Hoje, eu entrevisto a intercambista Lara Santana, que vai trazer para vocês suas impressões da Coreia “na Real”.

O que você fazia no Brasil antes de ir para a Coreia?
Terminei o 3º ano do ensino médio já estudando coreano sozinha e me preparando para me mudar pra Coreia, olhando cursos, faculdades, vistos e tudo necessário para uma chegada sem grandes preocupações para os meus pais.

Quando, como e por que você decidiu ir para a Coreia?
Sempre tive interesse na Ásia e até tive planos de ir para o Japão no início do ensino médio, mas o terremoto e tsunami que aconteceram de 2011 acabaram com os meus planos. Quando estava no final do colegial, estava mais focada na Coreia por assistir muitos doramas e gostar de kpop. Nessa época, estava discutindo a ideia de tirar um ano sabático depois que me formasse, com uma viagem internacional de mais ou menos 3 meses e resolvi fazer essa viagem internacional para a Coreia. Um curso intensivo de coreano dura aproximadamente 2 meses e meio (10 semanas), então decidi fazer algo de útil durante a viagem e aprender uma nova língua. Procurando sobre o curso de idiomas, vi as faculdades e acabei me interessando pela ideia de ficar mais tempo e, talvez, fazer faculdade e trabalhar lá.

Que tipo de intercâmbio você escolheu? Qual a duração do seu intercâmbio?
Fui estudar coreano no Instituto de Coreano da Yonsei University. É quase a mesma coisa que ir para os EUA estudar inglês por uma agência de intercâmbio, mas o curso é em uma universidade. O meu curso, intensivo, leva 1 ano e meio para formar, mas eu só estudei durante 1 ano.

Classe de Coreano na Yonsei University
Classe de Coreano na Yonsei University

Você recomenda este tipo de intercâmbio para alguém? Houve alguma seleção? Foi difícil?
É terrivelmente difícil achar uma agência com qualquer coisa relacionada à Coreia, especialmente uma que não seja localizada em São Paulo, então procurei sozinha, na internet mesmo. A inscrição na universidade foi meio complicada por N motivos, por exemplo: se você quiser ligar lá para tirar uma dúvida ou resolver qualquer problema, terá que ficar acordado até tarde da noite, já que a diferença de horário é de 12 horas. Na inscrição, você tem que enviar seu histórico escolar e um “currículo”, além de provar ter fundos para se sustentar durante o período que estudará.

Quanto tempo levou até que você dominasse razoavelmente o idioma?
Lá pelo 3º, 4º mês já conseguia falar o suficiente pra sobreviver na Coreia. Antes disso eu só sabia me apresentar, falar sobre a minha família e combinar de encontrar com os amigos.

No que a estada na Coreia impactou a sua vida até o momento?
Fui pra Coreia no ano seguinte à minha formatura do ensino médio, sozinha e sem agência. Era minha primeira vez morando fora de casa, indo pra fora do país e sem falar a língua nativa. Na época, eu estava tão animada e cheia de expectativas que não tive medo da situação, só fui seguindo o fluxo das coisas. Eu tive que aprender tudo muito rápido por estar tão longe de casa sem alguém para me ajudar caso algo sério acontecesse. Avaliando toda a experiência, eu mudei e amadureci muito durante esse ano.

Qual (ou quais) a(s) experiência(s) mais marcante(s) da(s) qual(is) você se lembra?
Duas coisas boas aconteceram comigo que me deixaram bastante surpresa. Um dia eu estava esperando uma amiga para almoçar e entrei no prédio do restaurante porque começou a chover e eu não tinha um guarda chuva. Fiquei esperando perto da porta para poder ver quando minha amiga chegasse e, por causa disso, parecia que eu só estava no prédio para me proteger da chuva… Pouco tempo depois, um velhinho saiu da parte de trás do prédio com um guarda-chuva transparente com bolinhas rosa e me entregou! Tentei explicar que só estava esperando uma amiga mas ele insistiu, então só aceitei e agradeci.

O guarda-chuva, símbolo da gentileza coreana.
O guarda-chuva, símbolo da gentileza coreana.

A outra foi quando perdi meu cartão do banco em Hongdae em um sábado. Fiquei super preocupada porque na Coreia raramente precisamos usar a senha do cartão. É só assinar na maquininha e pronto, pagamento efetuado! As vezes, os próprios atendentes da loja assinam pra você… Passei o domingo todo morrendo de preocupação e na segunda-feira, logo cedinho, fui ligar pra bloquearem meu cartão mas, para minha surpresa, o cancelamento já havia sido feito. Quem quer que tenha achado o cartão, o cancelou pra mim!

Você experimentou algum choque cultural? Conte como foi.
Na Coreia as pessoas gostam de dividir a comida, então todos podem colocar a colher no mesmo prato, o que não é muito normal no Brasil. Também tem o fato que, generalizando, os coreanos são extremos em tudo que fazem. Estudam, trabalham e bebem muito. Entendo que a questão da bebida seja uma convenção social, onde os mais novos “meio que tem obrigação” de sair para beber com os mais velhos se forem convidados. É o jeito que eles acharam para relaxar e ficarem mais próximos. Quanto ao estudo e trabalho, vi uma menina de uns 12 anos voltando pra casa às 10 da noite e um grupo de adultos trabalhando em um Café às 2 da manhã. Mesmo que sejam coisas importantes, me senti um pouco mal por elas.

Houve algum momento que te fez pensar se valia a pena estar lá?
Sim. Quando você fica chateado com algo, seja saudade ou choque cultural, acaba repensando se realmente vale a pena morar tão longe e passar por todas as dificuldades. Sempre fui muito ligada à internet, então passei muitas noites procurando sobre a cultura coreana antes de finalmente me mudar. Mas saber como uma cultura é e vivenciá-la são duas coisas completamente diferentes.

E as saudades de casa, como você administrava?
Fiz todo mundo da família baixar o KakaoTalk no celular pra eu ligar sempre que precisasse, além de fazer ligações no Skype sempre que possível.

O que a Coreia tem de inesquecível?
A Coréia é um ótimo país, mas existem 4 coisas específicas que eu realmente aprendi a dar valor: segurança, transporte, apresentações de rua e cafés. Quando eu digo que a Coreia é muito segura, não é só da perspectiva de alguém que veio do Brasil. Meus amigos estrangeiros, da Europa por exemplo, deixavam a carteira e o celular em cima da mesa do restaurante e saíam, para fazer o pedido ou ir ao banheiro, sem se preocupar que alguém os roubasse. Algo que definitivamente não faríamos nos países de onde viemos. O transporte coreano é muito eficiente e você só precisa usar um cartão (chamado T-money) para pagar o ônibus, o metrô e até o táxi. Eu morei em um bairro universitário chamado Sinchon, com pelo menos 4 grandes universidades por perto. Ao lado de Sinchon fica Hongdae, bairro famoso pela vida noturna agitada. Nesses dois bairros, é muito comum ver apresentações de rua de todos os tipos, como fansign de grupos famosos, grupos cover de dança e canto e até orquestras, como no mês passado que a orquestra da Ewha University tocou na praça de Sinchon. Além disso, eu amo os Cafés! Existem milhares de cafés temáticos na Coreia, como Hello Kitty cafe, Camp Cafe, Photography Cafe, Catcafe e – meu favorito Puppy Cafe (onde se pode brincar com os cachorrinhos), entre vários outros de temáticas divertidas. Acho seguro dizer que em cada quarteirão de Seul é possível encontrar pelo menos 1 Café e eu, que sou viciada em café, sempre passava em algum 24hrs quando voltava pra casa tarde da noite.

Pet Café, o favorito de Lara
Pet Café, o favorito de Lara

Algum ponto negativo?
Apesar de gostar muito da Coreia e da comodidade proporcionada por ela, eu sempre me senti incomodada com o fato de estrangeiros serem tratados de forma diferente. Tenho a impressão que, se eu me mudar para um país do ocidente por 20 anos falando a lingua nativa fluentemente, não seria mais vista como uma estrangeira (ou pelo menos não me tratariam como uma logo num primeiro encontro). Principalmente se fosse um país de imigrantes como os EUA. Já na Coreia, está estampado no seu rosto que você não é coreana, o que faz com que eles te tratem diferente e não se sintam muito confortáveis em conversar com você num primeiro encontro. Muita gente não se importa com isso, mas eu quero morar em um lugar em que eu me sinta em casa e que as pessoas me tratem assim.

O que você diria para alguém que está planejando, ou que tem mesmo o sonho de ir estudar/morar na Coreia?
Pesquise. Pesquise MUITO. De preferência usando o Google mesmo. Perguntar às pessoas que moram lá pode ser mais fácil mas é meio chato porque, depois dessa onda da cultura pop coreana invadir o Brasil, muita gente tem se interessado e preferem só ir falar com alguém. Como as perguntas são repetitivas, acabam desanimando a pessoa que vai te responder. Perguntar PODE, mas pesquise antes porque se a pessoa perceber que você não sabe o básico (que pode ser encontrado tanto no Google quanto no Facebook) ela pode não ter boa vontade em te ajudar. Pesquise a faculdade, os custos de alimentação, transporte, aluguel, celular e seguro saúde. Tenha tudo na ponta do lápis e é bom ter um dinheiro guardado porque, se algo urgente acontecer, você está a pelo menos 24 horas de distância da sua família, então é melhor se prevenir.

Vivenciando a cultura coreana. Aprendendo percussão.
Vivenciando a cultura coreana. Aprendendo percussão.

Quais são seus planos para o futuro?
Voltei ao Brasil e decidi fazer a faculdade aqui. Acho que poderei aproveitar melhor o meu tempo de universitária aqui, além de estar perto da família. Gostaria de voltar a estudar na Coreia, mas apenas por alguns anos de intercâmbio mesmo, numa possível pós-graduação ou mestrado fora do Brasil.


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