Na minha coluna de hoje, trago mais um assunto polêmico. Digo isso porque a nossa tendência é sempre olhar apenas para as coisas boas do país que admiramos. Contudo, temos que nos lembrar que realmente não existe “país perfeito” e tudo depende muito de quem e do que se está falando.

Nós brasileiros somos os primeiros à reclamar (e com muitíssima razão) das mazelas de nosso país – violência, corrupção, economia decadente, falta de perspectiva para o futuro… Mas um estrangeiro que venha de férias talvez não veja nada disso e acredite que, por causa do povo simpático e acolhedor (e somos mesmo, não é?) o Brasil é o melhor país do mundo!!

Eu imaginava que países como a Suécia e a Noruega fossem “ilhas paradísiacas de cultura, segurança e estabilidade”. Pois bem, recentemente assisti à um vídeo de um cidadão sueco reclamando abertamente de seu governo e recebi em minha casa uma amiga que mora na Noruega há 25 anos… O que ouvi foi totalmente diferente do que imaginava…

Pois bem, neste texto que traduzi do jornal The Washington Post, a juventude coreana põe o dedo na ferida da atualidade após a efervecência ecônomica iniciada nos anos 70 e 80. O milagre econômico que tirou seus pais da pobreza e fez da Coreia do Sul uma potencia tecnológica parece não funcionar da mesma forma para eles. Acompanhem e tirem suas próprias conclusões (e comentem, é claro!!)

Não se deixe enganar pelas luzes brilhantes, a música K-pop estridente, a tecnologia onipresente. A Coreia do Sul é, na opinião de muitos de seus jovens, um inferno – e eles não estão aguentando mais.

De acordo com um número crescente de pessoas em seus 20 e 30 e poucos anos, a Coreia atual é o lugar perfeito para os nascidos em “berço de ouro”, que podem entrar nas melhores universidades e garantir os melhores empregos, enquanto que para aqueles que nasceram sem tantos privilégios, trabalham longas horas, em empregos de baixa remuneração e sem benefícios, a coisa não é bem assim.

Esta Coreia, para eles, tem até um nome especial: “O inferno de Joseon”, que remonta a cinco séculos da longa dinastia de Joseon em que as hierarquias de Confúcio enraizaram-se na Coreia e quando se instituiu um sistema feudal que determinava “quem seguiria em frente”.

É difícil me imaginar casando e tendo filhos. Não há nenhuma resposta ou futuro para nós“, diz Hwang Min-Joo, uma roteirista de programas de televisão de 26 anos de idade. Ela muitas vezes vai trabalhar na segunda-feira com uma mala pois, nestes casos, só consegue sair de lá, na quinta-feira. Ela come em seu escritório, toma banho em seu escritório e dorme em beliches disponibilizados para os funcionários no mesmo local. “Se eu terminar o trabalho às 21h considero um dia curto“, disse ela.

Os pagamentos vêm irregularmente – ou as vezes nem vem – como por exemplo se sua parte do programa for cortada. Por não ter tem um contrato, Min-Joo sempre se pergunta se ainda terá seu emprego amanhã. E ela só consegue manter esta vida porque vive na casa dos pais – isto é, quando ela vai para casa. “Se você tem dinheiro suficiente, a Coreia do Sul é um ótimo lugar para se viver. Mas se você não tem. . . ” ela desabafa.

Hwang Min-Joo, 26, É Uma Roteirista De Tv. &Quot;Quando Eu Vou Dormir, Eu Nem Sei Se Eu Vou Ter O Meu Emprego Na Manhã Seguinte. Eu Posso Ser Despedida Com Uma Única Mensagem De Texto Do Meu Produtor. Se O Meu Programa Não For Ao Ar, Eu Não Recebo O Pagamento. Eu Moro Com Meus Pais, E Só Assim É Que Eu Sou Capaz De Sobreviver&Quot;. Foto: Jun Michael Park/The Washington Post
Hwang min-joo, 26, é uma roteirista de tv. “quando eu vou dormir, eu nem sei se eu vou ter o meu emprego na manhã seguinte. Eu posso ser despedida com uma única mensagem de texto do meu produtor. Se o meu programa não for ao ar, eu não recebo o pagamento. Eu moro com meus pais, e só assim é que eu sou capaz de sobreviver”.
foto: jun michael park/the washington post

Essas queixas são comuns entre a geração de Min-Joo. Seus pais viveram a ascensão econômica surpreendente da Coreia do Sul durante os anos 1960 e 70 e, em seguida, viu a democracia chegar nos anos 80. Mas aqueles que nasceram após esse período de rápida melhora veem apenas o lado negativo: as empresas megalíticas que fornecem status e boa remuneração aqueles que conseguem ser seus funcionários, e todos os outros tentando sobreviver.

Desde a crise financeira de 2008, muitas pessoas ao redor do mundo perderam empregos, casas e esperança. Mas, na Coreia do Sul, esses prejuízos são sentidos mais agressivamente devido ao forte contraste com os dias inebriantes da industrialização.
A economia está em pulverização catódica – O crescimento desacelerou para 2,6 % no ano passado – e essa queda tem sido acompanhada por um aumento dos empregos “informais” que não oferecem segurança e nem benefícios, uma tendência sentida profundamente por aqueles que tentam progredir no trabalho. Quase dois terços dos jovens que começaram a trabalhar no ano passado estão em empregos informais, de acordo com dados do Instituto do Trabalho da Coreia.

Kim Hyeon-Min, De 22 Anos, Trabalha Para Um Advogado Como Prestador De Serviço. Ele Trabalhou Como Estagiário Na Assembleia Nacional Após Se Formar Na Faculdade. &Quot;Se O Seu Congressista Não Gostar De Você, Ele Ou Ela Pode Facilmente Te Por Para Fora. A Segurança Do Emprego É Volátil Na Melhor Das Hipóteses. Ainda Assim, Estou Esperançoso. Gostaria De Ganhar Mais Experiência Na Assembleia Nacional E Concorrer À Ela Algum Dia&Quot;. Foto: Jun Michael Park/The Washington Post
Kim hyeon-min, de 22 anos, trabalha para um advogado como prestador de serviço. Ele trabalhou como estagiário na assembleia nacional após se formar na faculdade. “se o seu congressista não gostar de você, ele ou ela pode facilmente te por para fora. A segurança do emprego é volátil na melhor das hipóteses. Ainda assim, estou esperançoso. Gostaria de ganhar mais experiência na assembleia nacional e concorrer à ela algum dia”. Foto: jun michael park/the washington post

Mesmo as pessoas inseridas nos conglomerados estão sentindo o aperto, com grandes nomes como Samsung, Hyundai e Doosan demitindo trabalhadores ou que pedindo antecipação da aposentadoria dos fucnionários mais velhos.

Em meio à escuridão, mais e mais jovens coreanos estão usando as redes sociais para reclamar sobre sua situação. Há um grupo no Facebook chamado “Hell Joseon” (Inferno Joseon) que conta com mais de 5.000 membros e um site chamado “Hell Korea” (Coreia do Inferno) que mostra gráfico após gráfico para ilustrar o estado terrível da vida na Coreia do Sul: as longas horas de trabalho, a alta taxa de suicídio e mesmo a alta preço dos lanches.

Inúmeros fóruns on-line oferecem conselhos sobre maneiras “de escapar”. Há um que incentiva os sul-coreanos à se alistarem nas bases americanas no país, como um movimento que pode oferecer um caminho mais rápido para a cidadania americana (Café Daum). Outros oferecem conselhos sobre programas de treinamento para soldadores, uma profissão que está em alta em falta nos Estados Unidos e Canadá.

E não é apenas um fenômeno da Internet. O romancista Jang Kang-Myung escreveu “Porque eu odeio a Coreia do Sul” – uma obra de ficção sobre uma jovem que emigrou para a Austrália – e o livro esteve no topo da lista dos mais vendidos no ano passado.

Quando o escritor Son A-Ram publicou um artigo intitulado “A declaração do estado arruinado”, no jornal Kyunghyang Shinmun, este se tornou rapidamente viral.

Se a minha vida continuar desta forma, eu realmente não vejo muito futuro“, diz Lee Ga-Hyeon, uma jovem de 22 anos que deu um tempo de seus estudos em Direito para trabalhar em um sindicato de trabalhadores por meio periodo . “Na Coreia do Sul, meio periodo significa trabalhar horas de tempo integral com um salário mínimo“. Enquanto ela estava estudando, Ga-Hyeon trabalhou no McDonalds e, em seguida, em uma cadeia de padarias, muitas vezes trabalhando seis horas por dia, cinco dias por semana, além de estudar em tempo integral. O aluguel de seu apartamento “do tamanho de uma caixa de sapato” custava quase metade seus ganhos mensais de USD450 (R$1.700,00). “Quero me tornar uma advogada trabalhista para que eu possa ajudar outros em circunstâncias similares“, disse ela.

Não que aqueles com empregos mais estáveis sejam muito mais felizes. Nesta cultura de trabalho, 14 horas por dia são a norma. Em 2012, um candidato presidencial de esquerda concorreu com o slogan: “Por uma vida com noites”.

Trabalhadores Ocupam Escritórios Bem Iluminados E Fazer Turnos Extras No Centro De Seul, Em Uma Noite De Quinta-Feira. Foto: Jun Michael Park/The Washington Post
Trabalhadores ocupam escritórios bem iluminados e fazer turnos extras no centro de seul, em uma noite de quinta-feira.
foto: jun michael park/the washington post

Song, um homem de 34 anos de idade, cuja esposa teve que largar o emprego quando eles tiveram sua filha no ano passado, mudou para um emprego menos prestigiado, porque ele estava trabalhando regularmente das 08h de um dia ate à 01h do dia seguinte. “Meu chefe sempre dizia – A empresa vem em primeiro lugar, sua família vem em segundo lugar“, disse Song, que pediu para não ter seu nome completo revelado por medo de represálias no atual emprego.

Chang Han-Sol, 21, É Uma Estudante De Jornalismo. &Quot;Eu Costumava Viver Na Alemanha, Quando Eu Era Muito Jovem. Meus Pais Estavam Estudando Na Alemanha, E Depois Da Democratização Da Coreia Do Sul, Eles Decidiram Voltar. Eu Acho Que Eu Cresci Em Uma Família De Classe Média, Mas Eu Não Sei Se Eu Poderei Me Dar Ao Luxo De Viver Como Os Meus Pais&Quot;. Foto: Jun Michael Park/The Washington Post
Chang han-sol, 21, é uma estudante de jornalismo. “eu costumava viver na alemanha, quando eu era muito jovem. Meus pais estavam estudando na alemanha, e depois da democratização da coreia do sul, eles decidiram voltar. Eu acho que eu cresci em uma família de classe média, mas eu não sei se eu poderei me dar ao luxo de viver como os meus pais”.
foto: jun michael park/the washington post

O mais frustrante de tudo, muitos jovens dizem, é que os seus pais, que trabalharam longas horas para construir o “sonho coreano,” acham que a resposta é apenas “se esforçar mais”. “Meus pais pensam que eu não me esforço o suficiente“, disse Yeo Jung-Hoon, 31, que trabalhava para uma organização não-governamental ambiental, mas agora dirige um grupo no Facebook chamado “União de Trabalhadores Não Qualificados”.

Uma vez após uma de reunião, meu chefe disse na frente de todos – Eu não acho que você seja adequado para este trabalho. Eu me senti humilhado, mas eu não podia sair porque eu precisava do dinheiro. É um inferno sem saída“.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

15 COMENTÁRIOS

  1. Nossa!! Eu que acreditava que a Coreia era melhor que o brasil em termo de se ter uma vida melhor, fiquei horrorizada com essa matéria. Preciso mudar esse conceito sobre o meu país!! Muito triste. Pelo menos no brasil não se é tão escravizado feito lá. Engraçado de tudo isso é que a gente sempre ver a grama do outro mais verde do que a nossa, quando na verdade estamos melhores que muitos países por aí. Desejo boa sorte para os jovens coreanos a quem admiro muito. Que dias melhores cheguem até vocês!!

    • Prezada Rosilene, obrigada pelo seu comentário!! Pessoalmente eu acredito que os jovens pensam desta forma porque não conhecem coisa pior. Como bem disse o comentário acima do Psy Lee, para nós que enfrentamos um dia a dia de corrupção, violência e impunidade, trabalhar muito não parece tão mal assim!! Eu acho que a Coreia é um lugar muito bom para se viver sim! Tanto é que estou permitindo que minha filha se mude para lá!

  2. A fronteira do norte está aberta para todos que buscam uma vida sem o stress do trabalho. Faz parte da juventude a “revolta contra o sistema”, são problemas de primeiro mundo., A Coréia do Sul ainda é um paraíso para quem sofre problemas de terceiro mundo como o que temos aqui no Brasil.

    • Prezado Psy Lee, Obrigada pelo seu comentário que demonstra que você entendeu exatamente onde eu queria chegar com meu texto!! Muitíssimo Obrigada!!

  3. Muito obrigada pela matéria, pra lá de esclarecedora! Conheço muitos querendo ir para lá e o número de pessoas querendo vir para cá, deve ser muito maior.

    • Prezada Ana, Obrigada pelo seu comentário. Como você pôde ver os jovens coreanos tem o mesmo desejo de nossos jovens, de emigrar. Contudo, eles costumam preferir os Estados Unidos e o Canadá!

  4. Legal seu post, apesar do Inspire KPop ter traduzido ele faz uns dias! O que curti mesmo foi o comentário do Psy Lee que, ele sim, falou bem: “Faz parte da juventude a “revolta contra o sistema”, são problemas de primeiro mundo., A Coréia do Sul ainda é um paraíso para quem sofre problemas de terceiro mundo como o que temos aqui no Brasil.”

    • Prezada Adriana, Obrigada pelo seu comentário. Nós não nos importamos que outros sites traduzam as mesmas notícias que nós porque, primeiro que isso é normal, afinal, para quem traduz somente do inglês as fontes são limitadas. Segundo porque cada veículo com certeza acrescentará algum comentário que poderá enriquecer o tema e terceiro – quantos mais veículos exitirem para disceminar a cultura coreana, melhor!!

  5. Incrível como há guerreiros nesse mundo, não importando o país. Sempre haverá vantagens e desvantagens quando o dinheiro é quem manda. E em relação a Coréia, posso dizer que nunca houve essa ilusão de pensar que é um país perfeito. Mas a cada dia que passa sinto a necessidade de amar esse povo que viveu e ainda vive uma história sofrida para sobreviver. Mesmo com a evolução dos tempos, parece que a humanidade regride, onde os sentimentos e a Paz de espírito não são levados em consideração. Tudo que pensam é ganhar mais e mais e tirar daqueles que tem pouco. A vida em sim já não é valorizada se você não tiver status e a justiça e igualdade se torna uma lenda. Por isso acho importante conhecer a história e a cultura desses países para entender o porquê muitos deles estão aparecendo por aqui. Por isso eles merecem nossa compreensão e repeito. Amo Doramas, mas sei que nem tudo é felicidade e muitos deles já vem mostrando essa realidade. Mas também acredito na importância de amá-los e admirá-los por serem a cada dia sobreviventes de um inferno como muitos disseram. Figthing meu queridos dos olhinhos puxados. Deus nos ama! Parabéns pela matéria e tradução Simone.
    Você é uma luz para aqueles que ainda não conseguem enxergar com uma maior totalidade esse outro mundo que é a Coréia.

  6. Eu sou um profissonal autônomo. O que parece ser ótimo na verdade torna minha vida infernal pelos mesmos sentimentos destes jovens coreanos. Creio que eu me adaptaria fácil à vida por lá.

    Trabalho até 20 horas por dia e ví meus rendimentos caírem de 8 mil reais mensais em 2009 para menos de 1200 em 2015. Numa queda decrescente que, só agora, estou conseguindo a duras penas revertar.

    Ainda sou obrigado à toda a pressão familiar me dizendo que eu deveria procurar um emprego em fábricas porque “todo mundo conseguiu as coisas assim” e se “eu não tenho as coisas” é culpa do meu trabalho e que “não uso minha inteligência”.

    Sinceramente, não importa o quanto uma pessoa estude. O que manda no final é quanto ela ganha e quanto ela poupa e digo mais, o quanto ela evita de pagar caro por algo e o quanto ela pode revender um bem barato por um valor alto. O que, para alguns, pode parecer injustiça ou aproveitamento da fraqueza alheia, no mundo dos negócios é chamado de “oportunidade de negócio”. Exemplo: ano após ano as casas em meu bairro em Parobé (que é uma caquinha de cidade) vêm aumentando. E não é porque a cidade se “valorizou”, é porque as pessoas enlouquecem em busca das “oportunidades de negócio”. Os preços triplicaram logo após o governo anunciar o Minha Casa Minha Vida. Insano. Terrenos que custavam 10 ou 15 mil passaram, de um ano para o outro, para 35 ou 50 mil e, agora, não se encontra terrenos por menos de 70 mil. O mais louco disso tudo é que as pessoas estão indo embora da cidade, o que deveria ser motivo para baixar os preços, mas ocorre o contrário. Ninguém quer “perder dinheiro”.
    Meu pai (há 30 anos) pagou a casa em menos de 4 anos. Agora, se eu quiser, terei de pagar em 25, no mínimo.

    Mesmo assim, ainda sigo sobrevivendo. Sou saudável e isso conta muito em nosso país.
    Acredito no que faço e sei fazer bem. O resto é esperança mesmo e muito trabalho duro.

  7. Amei a sua matéria! A verdade é que em todo lugar tem problemas. Não existe lugar perfeito aqui na terra. Todos nós precisamos de mais amor, compaixão, solidariedade… precisamos de Deus!
    Sua matéria foi muito boa, me ajudou a expandir mais os meus pensamentos. Obrigada!

  8. Amei seu post! A verdade é que não existe lugar perfeito. Todos nós precisamos mais de amor, compaixão, solidariedade… precisamos mais de Deus!
    Obrigada por esclarecer mais a minha mente, excelente trabalho!

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