Após algumas semanas de “férias forçadas”, volto à ativa na minha coluna. Como muitos de vocês devem saber, fui candidato a vereador na cidade de São Paulo pelo Partido Verde, pela primeira vez. A minha paixão pela política vem desde a adolescência, quando percebi a sua importância para o futuro da nossa sociedade e do nosso país. Confesso que também há um componente pessoal que nem sempre fico confortável para contar a qualquer um, com medo de ser interpretado de maneira errada. Mas como aqui estamos entre amigos, gostaria de abrir meu coração a vocês.

Eu amo o Brasil e os brasileiros que acolheram a minha família e a todos os coreanos que para cá vieram. Mas quando cheguei aqui aos oito anos vindo do Chile, tive uma experiência que me marcou. No Brasil há apenas três meses, estava estudando no terceiro ano do ensino fundamental quando durante uma aula de português, fui chamado para ler um texto em voz alta. Mesmo com um sotaque espanhol (por ter sido alfabetizado nessa língua), estava indo bem quando li a palavra “casa” como se fosse “caça”, pois não sabia que em português o “s” deveria ter som de “z”. Lembro como se fosse hoje que a professora tirou sarro de mim, ao invés de me acolher, amar e incentivar. Minha mãe me diz que passei o dia todo chateado, lamentando-me por ter mudado de país.

Claro, foi um fato isolado que superei com o tempo, mas de alguma maneira isso ficou na minha memória. Sinto que em muitos momentos, foi o sentimento de não querer ser como essa professora que me levou a gostar de ajudar os outros. Lembro que desde pequeno fui voluntário em diversas entidades como no Albergue Municipal Viaduto Pedroso, onde servi o almoço de domingo para moradores de rua por alguns anos. E na faculdade, me envolvi com política ainda mais pois tive aulas com professores como Eduardo Suplicy, Celso Daniel e Marcos Cintra, que me inspiraram e ensinaram que somente o governo pode mudar o país através de políticas públicas. Isso me influenciou tanto que acabei indo trabalhar por 10 anos no Poder Legislativo, fazendo leis e fiscalizando o trabalho dos governantes e testemunhando o despreparo da maioria dos políticos.

 

E aí, a democracia tem algo de fantástico: ela permite que se não estamos satisfeitos com os políticos que temos, podemos nós mesmos ser candidatos. E finalmente aos 42 anos, cheio de coragem e de sonhos, dei o primeiro passo de uma jornada linda e cheia de experiências que me ensinaram bastante! Claro, desejava ser eleito para trabalhar para todos os cidadãos de São Paulo, mas desejava também ser o representante da comunidade coreana perante a sociedade paulistana e brasileira! E ainda desejo…

Somos uma minoria étnica sem representatividade alguma. Na década passada os coreanos tiveram alguma relevância econômica, quando chegaram a ser responsáveis por 70% de toda a roupa feminina vendida em todo o estado de São Paulo, mas de certa maneira sempre fomos invisíveis. E como tudo que é desconhecido, há margem para especulações negativas. Sempre fomos vistos como “comedores de cachorros”, “exploradores de bolivianos” ou aqueles que vieram para o Brasil somente para ganhar dinheiro. E com a marginalização na sociedade, vem também a extorsão, a falta de diálogo com o resto e tantos outros problemas que inclusive me levaram a redigir junto com o deputado William Woo a Lei Federal 11.961/09, que anistiou mais de 50.000 imigrantes em situação irregular que sofriam exatamente dos mesmos problemas que a comunidade coreana sofria, com o adicional de serem ilegais. Esta ação foi posteriormente reconhecida na ONU como exemplo para a dignificação do ser humano.

Sabem, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que os coreanos e seus descendentes serão reconhecidos apenas como brasileiros e não como “orientais” ou “asiáticos”, sem rótulos. E sonho que isso ocorrerá em um Brasil com menos diferenças sociais. Como coreano quero contribuir para que isso ocorra o mais rápido possível, inspirado em boas experiências que deram certo na Coreia (na educação, por exemplo). E como brasileiro, quero ter orgulho de um dia viver numa sociedade inclusiva, justa e igualitária!

E você, qual é o seu sonho?


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2 COMENTÁRIOS

  1. Sr. Bruno, fico feliz com o retorno de sua coluna. Confesso que conheço esse seu sentimento que teve quando criança, mas infelizmente aos 44 aos e de uma professora de coreano, quando aconteceu pensei em desistir de aprender, mas não vou desistir desse meu sonho por causa de um ser humano egoísta. Esse é meu sonho aprender bem a me comunicar em coreano. Abraços.🤗

  2. Parabéns Bruno Kim pela sua coragem e determinação! É com pessoas assim que esperamos um dia conseguir melhorar nosso país! Adoro ler suas histórias e ver que apesar de todas as dificuldades você conseguiu superar e tornar uma pessoa de bom coração e honesta! com certeza você vai conseguir chegar lá…😉👏👏 Tamô junto em 2020 🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀😊🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀

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