Kim Saeng-min, um comediante coreano que esteve sob os holofotes desde o seu debut em 1992, é uma das celebridades mais conhecidas no país atualmente. Por mais de duas décadas, Saeng-Min se manteve em papeis de apoio. Mas seu novo programa, Kim Saeng-Min’s Receipt (O recibo de Kim Saeng-Min, em português), transmitido na KBS2, já atingiu a fama após menos de três meses de estreia.

O programa estreou em agosto, é apresentado em conjunto com outras duas comediantes e dura uma hora, durante a qual Saeng-Min analisa os gastos de um mês enviados pelos ouvintes e chama a atenção a qualquer consumo exagerado. É atualmente o programa de maior audiência nacional.

Saeng-Min com as comediantes Song Eun-I e Kim Sook, no evento de lançamento do programa. Foto: Yonhap
Saeng-Min com as comediantes Song Eun-I e Kim Sook, no evento de lançamento do programa. Foto: Yonhap

Em uma época economicamente difícil, o comediante está na linha de frente da promoção de uma vida econômica, de uma maneira divertida, se opondo a cultura do YOLO – You Only Live Once (você vive apenas uma vez) – que se expandiu por todo o país.

Eu comecei a ouvir o programa porque todos na internet estavam falando sobre ele”, conta a dona de cada Kim Eun-Young. “O que me surpreendeu foi que ele trata de economizar dinheiro, enquanto a mídia em geral só fala em gastar.” Eun-Young tem uma filha de 4 anos e mora em uma casa onde a renda vem de apenas uma pessoa, por isso sempre se sentiu estranha em relação a essa cultura de gastar dinheiro como se não houvesse amanhã. “Depois que minha filha nasceu, nossos objetivos passaram a ser apenas sair do vermelho, e para isso, precisamos economizar bastante. Eu me senti melhor por descobrir que não somos apenas nós que estamos nessa situação”, diz.

O termo YOLO surgiu em 2011, em uma música do rapper canadense Drake, e se espalhou pela Coreia após aparecer em um programa de variedades popular no começo do ano passado. As empresas rapidamente se adaptaram ao conceito e começaram a utilizá-lo nas campanhas, para incentivar o consumo.

De acordo com uma pesquisa da empresa Embrain, 70,6% das pessoas afirmam que a frase foi muito comercializada, e 55,9% dizem que essa cultura apenas promove o consumo excessivo. A pesquisa foi feita em julho desse ano, com pessoas entre 19 e 59 anos.

Exemplo de campanha publicitária utilizando a popularidade do YOLO. Foto: Bomul Tour
Exemplo de campanha publicitária utilizando a popularidade do YOLO. Foto: Bomul Tour

O termo então se tornou sinônimo de gastar dinheiro para aproveitar o momento. Os seguidores do YOLO dizem que não há sentido em economizar, uma vez que com o dinheiro recebido no presente não é possível nem comprar uma casa própria.

Lee Mi-Ji, é uma trabalhadora comum com um salário médio de 2 milhões de won/mês (aprox. R$5.500,00), e acha que o melhor é economizar o máximo que pode. “Eu tentei viver a cultura do YOLO uma vez, comprando cosméticos novos, fazendo as unhas etc como todo mundo, mas eu não consigo viver assim”, conta.

Os preços crescentes de imóveis me fazem pensar que é impossível conseguir comprar um sem fazer um empréstimo, ao menos que eu ganhe na loteria, mas eu ainda acho que é melhor diminuir o máximo que puder a quantia a ser emprestada”, completa Mi-Ji, que também é fã do Saeng-Min’s Recipe.

O professor Lim Woon-Taek, da Universidade Kiemyung, em Daegu, a 300km de Seul, diz que o crescimento do YOLO e a popularidade do podcast são “dois lados da mesma moeda” . “Quando a condição econômica não está clara, as pessoas tendem a tomar decisões radicais”, afirma. “Os dois fenômenos são reflexo da ansiedade dos coreanos quanto ao futuro.”

De acordo com informações do Banco da Coreia (BOK), o débito familiar médio no país têm crescido assustadoramente, alcançando um recorde de 1.388,30 trilhões de won (aprox. 3,7bi de reais) no fim de junho deste ano, 10,4% acima do ano anterior

Especialistas contam que nos próximos anos, a Coreia do Sul terá problemas em atingir um crescimento anual de 3%. Em 2015, a disparidade de salário aumentou, apesar dos esforços do governo em diminuir a lacuna entre ricos e pobres. Aqueles que estavam entre os maiores salários ganhavam nove vezes mais que os salários mais baixos, de acordo com dados do Statistics Korea.

Os mesmos também dizem que ainda não sabem se essa “cultura da economia” incentivada pelo programa de Saeng-Min irá efetivamente aumentar as economias das pessoas, ou se irá trazer a tendência de uma vida mais simples.”Enquanto o YOLO vem sendo explorado pelas empresas, ele também foi aceito pelos coreanos como um modo de viver o presente ao invés de planejar o futuro”, afirma o professor da Universidade Sungkyunkwan, Koo Jeong-Woo. “Nós ainda temos que ver até onde essa popularidade do programa nos levará.”

Foto: KBS2
Foto: KBS2

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