de resgate; um após o outro. Mães que aguardavam entravam em colapso e eram carregadas para as ambulâncias. Jornalistas coreanos e estrangeiros corriam atrás de qualquer notícia nova – ou digna de imagem, algumas vezes brigando uns com os outros e deixando pouco espaço para os parentes sofrerem em paz. Agentes públicos e equipes de resgate se movimentavam confusas.

Conforme as famílias mais sortudas – aquelas que reaviam os corpos de seus parentes com sucesso – deixavam o local para fazerem funerais, o Ginásio Jindo ficava cada vez mais vazio. Ao retornar ao ginásio 30 dias após o naufrágio, me deparei com o local estranhamente quieto se comparado com minha visita anterior. Até o momento, o número de vítimas desaparecidas havia caído para 23. E eventualmente caiu para 9 no fim de outubro de 2014 e se manteve assim até então. A atenção da mídia se voltou para aqueles protestando e lutando ativamente. O caos se reduziu a uma quietude insuportável, e a incerteza de quando e se iriam encontrar os corpos de seus entes queridos, tem desde então assombrado as famílias restantes.

No início esperávamos o retorno de nossas crianças, mas depois começamos a nos alegrar com a volta de pelo menos os corpos de cada um deles” comentou Lee Geum-hui sobre a cooperação entre as famílias da tragédia em Jindo durante as semanas iniciais. Ela não sabia que a maioria dos pais iria encontrar os corpos de seus filhos nos próximos dois meses, mas seu sofrimento continuaria indefinidamente. “Agora, somos a minoria da minoria, restam apenas 9 dos 304.

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A missão de busca pelos corpos foi encerrada em 11 de novembro de 2014, e o governo sul coreano anunciou oficialmente em 11 de abril de 2016 que a Sewol seria recuperada. Os últimos três anos têm sido agonizantes para as famílias dos passageiros desaparecidos. Enquanto os pais que encontraram os corpos de seus filhos tiveram a chance de fazer funerais e seguir em frente na luta por verdade e justiça, as famílias dos passageiros remanescentes estão presas no limbo, traumatizadas pela experiência de isolamento e abandono. Suas vidas pararam por completo e se mantêm sem sinal de ponto final, encontrar os corpos de seus entes queridos se tornou a sua única razão de viver.

A Espera da Operação de Recuperação

A vida no Porto Paengmok passa devagar e é definida por uma rotina simples. Até as notícias sobre o impeachment da presidente Park Geun-hye são bastante sem importância aqui. Para as famílias remanescentes isso significa muito pouco. Tudo que pensam e conversam é sobre a operação para recuperar a balsa e localizar os corpos.

Ventos uivantes se chocam nas paredes de 15 metros quadrados dos abrigos temporários e a sala comunal familiar em um container de aço. Quando os ventos ficam mais fortes e as ondas crescem, os barcos atracados nas docas próximas dali fazem um som de lamento agudo. Durante a noite, se torna ainda mais desconcertante e sinistro, gerando noites de preocupação e sem sono. No salão comunal, Lee Geum-hui joga piadas leves e faz gestos exagerados para controlar o humor obscuro. Se o vento é forte assim ali, dizem as famílias, será ainda mais forte no local do acidente, a barcaça e guindastes terão que sair, atrasando ainda mais a operação de recuperação.

O local de acidente em Maenggolsudo é conhecido como o segundo lugar com maior mudança de maré da Coreia do Sul, e a operação enfrentou inúmeras dificuldades técnicas. Os múltiplos atrasos criaram a suspeita que o governo esteja atrapalhando intencionalmente até que a Comissão de Investigação de Sewol seja desfeita.

É como se estivéssemos sendo mantidos reféns pelo governo,” brincou Cho Nam-seong, pai de Eun-hwa. As famílias restantes se asseguram de não criticar o governo de modo aberto, com medo de aumentar a tensão e atrasar ainda mais a  já demorada operação de recuperação. “Pense assim. Se algumas crianças são sequestradas, a primeira reação natural dos pais é pedir o retorno seguro delas. Punir os sequestradores vem depois disso,” disse Cho.

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Desde o fim da operação de busca, os Heos e Chos tem tentado tudo que podem para manifestar-se e obrigar o governo a buscar o navio. A família Heo planejou protestos em Hongdae e em frente ao gabinete presidencial em Seul. A família Cho viajou para reuniões e protestos em prefeituras regionais, somando 400 quilômetros viajados por dia entre março de 2015 e março de 2016. Agora, todos os quatro participam de protestos à luz de velas por toda a Coreia do Sul para pedir ajuda das pessoas, para lembrar o naufrágio e manter a atenção até o navio ser reavido. É como se eles estivessem punindo a si mesmo de modo deliberado, apenas para poderem sobreviver a essa provação excruciante.

A espera é realmente desconcertante. Da yoon pode não querer isso para mim, porque é muito difícil. Mas eu quero encontra-la e oferecer um funeral próprio. Isso é tudo que posso fazer e a minha razão de viver,” disse Park Eun-mi.

Eun-mi mostrou uma foto de Da-yoon na tela de seu celular. Eu havia apenas visto Da-yoon em sua foto da carteirinha escolar, a qual se tornou seu retrato funerário. Na tela ela usava um par de óculos, que a fazia parecer mais jovem e tímida.

Da-yoon nunca gostou de ser fotografada. Um dia, no caminho de volta de escola, eu a fiz sentar e tirei fotos com meu celular. Se tivesse tirado estas com o celular dela, ela teria deletado. Isso é tudo que sobrou dela agora” a voz da mãe treme enquanto fala sobre Da-yoon, como se estivesse fisicamente abalada pelas memórias da filha. Em um retrato de família tirado três dias antes do naufrágio da Sewol, todos os quatro membros da família sorriem alegres, ignorantes sobre o destino que os aguardava.

Da-yoon estava inflexível quanto a não querer ir nessa viagem da escola, mas eu pensei ser parte do currículo escolar e ela não deveria perder a chance. Eu até liguei para o professor dela para convence-la. Agora eu me arrependo todos os dias”.

Famílias aguardam juntas

Enquanto seus pais lutam nessa batalha, a irmã mais velha de Da-yoon, Seo-yoon, e o irmão mais velho de Eun-hwa, Seong-hyeon, foram deixados para cuidar de si mesmos em Ansan. Um dia antes da véspera de ano novo, há algumas semanas atrás, Seo-yoon visitou o Porto Paengmok e a família se reuniu novamente. Heo, um homem tímido, mas amigável, grelhou bifes com um pequeno sorriso, enquanto mãe e filha comiam e conversavam. Heo não via sua filha há mais de dois meses. Lee Geum-hui se juntou ao jantar e observou os Heos com um toque de inveja. Seu filho Seong-hyeon sofre com um problema cardíaco e um trauma terrível, se recusando a ir ao Porto PaengmokEun-mi passou os dedos com carinho pelo cabelo de Seo-yoon, e sorriu, emitindo um vago toque de calor e normalidade ao local de tristeza eterna. Isso é como a vida deles seria durante qualquer período normal de feriado se a tragédia não tivesse ocorrido.

Se eu desistir agora, tenho medo que Seo-yoon pense que eu desisti dela também. Eu quero em algum momento dizer a ela “Encontramos sua irmã, vá e siga sua vida como deseja agora” disse Eun-mi.

Os 1000 Dias de Espera tiveram um custo físico, emocional e financeiro para as famílias remanescentes. Eles se sustentam com empréstimos e doações de vários grupos sociais. Após quase três anos, sua provação pode enfim chegar ao fim. O Ministério do Mar e Pesca, anunciou no mês passado que espera que o navio seja recuperado no fim de março. Mas após passar por todos esses atrasos, as famílias continuam paralisadas por uma corrente de profundo medo – que eles talvez sejam os últimos a carregarem a dor e o estigma de Sewol e sejam objeto de pena para sempre.

Às vezes eu penso se poderemos voltar a ter vidas normais depois de três anos vivendo desse modo. E se as outras famílias encontrarem seus entes e nós não? E se formos os únicos restantes? E o que vai acontecer se encontrarmos Eun-hwa? Eu não sei se poderemos continuar seja de que forma”.


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