Olá, leitores!
Como passaram esses últimos 15 dias?

Bom, eu queria começar a coluna de hoje me explicando um pouquinho. Sabe o que é, eu tinha planejado falar sobre coisas legais que já fiz aqui na Coreia, postar umas fotos de turista e tudo mais, mas acontecimentos extraordinários da última sexta-feira (28/10) vão me impedir de falar sobre isso – pelo menos hoje. O que aconteceu? Vou explicar.

Acordei às 10h26min (sim, eu lembro o horário exato), me sentindo bem descansada depois de vários dias sem dormir direito, quando de repente começo a ouvir alguém falando em coreano no corredor com um auto-falante. “Ok”, eu pensei, “deve ser uma inspeção ou simulação de incêndio que eu não tô sabendo”. Isso por que no dormitório em que estou morando, que é o de dentro do campus, já teve inspeção de quarto e simulação de incêndio antes. Mas daí o cara começou a falar em inglês: “Essa é uma situação real. Há uma mala suspeita dentro do prédio com perigo de explosão. Saiam do prédio imediatamente”.

Meio assustador, né? Mas, por incrível que pareça, minha primeira reação foi: “Ok, se for pra enfrentar uma bomba, tenho que fazer isso de bexiga vazia”, e fui ao banheiro calmamente. Eu culpo meu estado de sonolência por essa reação. De qualquer modo, após lavar as mãos (higiene sempre), peguei meu casaco, meu celular e meu cartão de acesso ao dormitório e saí – vestindo meu pijama rosa-choque de panda. A rota de saída foi a mesma que usamos na simulação de incêndio, o que me fez ficar grata pela simulação ter ocorrido, mesmo que tenha reclamado sobre isso durante uns três ou quatro dias. Quando saí do prédio, encontrei colegas minhas e fui perguntar o que estava acontecendo. Como ninguém sabia direito, fui comprar um kimbap no restaurante universitário daqui, já que não tinha tomado café (prioridades). Ao voltar, notei carro de bombeiro, carro de polícia e alguns jornalistas. Acabei encontrando umas amigas e foi aí que me disseram o que estava acontecendo, pois já estava circulando uma foto: haviam encontrado uma mala com um aviso que dizia “Risco de explosão” em frente à porta de um dos clubes da universidade (os clubes ficam no mesmo prédio que o dormitório).

Bomba...?! - Laureando, Parte Dois
A famigerada bomba

Só de ver a imagem eu pensei “ahh, fala sééééééério”. Já deu para perceber que não passava de uma pegadinha, o que me deixou aliviada e brava ao mesmo tempo. Entretanto, reforços continuaram a chegar. Além dos bombeiros e da polícia, passaram por nós homens de farda militar, que depois descobri pertencerem à unidade militar que é encarregada de lidar com ameaças de bomba. Cheguei até a ver uns caras com trajes especiais à la Stranger Things. De acordo com um artigo que saiu mais tarde, foram mobilizados nove carros da brigada de incêndio, e 35 bombeiros e 20 policiais, além da unidade militar que citei acima, também estavam no local. Acabamos tendo que zanzar pelo campus durante duas horas até que o prédio fosse liberado novamente, depois que foi descoberto que dentro da mala não havia nada além de lixo.

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Pelo menos eu não era a única de pijama. A maioria dos intercambistas ainda estava dormindo, já que muitos não têm aula de manhã, e acabaram tendo que descer de pijama, como eu – inclusive, uma das minhas amigas foi para a aula de pijama e sem material. Uma menina foi esperta e chegou a levar um cobertor. Também foi um pouco engraçado ver as pessoas gravando tudo aquilo com o celular; até um dos militares deu uma paradinha para gravar o momento. Foi tudo tão surreal que eu não cheguei a sentir medo, apesar de ter soltado umas risadas nervosas. Mas no fim tudo não passou de uma piada – de muito mal gosto.

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A propósito, ao dar um zoom na foto acima acabei me achando. Não estava brincando quando falei do pijama rosa (calça):

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A responsável pelo ocorrido, aliás, é uma aluna aqui da HUFS (Hankuk University of Foreign Studies). Ela fez um post no facebook dando sua versão do acontecido: ela afirma que estava bêbada na noite de quinta para sexta, e que ela tem um hábito de limpeza quando bebe (!!). Então, ela fez uma limpeza – não entendi direito se na sala do clube ao qual ela pertence ou se em todos os andares dos clubes aqui do prédio, que são quatro, mas o ponto principal é que depois de limpar, ela colocou o lixo na mala por não ter achado algum saco ou algo do tipo, e colocou o aviso para que ninguém mexesse. Depois de tudo isso, ela foi tomar banho (!) e acabou esquecendo da mala.

Apesar dessa explicação ser bem estranha, a responsável foi até a delegacia e assinou um termo de responsabilidade, além de ter escrito um pedido de desculpas e colocado no prédio do dormitório e na biblioteca. Acho que depois de tudo isso, ela não vai beber de novo tão cedo.

Durante as duas horas que fomos obrigados a ficar fora do prédio, um protesto foi realizado na frente do prédio da administração – sim, foi um dia cheio de acontecimentos. Chegamos a cogitar que a falsa bomba fosse uma estratégia para que as pessoas estivessem no local na hora da manifestação, mas logo descartamos a ideia, já que o protesto foi sobre um assunto bem sério. Não sei o quanto vocês têm acompanhado o cenário político sul-coreano, mas a atual presidente, Park Geun Hye, está passando pela maior crise desde que foi eleita. Foi descoberto que Park era influenciada por Choi Soon Sil, uma mulher de fora do governo e que faz parte de uma religião que é considerada um culto por aqui, a Igreja da Vida Eterna. O caso é mais complicado que isso, mas não vou me demorar muito falando sobre ele, já que esse não é o intuito da minha coluna. Mas como foi divulgado um vídeo do protesto que teve aqui na HUFS, e como eles fizeram até uma fala em português, achei interessante compartilhar o link com vocês.

Foi um dia realmente inesquecível. Se eu tiver netos, com certeza essa vai ser uma das histórias que vou contar para eles.

Bom, por hoje é só! Vejo vocês em 15 dias.

Fotos: Seoul Police


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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