No dia 12 de fevereiro foi comemorado o Dia da Imigração Coreana, data que faz parte do Calendário Oficial de São Paulo e criada em 2001 por iniciativa do então Vereador William Woo. Entre outras relevantes leis de sua autoria, como a Lei do Disque-Denúncia (Lei 13.481/2003) e a Lei do Desfibrilador Automático (Lei 13.945/2005), o hoje Deputado Federal pode dizer que é um legítimo representante asiático: nascido na cidade de São Paulo, sua mãe é japonesa, seu pai é chinês e sua esposa é coreana! Desde 1998, exerce uma importante liderança política dentro da comunidade coreana no Brasil. A nossa Editora Chefe Carol Lee acompanhada do colunista Bruno Kim entrevistaram o William Woo com exclusividade para o Koreapost.

Koreapost Entrevista: William Woo

KOREAPOST: Para quem ainda não te conhece, quem é o William Woo?
WILLIAM WOO: Sou a ovelha negra de uma família de cinco irmãos! Rsrsrs. Meus pais saíram da Ásia na década de 60, só a minha primeira irmã nasceu em Taiwan. Como nasceu em Formosa, então ao chegar aqui colocaram nela o nome de Beleza! Ela é médica. A minha segunda irmã é a Sandra, engenheira civil. A terceira é a Joana, bacharel em direito e que já foi dona da maior editora do Brasil, a Símbolo, que publicava revistas como a Raça, Atrevida, Chiques e Famoso, Quem e muitos outros. Meu irmão Ricardo fez artes plásticas. Todos muito estudiosos e formados na USP e eu sou a ovelha negra, sou o caçula e sempre fui surfista, tinha loja de surfwear e fabricava pranchas que era pra me ajudar a pagar a faculdade de engenharia na Mauá/Unip que não era gratuito como a USP, depois fiz direito também. Também comecei a dar aula de matemática e física pra ajudar e eu era mais jovem que os alunos! E um dia desses, um aluno meu me convenceu a fazer a prova da Polícia Civil, eu passei e ele não! Rsrsrs. Fiz a Academia de Polícia e fui trabalhar no Instituto Médico Legal, na recolha de cadáveres onde eu cresci muito como pessoa. Eu frequentava Maresias e de repente me vi trabalhando junto com uma população bastante carente em um trabalho bastante desafiador. Trabalhei também no Roubo a Bancos, fiz cursos no exterior e fui até escolhido como “Melhor Policial em Ação”. Era uma época em que não havia toda esta segurança de hoje em dia, então eram 7 a 10 assaltos a banco por dia. Trabalhei no Heliópolis, onde ganhei muito voto depois nas eleições e também na Vila Mariana. Depois fui para a Narcóticos.

KOREAPOST: E como se deu a sua escolha pela carreira política?
WILLIAM WOO: Entrei na política por acaso. Policial ganha pouco e como todos, eu fazia bico como chefe da segurança de um grande empresário, que sempre dizia que uma sociedade se muda por 3 pontos: religião, educação e política. E com o incentivo dele, ajudei-o a realizar tudo isso. Fui candidato pela primeira vez em 1998, para Deputado Estadual. Fui muito votado mas fiquei como suplente, somente atrás do Ricardo Montoro, filho do Governador Franco Montoro. Não venci mas fui trabalhar na secretaria de segurança pública com o saudoso Governador Mário Covas. Depois fui eleito Vereador em São Paulo por duas vezes, com recorde de projetos aprovados e escolhido duas vezes seguidas como um dos dez melhores parlamentares do Estado de São Paulo pela ONG Voto Consciente. Depois, fui eleito duas vezes Deputado Federal, cargo que ocupo atualmente.

Koreapost Entrevista: William Woo

KOREAPOST: E como foi que você se envolveu com a comunidade coreana?
WILLIAM WOO: Sou casado com a Cristina Hyun Soon Park, por isso tenho uma grande aproximação com a comunidade coreana. A nossa filha chama-se Maria Paula Park Woo e tem oito anos de idade. Nesses anos todos de politica, fiz grandes amigos coreanos. Dentro da administração pública, sempre tive assessores coreanos que eu admiro bastante pela sua dedicação e engajamento, como o Shalom Lim. Tive dois chefes de gabinete coreanos, inclusive o Bruno Kim (colunista do Koreapost), um grande especialista em administração pública que trabalhou comigo por dez anos como responsável pela produção legislativa e que foi comigo para Brasília como chefe de gabinete. E tem também o convívio, por ser representante politico sou muito acionado para resolver problemas da comunidade relacionados à segurança, problemas da imigração, etc. Em 2009 fui autor da Lei de Anistia Migratória (Lei 11.961/2009) que tirou da margem da sociedade mais de 50.000 pessoas. Hoje tenho grandes amigos coreanos, saímos juntos em família e nos divertimos muito. A única coisa que tentaram me ensinar mas não sei fazer é jogar golfe, rsrsrs! Uma das coisas que a política me proporcionou foi entrar na comunidade coreana e ser bem recebido. Me sinto bem, conheço a cultura, me sinto muito à vontade!

KOREAPOST: Você foi policial e hoje é político, duas profissões bem difíceis.
WILLIAM WOO: Acho que escolhi as duas piores profissões. Mas são as mais necessárias. Não existe sociedade organizada sem polícia ou políticos. Infelizmente a sociedade não vê a importância e se distancia, mesmo nas sociedades ditas mais avançadas. Hoje vejo as pessoas não se sentirem representadas mas no dia a dia tem que haver uma gerência senão o país pára. Aliás, eu penso que o Brasil tem uma população que é a única que pode liderar o mundo baseado na paz. Somos multiétnicos, com misturas que não existem em outros lugares e somos um povo feliz, falta somente um pouco de evolução educacional. Tenho orgulho de ser político, existem bons políticos, assim como existem maus políticos, bons e maus médicos, bons e maus professores. Se fosse para voltar atras, seria professor novamente. Hoje em dia o policial perdeu a vontade de ser policial, tem medo de ser policial pois ele e sua família são alvos de bandidos, o policial sente-se desvalorizado. E quanto ao político, tem toda essa negatividade mas estou como um representante da sociedade há um bom tempo, passei por maus momentos mas me orgulho dos bons momentos. Na Câmara Municipal de São Paulo enfrentei a máfia dos fiscais e na Câmara dos Deputados enfrentei o mensalão, peguei agora toda a Lava Jato. Hoje em dia a honestidade parece um mérito, mas é nada mais do que uma obrigação. Infelizmente temos poucos valores. Às vezes participo de palestras e pergunto qual eles acham que é o pior emprego. Falam em gari, limpador de esgoto, mas transportar um ser humano que se tornou um cadáver em decomposição há 30, 50 dias, uma vítima de atropelamento por trem, situações tristes mesmo. Estamos hoje em momento de enfrentamento, espero que o Brasil vença.

Koreapost Entrevista: William Woo

KOREAPOST: Na sua opinião, o que os coreanos tem a aprender com os brasileiros e vice-versa?
WILLIAM WOO: Conheço mais os coreanos que vivem no Brasil, mas em primeiro lugar, todos nós viemos ao mundo para sermos felizes. Talvez algo que o coreano pode aprender com os brasileiros é a busca da felicidade. Não estou falando sobre crescimento e desenvolvimento econômico. Mas digo que o brasileiro é um povo admirável. E o que Brasil pode aprender da Coreia é na parte da educação. O Brasil esta ficando para trás, o nível está muito baixo. As nossas melhores cabeças estão saindo, o brasileiro é muito criativo, mas temos que aprender com os coreanos. Em outros assuntos, a questão é de ordem prática, gostaria que as cidades brasileiras implantassem o modelo de administração das cidades coreanas. O nível da transparência e a velocidade da gestão pública. A Coreia está entre os países onde você consegue solicitar serviços públicos via internet com extrema facilidade. Aqui em São Paulo temos o Poupatempo e achamos o máximo, mas os coreanos estão muito à frente. Nem digo em desenvolver algo parecido, temos que pegar o software de lá e jogar aqui para ter efeito imediato. O Brasil quando quer consegue ser o melhor, bastam oportunidades. Olhem o nosso sistema bancário, não existe algo tão moderno no mundo e surgiu pela necessidade de aumento da segurança. Quando realmente queremos, acontece. Por isso acredito na democracia e nossos políticos precisam dar o exemplo. E todos foram escolhidos pelo povo, as pessoas viram o cardápio, escolheram e depois não podem dizer que não gostaram.  Por isso tem que escolher bem.

KOREAPOST: Falando em sistema de educação, o que você acha da disciplina imposta na Coreia?
WILLIAM WOO: Tudo é adaptado à realidade do local. Quando vamos na casa de alguém que costuma tirar os sapatos, também tiramos o nosso sapato, goste-se ou não, não importa. Eu estudei em escola católica e sofri muitos castigos quando criança, hoje em sala de aula o aluno senta de costas, conversa com os amigos. Isso tira a hierarquia e a disciplina da sala. Mas só se consegue isso com educação, não é fácil mudar isso de uma hora pra outra. Precisamos mudar através da politica, lógico, mas tem que vir pelo povo, temos que dar educação a todos. Acabei de vir de um país onde o presidente tem 70% de aprovação e a escola lá funciona das 8 às 17 horas. Quanto à faculdade, acredito que por exemplo o estudante de faculdade pública deve devolver o que foi investido nele depois que alcançar um certo patamar financeiro. E falando em educação, acho desrespeito vaiar presidente, autoridade, professor. Estamos numa sociedade de muitos direitos e poucos deveres.

Koreapost Entrevista: William Woo

KOREAPOST: Você já viajou para a Coreia, o que achou do país?
WILLIAM WOO: Acho formidável a modernidade de Seul, fantástica. Admiro o sistema de metrô, as lojas dentro das estações, e ah… a beleza da mulher coreana! Tanto que casei com uma! Rsrsrs. As mulheres coreanas são as mais bonitas! Tenho várias histórias engraçadas mas não posso falar em público… rsrsrs. Visitei a polícia, os equipamentos e a estrutura policias, são realmente muito bons! Fui em alguns restaurantes coreanos, comparando com os daqui até achei que os nossos são tão bons quantos os de lá. Eu gosto muito de experimentar, comer tudo na rua, beber, comprar e a Coreia é um paraíso! E falando em comida, meu prato coreano preferido é o bibimbap, minha esposa adora nengmyon. Eu prefiro tudo quente, ela gosta frio. Não tenho nenhum problema com pimenta. Adoro kimchi, sinto muita falta quando não como, adoro comer arroz misturado com kimchi. Ah, outra coisa que acho muito bacana na Coreia e na cultura coreana é o ritual de jantar com os amigos, tomar soju juntos. Se um parar para todos tem que parar, a questão de mostrar respeito ao servir o outro, etc. E adoro ver filmes coreanos, adoro filmes tristes e os coreanos às vezes são bem tristes.

KOREAPOST: Alguma mensagem final para os leitores do Koreapost?
WILLIAM WOO: É importantíssimo que a sociedade participe da política, pois a situação só mudará com a participação de todos. Principalmente, que a comunidade coreana envolva-se mais, que tenha e apoie os seus próprios candidatos. A comunidade coreana pode trazer muitas coisas boas, como a sua experiencia na educação. E para isso, somente com a participação popular que é o único instrumento democrático de transformação. Tem uma frase que gosto muito, de que “a vitória dos maus se deve ao silêncio dos bons”. Temos exemplos ruins, claro que temos. A rigor a maioria é boa, no entanto essa minoria gasta todo o seu tempo para fazer o mal e como a maioria está ocupada com outros afazeres, deixa os maus sobressaírem-se. Mas temos muitos gestores públicos bons, empresários bons, brasileiros bons que cumprem o seu papel e vivem com a consciência tranquila. Nasci numa sociedade diferente da de hoje, não tínhamos celular ou liberdade sexual, hoje uma criança de 10 ou 11 anos tem uma capacidade de raciocínio maior, esse pessoal de hoje vai passar da média de 85 anos de expectativa de vida. Hoje temos muito mais do que o ser humano precisa e o futuro pode cobrar caro por isso. Mas aceitamos que pessoas morram por falta de tratamento médico ou comida. A fórmula certa para resolver tudo isso? É um desafio. O Brasil precisa impor no funcionalismo público a meritocracia politica e não o apadrinhamento. Acredito muito no Brasil, estamos preparados para sermos uma população para liderar o mundo. Claro, temos problemas graves mas estamos melhorando. Temos uma costa oceânica gigante, terra disponível, o pré-sal. No Nordeste, vento em abundância, sol, hidrografia, solo, não temos terremotos. O Brasil é um país abençoado e tem muitas oportunidades, só precisamos fazer a nossa parte.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

3 COMENTÁRIOS

  1. Entrevista super interessante! Que exista mais políticos com esse pensamento para ajudar o Brasil a se desenvolver da melhor maneira e se reerguer para termos mais orgulho de viver nesse País.
    Parabéns Carol Lee e Bruno Kim, arrasaram na matéria!!!
    Obrigada por nos apresentar pessoas que fazem a diferença na sociedade e na comunidade coreana.

  2. ” O Brasil é um país abençoado e tem muitas oportunidades, só precisamos fazer a nossa parte.”
    Disse tudo, espero que mais políticos tenha esse pensamento. Muito obrigada pela matéria .

  3. Carol Lee, parabéns, sua entrevista com o deputado foi muito bem conduzida, especialmente no momento em que vocês falam em ensino e educação. Confesso que não conhecia a fundo o trabalho do Sr. William Woo, gostei das idéias e dos ideais dele! Parabéns para você e para o nosso Bruno Kim, excelente trabalho…Sou fã do KoreaPost, acho show de bola , leio tudo que é publicado por todos os colunistas. Meu abraço e minha consideração pelo povo e também pela cultura coreana.

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