Um dos meus sites favoritos sobre cultura coreana é o “De Prosa na Coreia“, inclusive adoro ficar fazendo comentários na página deles no Facebook só para ficar “causando”, rsrsrs… Sempre trazem artigos interessantes sobre a Coreia sob o ponto de vista de brasileiros que vivem por lá, de maneira equilibrada e inteligente. E provavelmente você que está lendo este texto deve ter sido um dos muitos que começaram a aprender coreano através dos simpáticos vídeos que eles postam no YouTube!

Pois o último post deles do dia 2 de fevereiro de 2016 deixou-me com um nó na garganta: trazia um link de um artigo com vídeo sobre a história de Myeong Bok Kim. Ele é um dos cerca de 75 prisioneiros de guerra que decidiram não voltar para a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) depois do conflito que terminou em 1953. Aos 80 anos ele vive no Brasil, onde formou família e vive desde então.

E o motivo da minha emoção foi lembrar da história do meu avô, que vivia em Pyongyang antes da Coreia ser dividida em duas partes. Já ouvi diversas vezes sobre a história da sua fuga para o sul com a minha avó, meu pai e meus tios a tiracolo. E já ouvi também o seu lamento em ter deixado para trás seus pais e demais membros da família, fora dois de seus irmãos que fugiram junto com ele. E existem muitos outros coreanos com histórias parecidas que também vivem no Brasil.

Eu, Filho, Avô E Pai, Todos Primogênitos. Tiramos A Mesma Foto Todo Ano!
Quatro gerações, todos primogênitos. Tiramos a mesma foto todo ano!

Aos 95 anos, lembra muito vagamente do seu passado na hoje Coreia do Norte. A idade não permite que detalhes da sua juventude venham à sua lembrança, mas não deixa de ficar triste por tudo o que teve que abandonar em busca de segurança para uma vida melhor para a sua família recém constituída. Hoje viúvo, não cogita fazer uma viagem de volta nem para uma visita, no entanto lembra constantemente  e com muita saudade de seus pais, dos quais nunca mais nem ouviu falar.

Ouvindo a história dele, acabo sensibilizando-me e tento imaginar a situação mas somente ele sabe tudo que passou, das angústias e medos que teve que enfrentar, da coragem necessária para partir rumo ao desconhecido. E que no caso dele, foi feito novamente na década de 70 quando saiu da Coreia e veio ao Brasil, mais uma vez em busca da felicidade que acabou não encontrando em Seul por causa das dificuldades econômicas que o país enfrentava nessa época. Às vezes viajo junto com ele na história e tento imaginar como teria sido a minha vida se tivesse ficado na Coreia. E juntos sempre chegamos à conclusão de que a melhor coisa que nos aconteceu foi vir para o Brasil, onde cresci a agora formei a minha própria família.

Hoje, nem cogitamos voltar à Coreia e estamos na terceira geração de brasileiros. Minhas duas avós viveram e morreram em São Paulo e é onde meu avó deseja ficar depois de sua morte. A gente sempre brinca que se cavarmos um buraco chegaremos à Coreia do outro lado e fico imaginando se quando ele saiu de sua terra natal, sonhava um dia em estar por aqui. A vida sempre acaba nos surpreendendo a cada momento.

Se aprendi algo com o meu avô? Sim: coragem. Coragem de enfrentar os meus medos e seguir em frente mesmo que não haja um plano que pareça minimamente razoável. E de certa maneira acredito que nos demos bem no Brasil porque este é o espírito que existe aqui. Dizem que o brasileiro é um povo criativo. Eu já penso que o brasileiro tem o mesmo espírito guerreiro que o meu avô teve, partindo de sua terra natal.

 

PS1: A foto destacada no título é do 백두산 – Monte Baektu (2.744 m), a maior montanha (um vulcão, na verdade) da península coreana e localizada na Coreia do Norte.

PS2: Não tem nada a ver com o assunto do post, mas o escrevi enquanto ouvia algumas das minhas músicas coreanas da década de 90 favoritas. Como sempre me pedem dicas, caso queiram conferir, aí estão. Depois de ouvir, digam o que acharam!

김건모 – 서울의 달
투투 – 일과 이분의 일
영턱스클럽 – 정
DJ DOC – 여름이야기
H.O.T – 캔디
S.E.S – I’m Your Girl
Fin.K.L – Forever Love


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

12 COMENTÁRIOS

  1. Muito obrigada por trazer sempre fatos reais de superação. A ilustração não poderia ser melhor! Meu marido foi interno em um orfanato presbiteriano, aqui no Rio de Janeiro, teve contato há muitos anos com um norte coreano e sente saudades até hoje. Back Hum Fun, ele me diz que era seu nome e sabe até de cor como ele rezava todos os dias. Realmente deve ter sido feliz com sua família Brasileira e ainda deixou saudades de quem ele cuidou como funcionário de orfanato.

      • Bruno Kim, conversando com o meu marido sobre a reportagem, ele afirmou que o coreano que ele conheceu, se encaixa bem nesta leva de prisioneiros de guerra. Eu disse que ele era Norte coreano e me enganei. Ele era prisioneiro na Coreia do norte. Quando ele já estava no Brasil, teve até convite para voltar a Coreia do Sul como herói. Meu marido ainda menino, conheceu ele, já trabalhando no orfanato na parte da granja. Disse que ele formou família com esposa brasileira. Uma filha dele foi proprietária de escola na Rua Edgar Wernek, em Jacarepaguá e soube que ele foi até candidato a vereador aqui pelo RJ. Infelizmente, também já soube que ele faleceu. O Orfanato ainda existe: http://www.inpar.org.br/ Vou me informar se há registro de funcionários.

  2. Gosto da maneira como você escreve, sinto que é de coração e dessa forma consegue tocar os corações de seus leitores. Hoje, lendo seu post, não pude deixar de comentar, me comoveu muito.
    Quantos de nós não temos histórias parecidas, quantos aqui mesmo dentro do pais, saem de seus estados natais é emigram a outros, em busca de uma vida melhor…e quanta frustração! Se deparam com o sustento da família que formam, equilibram as contas com o salário que recebem e quando dão por si, lá se foram 20, 30 anos e não conseguem visitar seus pais, parentes que estão em outro estado. Digo isso,pois meu pai foi um deles, chegou adolescente em São Paulo vindo do Pará, uma das últimas frases que lembro que ele me disse : -Filha, quando você tiver maior vou te levar lá…não deu tempo, ele faleceu e não pode me levar…
    O que nos conforta é isso, o legado que eles deixam! Filhos honrados e de caratér!
    E por sinal, seu menino é lindo Bruno, parabéns!
    E obrigada por suas matérias

    • Adriana, muitíssimo obrigado pelo elogio! Pois é… não tem jeito, eu até consigo escrever de maneira mais fria e dissertativa, mas aqui no Koreapost sempre escrevo de maneira pessoal, lembrando de experiências familiares ou da minha infância. Mas olha, o que seu pai passou da saída do Pará até chegar em São Paulo também deve dar uma baita história, hein?? 🙂

  3. Bruno Kim, é impossível conter a emoção. Obrigada por compartilhar a sua história conosco! O seu avô e o Sr. Myeong Bok Kim são verdadeiros exemplos para todos nós. Parabéns pelo seu avô, ele é símbolo de muita coragem e determinação. Espero um dia ter a honra de conhecê-los! 🙂

  4. Adoro seus post,sempre fico emocionada.
    Conhecí a Coréia recentemente em setembro e sempre gosto de saber o que se passou e o que se passa na cultura Coreana.Trabalhei por 3 anos em empresa coreana e admiro a força de vontade e o quanto trabalham,nossa!
    Por isso a Coréia é o que é depois de ter vivido guerras.
    Admiro seu avô pela garra e coragem,fico imaginando se o pai do meu filho tivesse tido a coragem de enfrentar todo o preconceito que ainda existe na Coréia e em sua família e tivesse lutado para estar ao nosso lado.
    Sua família é linda,seus filhos e esposa.
    Confesso que tentei cortar cabelo do meu filho parecido com de seu filho e pela primeira vez ele ficou quietinho.
    Ele é um fofo e fico imaginando se Noah parecerá com ele quando tiver maiorzinho,acho um pouco parecido.rss…
    Abraços e Felicidades!

  5. Nossa não consigo conter as lagrimas e uma historia real mente triste e feliz ao mesmo tempo de dificudades e superaçao Amo o jeito que o sr. ver o nosso país de uma maneira que muitos brasileiros não ver mais quando passamos a ler seus post passamos a dar valor ao nosso país Obrigado sr kim .

  6. Escrevi uma matéria sobre a história do Kim. Na verdade, utilizei dados de uma matéria do The New York Times. O texto ficou mais ou menos assim http://www.sonoticias.com.br/noticia/geral/historia-de-ex-prisioneiro-de-guerra-que-mora-em-cuiaba-e-destaque-na-imprensa-internacional

    O NYT cita que ele mora em Cuiabá. Outro site que também escreveu matéria com ele diz que é morador de Cuiabá mesmo (http://www.hani.co.kr/arti/english_edition/e_international/703984.html).

    Tenho muita vontade de entrevista ele pessoalmente para o site onde trabalho (Só Notícias, aquele que mandei link acima). Você tem algum contato com ele?

    Desde já agradeço!!!

  7. Minha irmã mais velha é filha de um norte-coreano que chamava-se Kim Chang Joon, de Pyongyang. Ela não o vê desde os 5 anos de idade. Buscamos ele de todas as maneiras possíveis e impossíveis. Colocamos anúncio em jornal coreano aqui no Brasil e tudo. Infelizmente, este ano soubemos através da internet, que ele faleceu em Guarulhos e ela não realizou o sonho de rever o pai.
    A história dele é muito triste, pois segundo o que contava, foi capturado em frente à sua casa, enquanto cuidava da horta, com 8 ou 9 anos. Nunca mais viu seus pais, passou muita fome porque tudo foi envenenado e só podia comer e beber o que os aviões traziam para eles. O pão era de serragem. Não sabemos nem como, nem porque ficou preso na Índia por 10 anos. No final deste período, perguntaram à ele o que queria fazer e ele pode optar por vir ao Brasil.
    Logo se casou com minha mãe, 20 anos mais nova, mas o casamento não durou muito, pois a diferença de cultura e as neuroses da guerra foram demais para a minha mãe.
    Foi então que ele sumiu e nunca mais ninguém soube dele.
    Quero agradecer este espaço e parabenizá-lo por ser tão aberto, pois a impressão que temos é que tudo isso sempre teve que ser abafado e pouco discutido.
    Muito obrigada, muito obrigada!!!

    • Olá Romy! Nós é que agradecemos por você compartilhar sua história conosco. Sabemos que horrores como o que o pai de sua irmã passou ainda são reais na Coreia do Norte, por isso é nosso maior desejo que um dia as Coreias voltem a estar unidas novamente.

      • Bom dia. Novamente eu por aqui. Queria muito falar com vocês pois preciso de informações de como foi o processo de entrada do grupo no Brasil, já que o pai das minhas irmãs não se encontra mais conosco.
        Temos algumas questões a serem resolvidas em Portugal, e para isso exigem a certidão de nascimento ou passaporte do pai das minhas irmãs. Sinceramente não sei como resolver e no desespero pensei que qualquer tipo de informação, no momento, é crucial. Já contatei embaixadas, Itamaraty e a ONU, mas não souberam me dizer nada.
        Por favor, preciso muito de qualquer informação que talvez vocês possam ter. Deixo meu e-mail para contato na esperança de que vocês queiram me ajudar. Muito obrigada.

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