Na coluna de hoje eu optei por traduzir e adaptar um excelente artigo do jornal “The Washington Post” que fala sobre algumas peculiaridades da educação na Coreia, citando principalmente, os “professores-espetáculo”. Acompanhe.

ChaKil-yong não é um cantor ou ator. Não, ele é um tipo único de celebridade sul-coreana – uma estrela do ensino! E a canção que ele canta com a Clara (na foto acima), uma mega celebridade coreana, em um vídeo que parece saído da MTV, se chama “SAT Jackpot” (algo como “A Sorte Grande no Enem”, para o Brasil).

Neste país, obcecado por educação, Cha é um professor de matemática acima da média. Mas ele não ensina em uma escola. Ele apresenta um “hagwon” (cursinho), dentro de uma plataforma online, a SevenEdu que se concentra totalmente na preparação dos alunos para prestar o vestibular. “Sou loucamente apaixonado por matemática“, disse Cha, “chic no último” em sua camisa e calça de corte perfeito e seu casaco de tweed, no escritório em Gangnam – o bairro rico de Seul, famoso por seu consumo conspícuo e satirizado na canção “GangnamStyle” do rapper Psy.

ChaKil-yong. Foto: The Washington Post por Shin Woong-jae
ChaKil-yong. Foto: The Washington Post por Shin Woong-jae

Nem é preciso exagerar o valor que a Coreia do Sul dá para a educação. Esta é uma sociedade em que você tem que entrar no jardim de infância certo, de modo que você possa entrar na escola primária certa, depois para o ensino médio certo e deste, finalmente, entrar na faculdade certa. O que, naturalmente, lhe dará o melhor currículo para o melhor emprego e no final, o casamento perfeito.

Há até mesmo uma expressão para descrever a versão coreana das mães corujas: “tchimabaram” – ou literalmente “vento na saia”, que faz alusão ao farfalhar das roupas das mães quando correm para a sala de aula para exigir um lugar na primeira fila para o seu filho ou questionar suas notas. Muitas famílias coreanas aceitam até viver divididas em lados opostos do mundo em busca de uma melhor educação para os filhos: A mãe e as crianças vivem nos Estados Unidos ou algum outro país de língua inglesa, para garantir a entrada de uma universidade de prestígio (de preferência Harvard) e o pai fica trabalhando na Coreia, indo visitar quando pode.

Tudo isso porque o exame de admissão à faculdade, um equivalente (bem mais alto nível) do ENEM é o evento mais importante na vida de um jovem na Coreia do Sul. Por esta razão, a grande maioria dos adolescentes fazem uma dupla jornada na escola: Eles frequentam aulas normais diariamente e vão aos hagwons estudar depois do horário. Cada vez mais, os hagwons on-line estão substituindo as escolas tradicionais e se tornando uma indústria milionária.

Esta devoção ao estudo é a razão pela qual a Coreia do Sul classifica-se consistentemente no topo do mundo desenvolvido em leitura, matemática e ciências, embora os últimos números da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) também mostrem que os estudantes coreanos não consideram seus anos de escola como dos mais felizes. A Coreia do Sul também tem a maior taxa de suicídio do mundo desenvolvido, o que muitos sugerem estar relacionado justamente à esta pressão sobre o desempenho escolar.

Alguns políticos e educadores estão questionando se as coisas saíram do controle, mas até mesmo os pais que se opõem a este sistema punitivo, acham difícil sair dele – seus próprios filhos se queixam de que eles não serão bem-sucedidos se não frequentarem um hagwon.

Isso é uma boa notícia para os professores como Cha, que começou a ensinar em um hagwon comum para pagar o seu doutorado. Agora, cerca de 300.000 estudantes assistem sua aula online a qualquer momento, pagando US$ 39 por um curso de 20 horas (cursinhos tradicionais cobram até US$ 600 por um curso) onde ele lhes ensina truques para fazer os exames cronometrados, incluindo atalhos que os alunos podem tomar para resolver um problema mais rápido.

Perguntado sobre o que o faz se destacar, Cha disse: “Suponha que você dá os mesmos ingredientes para 100 chefs diferentes. Eles fariam pratos diferentes, embora estejam trabalhando com os mesmos ingredientes. É a mesma coisa com uma aula de matemática. Mesmo sendo matemática e no mesmo idioma (coreano), você pode usar os ingredientes de forma diferente para chegar a resultados diferentes“.

Em seu estúdio há uma lousa verde e uma mesa de escritório, mas atrás das câmeras há pilhas de acessórios – incluindo máscaras de hipopótamo e de Batman e uma jaqueta de lantejoulas douradas. “Você não só está ensinando um assunto, você também tem que ser um artista de múltiplos talentos“, disse Cha, recusando-se a revelar sua idade e dizendo apenas que ele está no ramo há 20 anos.

O estúdio de ChaKil-yong. Foto: Shin Woong-jae/The Washington Post)
O estúdio de ChaKil-yong. Foto: Shin Woong-jae/The Washington Post)

No dia do exame, ele visita escolas para oferecer incentivo aos candidatos. Ele também faz anúncios de televisão, endossando produtos, como por exemplo uma bebida de ginseng vermelho que tem fama de aumentar o poder do cérebro.

KwonKyu-ho, um professor de literatura também muito bem cotado, sempre aparece com as estrelas de K-pop e tem um negócio lucrativo no apoio a celebridades. Ele usa seu nome para incentivar as pessoas a estudar melhor.

Kwon Kyu-Ho. Foto: Gilberto Tadday
Kwon Kyu-Ho. Foto: Gilberto Tadday

Manter a esta posição destaque não requer apenas ser bom professor. Kwon, de 33, cuida muito da estética e da forma física. Ele disse que alguns professores tem até estilistas particulares. “Eu sempre quis ser um professor, mas eu sinto que o ensino regular tem seus limites. Há uma certa forma meio engessada de ensinar “, disse Kwon, cujas aulas são transmitidas pelos sites ETOOS e VitaEdu. “Mas claro que eu estou ganhando muito mais dinheiro dessa forma.” Ele não quis revelar o quanto ganha, apenas que eram “vários milhões” de dólares por ano. O segredo do seu sucesso, Kwon disse, foi descobrir as partes do exame que fazem a maioria dos estudantes tropeçar. Ele se concentra suas aulas nessas áreas problemáticas.

Este estilo de educação tem suas vantagens, ele disse. “Eu acho que um dos benefícios da educação privada é que os professores competem uns com os outros e tentar desenvolver cada vez mais um conteúdo de maior qualidade“, disse ele. “Nós temos dinheiro. Podemos investir em coisas que os professores normais não podem“.

O governo da Presidente Park Geun-hye tenta promover a ideia de “economia criativa” como a chave para elevar a Coreia do Sul para o próximo nível de desenvolvimento, mas muitos analistas dizem que o país faria bem em também optar por uma abordagem mais criativa em relação a educação. Lee Ju-ho, que foi ministro da educação até o ano passado, está entre eles. “Esse hábito dos adolescentes ficarem até muito tarde acordados para estudar pode levar a problemas no desenvolvimento de suas outras habilidades, como o caráter, a criatividade e pensamento crítico“, disse ele. “O Hagwon lida com a aprendizagem de forma mecânica, através da memorização“.

Lee disse que outro problema reside também na forma de avalição para admissão nas universidades, que se baseia unicamente nos resultados dos testes. Ele acredita, que a exemplo do ocidente, as faculdades deveriam analisar o currículo do candidato como um todo, levando em consideração suas atividades extracurriculares e talentos individuais.
Nós realmente precisamos mudar“, disse Lee, que agora é professor da Escola de Políticas Públicas e Gestão do Instituto de Desenvolvimento da Coreia”.

Veja abaixo um vídeo produzido pelo professor ChaKil-yong com uma das participantes do Unpretty Rap Star.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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