A Coreia do Sul foi recentemente apontada como o país com a menor produtividade por trabalhador no âmbito da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, formada por 34 países). Esta notícia pode não surpreender os profissionais que já trabalharam ou que estão atualmente trabalhando na Coreia, uma vez que as notórias horas extras, principalmente nos últimos tempos de baixo crescimento, têm sido uma questão amplamente discutida. Contudo, surpreende o leitor comum, bem como os apreciadores da Cultura Coreana em geral, pois o que é normalmente divulgado é que os trabalhadores (assim como os estudantes) coreanos vivem uma intensa pressão, trabalhando (e estudando) durante horas à fio, tendo inclusive poucas horas de sono.
Então por que é que os trabalhadores coreanos e, portanto, as empresas, aparentemente, foram consideradas tão improdutivas? De acordo com o australiano Michael Kocken, Consultor de Mercado na Coreia, e idealizador do blog The Swon, a principal razão é a falta de competência na gestão de tempo no mercado de trabalho em geral.

Michael Kocken
Michael Kocken se apresenta num evento sobre negócios entre a Austrália e a Coreia no hotel JW Marriott de Seul. Foto: Business Korea.

Ele trabalhou durante algum tempo como funcionário da área de Recursos Humanos na Donghwa Holdings, e teve oportunidade de imergir completamente na cultura do escritório, falando apenas coreano, uma vez que ele era um, dos apenas dois funcionários estrangeiros da empresa em Seul. Essa imersão lhe proporcionou uma visão interna das questões de gerenciamento de tempo que assola os escritórios coreanos. Com base nessa experiência, ele desenvolveu uma lista de 7 razões pelas quais a Coreia tem a pior produtividade da OCDE.

1. Estruturas Rígidas e Hierarquia

Estruturas Rígidas e Hierarquia

A estrutura das empresas coreanas é conhecida pela sua rigidez e abordagem “de cima para baixo”. Alguns especialistas chegam a comparar o cenário empresarial coreano à uma divisão do exército, tal é a influência do serviço militar e liderança autoritária no cenário corporativo.

Um subproduto desta estrutura rígida é a constante e desnecessária atitude de reportar tudo aos superiores, como soldados a seu oficial. As equipes despacham com os chefes de departamento, e às vezes até mesmo com o conselho executivo, regularmente. Além disso, se um diretor deseja saber sobre algo, independentemente se o assunto é pertinente aos objetivos do projeto, o líder da equipe é obrigado a apresentar um relatório aos diretores, geralmente dentro de um prazo muito curto. Esse líder, então, larga qualquer coisa relacionada com o trabalho que a equipe esteja desenvolvendo e faz com que passem os próximos dias pesquisando e preparando uma apresentação “que impressione” o diretor.

Este ciclo constante de relatórios faz com que haja pouco trabalho estratégico e verdadeiro movimento dentro da empresa. Em vez disso, o ambiente corporativo se transforma num corpo de bombeiros, onde as equipes estão sempre alertas para incêndios no local, e precisam estar prontas para responder a problemas inesperados imediatamente. Neste cenário a empresa transforma-se em um carrossel interminável de auditorias e relatórios, o que resulta em perda de tempo do líder da equipe, que passa a maior parte de seu tempo fazendo apresentações em PowerPoint para o CEO.

2. Problemas de Comunicação

Apesar da cultura imposta de regularmente sair para beber como uma forma de socialização e interação entre as pessoas, as empresas coreanas sofrem de uma falta de comunicação direta, honesta e eficaz. As equipes e departamentos, muitas vezes, funcionam muito bem juntos. Mas o hábito de constantemente estarem almoçando e bebendo juntos nas sessões de socialização após o expediente, criou um efeito colateral – o aparecimento das famosas “panelinhas”, como dizemos no Brasil. Como resultado, as equipes em diferentes departamentos tornam-se quase inimigas. As ligações interdepartamentais são praticamente inexistentes e as unidades de negócios dentro da empresa tornam-se suspeitas e demasiadamente competitivas. Má comunicação sempre resulta em um desempenho ruim, e quando existem relações interdepartamentais pobres, o desempenho da empresa como um todo, sofre ainda mais.

A comunicação em inglês também é um problema nas corporações coreanas. Muitos coreanos, frustrados com a ênfase dada ao Inglês em seu país, questionam a necessidade de saberem inglês quando eles nunca irão usá-lo no local de trabalho. A maioria dos coreanos pensa que aprender Inglês é útil apenas como um meio para se comunicar com parceiros de negócios estrangeiros ou para uso em e-mails corporativos. Mas eles ignoram o fato de que um mundo de recursos e conhecimento (estudos de caso, relatórios anuais, dicas profissionais) está disponível para eles através da Internet, predominantemente em Inglês, e que apenas uma fração de tudo que está lá já foi traduzido. Os funcionários bilíngues sempre terão a vantagem de uma simples busca no Google, que pode fornecer centenas de milhares de fontes de informação alternativas ao que está disponível para um funcionário comum, que está limitado à busca em seu próprio idioma em portais como o Naver. (Aqui no Brasil, o que se percebe é que essa resistência também existe, principalmente entre os executivos mais velhos, contudo, boa parte da geração que está a caminho do mercado de trabalho está atentando para a necessidade de ser bilíngue).

3. Telefones Celulares e Comunicação On-line

KakaoTalk

A Coreia é uma sociedade verdadeiramente conectada uma vez que pode contar com uma rede de banda larga fantástica que fornece o serviço de Internet mais rápido do mundo para seus negócios. No entanto, a facilidade e preferência pela comunicação on-line ou através de aplicativos de mensagens pelo celular está se tornando um problema real no local de trabalho. É possível ver um andar inteiro de escritórios tão silencioso quanto uma biblioteca. Todo mundo está teclando furiosamente em suas estações de trabalho, e pode-se facilmente presumir que é porque todos estão trabalhando muito duro. Mas ao atentar para as telas vê-se que a maioria dos funcionários estão envolvidos em alguma forma de mensagens on-line, quer seja a versão desktop do Kakaotalk (o aplicativo de conversa mais popular da Coreia), o Skype for Business, ou o NateOn. Os funcionários estão, normalmente, conversando com outros colegas do escritório – ocasionalmente sobre o trabalho – mas mais frequentemente, estão apenas batendo papo.

Como há uma regra silenciosa na sociedade coreana de que falar no escritório dá a aparência de que não se está trabalhando, os funcionários são obrigados a enviar mensagens através da Internet, mesmo se a pessoa com querem falar estiver sentado ao lado. Se não são os aplicativos no computador, são os de celular. Os funcionários podem ser vistos checando seus telefones a cada dez minutos para ver se tem mensagem ou retirando-se para atender um telefonema pessoal.

Uma pesquisa recente com 706 trabalhadores administrativos feita pelo portal de headhunting Career.co.kr, constatou que mais de 61 % dos entrevistados disseram ter um lugar de descanso no trabalho. Destes 61 %, um quarto disse que fogem para o banheiro e, pouco menos de 45 % responderam que usam seu telefone durante este tempo para jogar na Internet, mandar SMS e em chamadas telefônicas. Em qualquer banheiro de edifício de escritórios em Seul pode-se ouvir toques de mensagem e som de jogos o tempo todo.

4. Funcionários de Ressaca Fazem Pausas Excessivas

Homens de negócios brincam numa fonte em rua de Seul. Foto: Ingmar Zahorsky via Flickr
Homens de negócios brincam numa fonte em rua de Seul. Foto: Ingmar Zahorsky via Flickr

Empresas coreanas incentivam e pagam para os funcionários desfrutarem de jantares e bebidas após o expediente com grande frequência, acreditando que esse hábito melhora a lealdade e a comunicação interpessoal entre os trabalhadores.

A única exigência é que todos estejam no trabalho no dia seguinte (de preferência no horário). É incrível que depois de todos esses anos esta interação ainda seja considerada o aspecto mais importante para que uma equipe que funcione bem, e que as ressacas regulares sejam apenas uma pequena inconveniência.

O pessoal pode não estar em condições de produzir muita coisa – com os olhos vermelhos, dor de cabeça, afinal, não obteve o descanso adequado para se recuperar da noite anterior – mas tem que estar lá.

Fumar é também um grande problema que afeta a produtividade. É claro que é benéfico para os trabalhadores terem breaks regulares para sair de sua cadeira, se esticar, refrescar a cabeça um pouco, mas o tempo utilizado para fumar é tão grande que os não-fumantes muitas vezes se sentem em desvantagem, porque eles vão efetivamente passar, em média, uma hora a mais em suas mesas. Eventualmente, os não-fumantes começaram a fazer mais breaks para o café para poder também aproveitar uma horinha extra de descanso por dia. No mesmo estudo feito pela Career.co.kr, descobriu-se que quase metade dos 706 funcionários pesquisados deixavam suas mesas para ir a um local de descanso de três a quatro vezes por dia. Eles ficavam lá por 13 minutos, em média.

5. A Forma Sobrepõe O Conteúdo

Durante o tempo em que Michael Kocken trabalhou interno em uma empresa coreana, uma das observações que fez foi que os colegas de trabalho passavam dois ou três dias trabalhando em apresentações extravagantes na aparência, com imagens, fluxogramas e gráficos para algo que continha meio dia de pesquisa em termos de conteúdo. Essa é uma cultura nos escritórios coreanos, que obriga os funcionários a gastar muito tempo “embelezando” relatórios simples que levariam 10 minutos para serem apresentados em uma reunião informal ou chat.

Esta tendência em sempre querer passar uma impressão favorável existe na maioria das equipes e departamentos nas empresas sob a forma de homens e mulheres que sempre dizem “sim”. Esses funcionários, sacrificam suas opiniões pessoais e feedbacks honestos para parecerem leais e subordinados. Mesmo que esse gesto de lealdade seja falso ou pareça superficial, ele ainda é preferido à uma comunicação sincera. Muitas vezes Michael testemunhou colegas de trabalho repetirem cegamente “sim, sim, sim” às ordens de um superior sem nem ao menos perguntar “por que” ou “como”, deixando-os com pouca compreensão do trabalho que estavam concordando em fazer, e eventualmente, um ressentimento para com aqueles que deram as ordens.

6. Recém Formados Mais Velhos e Sem Experiência

Os funcionários coreanos recém-formados, apesar da competição extrema para o emprego, são em sua maioria despreparados para o local de trabalho, e possuem pouca competência em investigação e fornecimento de informações. Este é um efeito colateral de um sistema de ensino baseado em testes onde faltam aplicações práticas do aprendizado. Muitos jovens recém-formados chegam ao mercado de trabalho com experiência “zero”, e ainda acumulam algumas atividades voluntárias obrigatórias.

Isso é ainda mais surpreendente, quando se considera um dado descoberto através de uma recente pesquisa realizada pela Dong-A Ilbo e o site de recrutamento Incruit.com, que constatou que a idade média dos recém-formados na Coreia é de aproximadamente 33,2 anos de idade para homens e 28,6 anos para mulheres. A idade avançada dos recém formados coreanos em comparação com o Ocidente é resultado de 2 anos de serviço militar obrigatório para os homens, experiências internacionais durante universidade, e outros anos gastos estudando para vários certificados e títulos vistos como essenciais para obtenção de um bom emprego.

Esse processo cria uma força de trabalho de pessoas de 30 e poucos anos sem experiência de trabalho e expectativas irrealistas sobre a função. Um funcionário da mesma idade no Ocidente tem quase 10 anos de experiência de trabalho à mais do que um coreano, e não há nenhuma “quantidade de instrução” que possa substituir esse tipo de diferença. Tal é a desilusão com a vida corporativa que o site de recrutamento Saramin, descobriu no ano passado que 3 em cada 10 novos funcionários saíam de seus empregos no primeiro ano de trabalho, com a maioria citando que sua função não correspondia às suas aptidões – outro sinal de que os recém-formados não saem da universidade preparados para as realidades do mercado de trabalho.

7. A Arte de Parecer Ocupado

A arte de parecer ocupado

Em ambas situações, de negócios ou sociais, os coreanos fazem questão de dar a impressão de estarem ocupados. Raramente você vai encontrar um coreano que diz ter relaxado ultimamente. Estar ocupado é um status “desejado” e usado como um “distintivo de honra”.

Isto leva os trabalhadores coreanos a ficarem até mais tarde, muito mais tarde do que qualquer funcionário de outro país da OCDE, para dar a impressão de ser ocupado. Infelizmente, ficar até tarde no escritório não equivale a uma maior produtividade e, embora os funcionários coreanos afirmem serem muito ocupados no trabalho, a realidade é que a maioria exagera em sua carga de trabalho, o que faz com que a lei de Parkinson sobre o tempo, se torne uma realidade para eles.

A lei de Parkinson foi publicada por Cyril Northcote Parkinson num artigo na revista The Economist em 1955, sendo depois reimpresso com outros artigos no livro (em inglês) Parkinson’s Law: The Pursuit of Progress, baseado em sua extensa experiência no serviço civil britânico, e diz que “O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização”. Isso para os coreanos significa que eles devem ficar até mais tarde tendo trabalho ou não, pois ficando, o trabalho aparecerá. É novamente um outro teste de percepção, lealdade e pressão social. Então, a aplicação da lei de Parkinson ocorre naturalmente. Para quê terminar o seu trabalho até as 5 horas, quando você sabe que vai estar no escritório até as 10 ou 11 da noite de qualquer maneira?

O consultor acredita que este estilo de pensamento é um dos maiores obstáculos para superar a cultura de trabalho improdutivo na Coreia. Os funcionários coreanos devem ser honestos consigo mesmos no fato de que às vezes eles não estão realmente tão ocupados, mas isso não os torna preguiçosos. Concentrar-se em seu trabalho, terminá-lo a tempo, e ir para casa no tempo certo é de fato o inverso de um trabalhador preguiçoso. Essa ideia precisa ser reconhecida e executada nas empresas coreanas.

Espero com este post ter sido capaz de fornecer um pouco mais de visão sobre com o que as empresas coreanas estão lidando e algumas razões pelas quais a Coreia foi avaliada como tendo baixa produtividade. Claro, que esta é uma visão subjetiva com base na experiência de Michael Kocken em um ambiente de trabalho coreano, mas pode talvez fornecer alguns insights para aqueles que se perguntem o porquê do resultado da pesquisa em comparação aos outros países da OCDE.

Muitas das questões que Michael descreve não são exclusivos da Coreia. Este comportamento é visto em algumas empresas americanas e até no Brasil. No entanto, parecem hábitos mais arraigados na Coreia do Sul devido aos aspectos históricos e culturais profundos que estão enraizados na psique nacional. A esperança está na próxima geração, que está, sem dúvida, cansada das práticas de trabalho insustentáveis e que vai lutar para retirar-se do dogma da vida nas empresas, o que realmente propiciará uma mudança real no futuro.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



9 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito do texto, Simone. Ainda não tinha lido muito sobre as empresas, mas não acredito que a mudança esteja nas mãos da próxima geração. Acho que a Coreia talvez precise entrar em recessão pra começar a pensar em mudanças, mas essa não é minha área… Eu gostaria de sugerir duas pautas: uma sobre estupro, a culpabilização da vitima e o esforço pra abafar o caso; outro sobre transexualidade, o preconceito em torno disso e o esforço pra reforçar que a pessoa trans é doente. Recentemente li no The Korea Herald sobre garotos de programa, também é um assunto interessante, mostrar que as mulheres consomem esse tipo de serviço. Eu gosto de ler sobre o país como ele é, então tenho boas expectativas. Espero ver o blog abordando assuntos que merecem ser questionados.

  2. Oi Bianca!! Realmente a minha coluna terá este papel. O de trazer a realidade da Coreia para os leitores. Obrigada pelas sugestões de tópicos a serem abordados. Com certeza serão considerados. Um Abraço!!

  3. Acertou na mosca! Muito precisa a descriçao do ambiente nonsense de trabalho coreano! Produzem muito, porém muito do que é feito visa apenas melhorar alguns indices ou maquiar a realidade na sua vitalicia missao de nao ser repreendido. Obrigado por compartilhar! Traduziu muito bem o que eu venho presenciando!

  4. Realmente, a matéria é bem realística en relação ao ambiente de trabalho numa empresa coreana, principalmente em relação aos relatórios para impressionar. Eu trabalhei 15 anos numa multinacional sul coreana de eletroeletrônicos e vivia isso todos os dias. Tinha dia que eu me sentia um “Pinocchio” de tanto enfeitar relatórios…. Sem falar numa verdadeira obsessão pelo “5S+3R”….

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