Foto: YouTube

Esta coluna é responsável por narrar histórias de coreanos emigrantes e seus descendentes, assim como de cidadãos coreanos que tiveram uma experiência de vida intensa com o exterior. Isso significa que ela visa registrar de forma breve e objetiva um pouco da diáspora coreana, ou, quem sabe, também um pouco da história da Coreia e dos países que passaram a ser o novo lar destas pessoas, ou a fazer parte de suas vidas de alguma forma. Tal constatação prova que independentemente da tentativa constante do nacionalismo radical, presente em todos os cantos do planeta, de separar, distanciar, pôr em conflito e supervalorizar uma nação em detrimento da outra, todos fazemos parte da mesma comunidade humana. A existência de um país só é possível a partir do reconhecimento e da relação intrínseca com outros povos.

Por razões bastante políticas, a biografia de coreanos-americanos e a relação entre Estados Unidos e Coreia do Sul é sempre muito divulgada. Porém, é a China que resguarda a maior comunidade de coreano residindo fora da península. São em torno de 2.548.000 que vivem no país. Os Chaoxianzu (朝鲜族), ou Joseonjok (조선족), ou os chineses-coreanos, formam uma das 56 etnias reconhecidas oficialmente pelo governo chinês. Sua população total foi estimada em 1.923.842 em 2005 e 1.830.929 de acordo com o censo governamental da China, em 2010. A maioria deles vive no nordeste do país, especialmente na Prefeitura Autônoma coreana de Yanbian, que desde 2000, acolhe em torno de 854 mil etnias coreanas que lá habitam. Portanto, mesmo para aquele coreano mais nacionalista e contrários à China, não há como negar: o desenvolvimento destes dois países como nação dependeu também de diversas lutas travadas em conjunto e da cooperação entre coreanos e chineses, como a atuação colaborativa pelo fim do controle japonês sobre ambos países.

Pelas ruas de Yanbian, às vezes considerada como “a terceira Coreia”, placas de lojas e hotéis são escritas em chinês e coreano, e geralmente em russo também. Fotos: Kim do Blog I Miss My Vacuum.

Portanto, salienta-se, em tempos que o nacionalismo parece algo que mais separa as pessoas do que une, que todos os humanos, ainda que com suas diferenças culturais, políticas, econômicas e sociais, dependem sim -de forma direta, ou indireta- uns dos outros. Talvez por esta e outras razões fizesse mais sentido valorizar mais o que há de comum entre os povos e os aproxima, construindo uma relação de paz, tolerância e melhor convivência entre as nações. Foi esta conclusão que a autora deste texto chegou ao saber da trajetória de pessoas como Kwon Ki-ok, a primeira aviadora coreana e também chinesa no mundo.

Kwon nasceu na Vila de Sangsugu, em Pyongyang, sendo a segunda de uma família que teve dois filhos. Ela freqüentou a Escola Sunghyeon em sua cidade natal, onde se formou em 1918. Sua paixão por aviões nasceu após ver uma demonstração de acrobacias em 1917 pelo piloto americano Art Smith, que em suas duas viagens à Ásia em 1916 e 1917, acredita-se ter inspirado também o primeiro piloto coreano masculino da história An Chang-nam. Em 1918, Kwon participou do Movimento 1° de Março, ou como também é conhecido Movimento Sam-IL, pelo qual passou três semanas na prisão.

Aula de Graduação 1918, Escola de Sunhyeon.
Kwon – 3ª abaixo, à esquerda. Foto: jeonghyeju/Shells, Tales and Sails.
O Movimento 1° de Março foi um dos eventos históricos a dar início o processo de luta pela independência da Coreia. Foto: KPopHistorian.
Art Smith, o piloto que iria inspirar Kwon a aprender a voar. Foto: Wikipedia.

Este fato histórico foi uma das primeiras manifestações públicas da resistência coreana durante o domínio da Coreia pelo Japão de 1910 a 1945. Neste período, o cenário internacional passava por grande transformação com a decadência das elites aristocratas na Europa e na Ásia. A chegada dos socialistas na Rússia retirou o país da Primeira Guerra Mundial e promoveu o fim do império russo czarista, liderado pelos Romanovs (dinastia que governou por séculos), reconhecendo a independência de vários países da Europa do Leste e da Ásia Central. Vladimir Lenin explicitava em seu “Decreto sobre a Paz”, publicado em 1917, que o mundo deveria pôr fim ao colonialismo e promover a autodeterminação dos povos. No mesmo período, no Ocidente, o presidente estadunidense Woodrow Wilson tornaria público durante a Conferência de Paris em 1919, em seus “Quatorze Pontos” os mesmos valores e objetivos que o sistema internacional deveria ser pautado: o fim dos impérios e o respeito à soberania.

Assim, estudantes coreanos em Tóquio, ao terem acesso a estes novos discursos políticos publicaram uma declaração exigindo a liberdade da Coreia do domínio colonial japonês, dando início ao movimento. Já Kwon, após a sua libertação, ajudou nas atividades de arrecadação de fundos para a Associação de Mulheres Patrióticas da Coréia, levando a sua segunda prisão, porém, desta vez, por seis meses. Ao ser libertada foi para o exílio na China, onde se matriculou na Escola de Mulheres Hongdao, em Hangzhou, que, na época, era operada pela missionária americana Ellen Peterson. A instituição tinha o objetivo de ensinar chinês e inglês às alunas. Kwon completou o curso de quatro anos em dois e em 1923, por recomendação do Governo Provisório da República da Coréia em Xangai, ela ingressou na Escola da Força Aérea da República da China em Yunnan, graduando-se em 1925. Ela era a única mulher na primeira turma de formandos. Após a formatura, foi estacionada em Pequim e, em seguida, mudou-se para Nanquim em 1927. Em 1940, ela alcançaria o posto de tenente-coronel.

Kwon Ki-ok. Foto: rnsauswp.tistory.com
Kwon Ki-ok (2º da direita) com uma sociedade de mulheres patrióticas. Foto: jeonghyeju/Shells, Tales and Sails.
Kwon Ki-ok, (2º da esquerda) 1935, pronta para voar em Shenzhen, China. Aqui com instrutor italiano. Foto: jeonghyeju/Shells, Tales and Sails.

Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a restauração da independência coreana, Kwon foi repatriada para a Coreia, e foi essencial na fundação da Força Aérea da República da Coreia. Durante a Guerra da Coréia, ela serviu como membro do Ministério da Defesa Nacional da Coreia do Sul. Após a guerra, retirou-se para a vida privada, servindo como vice-presidente da Associação Cultural Coréia-China de 1966 até 1975. Sua história inspiradora fez com que recebesse vários reconhecimentos por seu serviço ao país, incluindo um elogio presidencial em 1968 e a Ordem do Mérito em 1977 por fazer parte da fundação nacional. Ela faleceu em 19 de abril de 1988 e foi enterrada no Cemitério Nacional em Dongjak-gu, Seul. Em agosto de 2003, foi selecionada como “Ativista da Independência do Mês” pelo Ministério de Assuntos de Patriotas e Veteranos.

A história de Kwon Ki-ok também traz outros ensinamentos para esta época em que a igualdade de oportunidades entre os gêneros tornou-se um debate central. Ainda que neste século XXI as gerações atuais de mulheres possam disfrutar de mais liberdades e igualdades, há imensos obstáculos ainda impostos por forças conservadoras. Há inclusive estudos acadêmicos que salientam serem necessários 200 anos à frente para as oportunidades e direitos entre homens e mulheres tornarem-se algo real. Contudo, para as mulheres de hoje, em qualquer região do mundo, independentemente de sua cultura, vale recordar que cidadãs internacionais como Kwon existiram em contexto ainda mais adversos e venceram. Suas vidas são exemplos que incitando a outras gerações a persistir, independentemente das dificuldades, na luta declarada, ou não, contra as injustiças e opressões de todos os tipos. Mais ainda, pode-se entender a partir de sua experiência de vida que a cooperação, compreensão e amizade entre os povos são os fatores bases para um mundo mais pacífico e justo.


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