Quem acompanha os meus textos deve saber que eu cheguei ao Brasil em 1981, na verdade praticamente no fim do ano. Contei a história da minha chegada num post anterior, mas acredito que não contei que essa não foi a minha primeira vez no Brasil. Sim, eu havia vivido no Brasil por três meses em 1976, antes de partir para dois anos vivendo em Assunção no Paraguai, onde meu irmão nasceu e depois mais dois anos em Santiago do Chile. A história é cheia de detalhes e vou contá-la hoje para que vocês tenham uma ideia do que os imigrantes coreanos (e também os de outras etnias) sofreram para chegar aqui.

Minha família decidiu sair da Coreia em 1975, porque a situação econômica não era muito boa. Inclusive economistas adoram comparar o Brasil e a Coreia e esta passava por um momento muito ruim devido ao pós-libertação e pós-guerra. Muitos foram para os Estados Unidos, para a China ou Japão. E outros, decidiram ir para a América do Sul, mais exatamente para o Brasil, Paraguai e Argentina, sendo o Chile outro destino muito escolhido mas em número menor que nesses três países. A razão é que nessa época dizia-se que a América do Sul era um lugar de muito potencial (era e ainda é, apesar dos pesares).

A Primeira Vez No Brasil
Eu, algum tempo antes de sair da coreia

Pois meus pais empacotaram tudo que tinham em algumas malas e comigo a tiracolo, lá fomos nós. Foram incríveis 35 horas somente de vôo, fora as inúmeras paradas no caminho e a pernoite em Los Angeles, nos Estados Unidos. E aqui chegamos no Aeroporto de Congonhas, que naquela época era um aeroporto internacional. E ao chegar, meus pais descobriram que a realidade seria muito mais difícil que o sonho: um policial federal percebeu que a gente não falava português e começou a ameaçar que barraria a nossa entrada se não pagássemos uma “taxa”. E ao vasculhar os bolsos do meu pai, descobriu que ele tinha 100 dólares e ficou com tudo. A sorte é que já haviam nos avisado que isso poderia acontecer e precavido, ele costurou mais 100 dólares dentro do forro da jaqueta. E foi com esse dinheiro que começamos a nossa vida aqui.

O visto de turista era de três meses e durante este tempo, meus pais analisaram tudo o que poderiam fazer para conseguir sobreviver. Como o dinheiro que trouxeram era pouco, para fazer algum dinheiro rapidamente venderam roupas e cobertores que tinham trazido da Coreia. E assim foram até que perceberam que nessa época em que a ditadura ainda era muito forte, não conseguiriam regularizar os documentos a tempo de ficar tranquilos por aqui. Porque só quem já foi “ilegal” no Brasil sabe das enormes dificuldades e o medo de ser pego, não pelo medo de ser deportado mas pelo medo de ser extorquido.

Assim, decidimos que o melhor seria ir para o Paraguai, onde a situação para estrangeiros era um pouco mais tranquila e onde acabou nascendo o meu irmão. E de lá, fomos para o Chile. E depois, finalmente em 1981 voltamos ao Brasil novamente numa viagem de avião que foi bem mais curta do que a de 1976 vindo da Coreia. Inclusive minha mãe ADORA contar que houve muita turbulência nesse vôo e que eu fiz xixi na calça… rsrsrs. Mas aí já é outra história para contar depois!

Um detalhe que me enche de orgulho é que já depois de formado escolhi seguir a carreira pública, com aquela vontade típica dos jovens de querer mudar o Brasil e o mundo. E em 2008 estava trabalhando em Brasília como chefe de gabinete e responsável jurídico pela produção legislativa do Deputado Federal William Woo, que foi entrevistado na semana passada pela Carol Lee. E tive a honra de ter sido o responsável pela elaboração e acompanhamento legal até a aprovação da Lei de Anistia Migratória (Lei 11.961/2009), que tirou da margem da sociedade mais de 50.000 pessoas entre bolivianos, peruanos, paraguaios, chineses e coreanos. Gente que como a minha família em 1976, sofria pelo fato de serem ilegais no país que escolheram para ser o seu novo lar.


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2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Bruno, muito interessante seu posto (como tudo que vc escreve #vireisuafã), não consigo imaginar as grandes dificuldades que sua família passou, assim como todos que vieram para um país completamente diferente. É admirável a garra dessas várias famílias.
    Que viva a Coreia do Sul/ Brasil, viva!Viva” .
    P.S.: Sua esposa é muito linda o.O, parece aquelas it girls da Coreia rs. Vocês formam um casal muito lindo.

  2. Fiquei feliz de saber que vc foi um dos responsáveis pela lei da Anistia. Lembro de ter ficado super contente com essa lei, principlamente por causa dos meus vizinhos bolivianos que sofriam (e alguns ainda sofrem) com a ilegalidade. Parabéns!

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