Alina Shamsutdinova acredita não poder mostrar seu potencial na Coreia do Sul. A jovem cazaquistanesa de 23 anos de idade chegou em Seul em 2011, como estudante internacional, na esperança de aprender mais sobre o país de sua origem étnica. Sendo parte da terceira geração de Cazaquistaneses com etnia coreana, ela cresceu se considerando bonita, confiante e confortável com seu corpo.

No entanto, tudo começou a mudar quando ela percebeu que algumas pessoas na Coreia não a viam da mesma forma. “Já cheguei há ouvir ‘tudo bem ser feia, mas ser gorda é inaceitável’” ela disse em uma entrevista para o The Korea Herald.

Outra foi ‘você tem muita sorte de ter um rosto bonito. Senão você nunca conseguiria um namorado’”.

Mesmo sendo uma pessoa confiante, Alina disse que uma parte dela teve problemas com auto-estima na Coreia. Ela escutava frequentemente de coreanos que ela deveria perder peso. Além disso, a maioria das lojas locais não tinham itens para seu tamanho.

Alina Shamsutdinova, estudante cazaquistanesa de 22 anos que mora em Seul, diz não querer que os o utros sintam pena dela devido ao body-shaming pelo qual passou nos sua estádia na Coréia. “Eu quero mostrar às pessoas ‘eu sou quem sou, e eu me acho linda, ‘” ela disse. (Crédito da foto: Alina Shamsutdinova)
Alina Shamsutdinova, estudante cazaquistanesa de 22 anos que mora em Seul, diz não querer que os o utros sintam pena dela devido ao preconceito que sofreu em sua estadia na Coreia. “Eu quero mostrar às pessoas que eu sou quem sou e eu me acho linda” ela disse. (Crédito da foto: Alina Shamsutdinova)

Quando ela perdeu cerca de 10 quilos por meio de uma dieta alimentar muito restrita em 2014 – ela bebeu apenas água e leite durante uma semana – ela escutou de seus conhecidos coreanos que ela deveria perder mais. Ao longo daquela semana, ela se sentiu tonta e fraca. Desde então, ela fez diversas tentativas para perder peso após engordar novamente, até que recentemente ela decidiu perder peso apenas por questões de saúde.

Acho que tentei somente seguir o que os outros me falavam, ou o que a sociedade queria”, Alina disse sobre suas tentativas anteriores de perder peso para ser mais magra. “Eu era jovem e pensava que era certo. Eu pensava que estava trabalhando em mim mesma, quando o trabalho deveria começar por dentro”.

Discriminação e Distúrbios Alimentares

Apesar de não haverem muitos estudos sobre body-shaming (ou preconceito com pessoas fora do peso) na Coreia, estatísticas mostram que um número significativo de mulheres coreanas tem problemas com auto estima e distúrbios alimentares.

Em 2013, um estudo feito pela Samyook University entrevistou 154 estudantes universitárias com um peso normal, ou seja, com índice de massa corporal entre 18 e 23, e quase 95% delas disseram não se sentirem felizes com seus corpos. Entre elas, 61,1% disseram sentir a necessidade de perder peso para se tornarem mais atraentes.

Dentre os 1,796 coreanos que procuraram ajuda médica devido a bulimia de 2008 a 2013, quase 94% eram mulheres. Além disso, mulheres entre 20 e 30 anos somavam 66,5% de todos estes pacientes. Inúmeras estrelas de K-pop e celebridades, incluindo IU e Jang Na-Ra, admitiram abertamente que já passaram por este distúrbio alimentar, que envolve comer muito por um tempo, seguido por esforços frenéticos para não ocorrer em ganho de peso (geralmente provocando o vômito). Além do mais, muitos podem estar sofrendo em silêncio, já que estatísticas liberadas pelo National Health Insurance Service não incluem aqueles que podem ter bulimia, mas não procuraram ajuda profissional.

Enquanto isso, um estudo do ano passado pelo Soon Chun Hyang Univeristy, que monitorou emissoras públicas coreanas por 6 meses, descobriu que o body-shaming com mulheres plus-size era frequente na TV coreana.

Por exemplo, em um episódio de “Hello”, um talk show da KBS2, mostrou a história de uma jovem que depreciava sua irmã mais nova.  Ela a chamava de “gorda e pequena”, quando a irmã disse que se sentia confiante com seu próprio corpo e pensava que ela poderia namorar quem quisesse. A irmã mais nova revelou no programa: “Minha irmã disse que eu pareço “nojenta” quando uso shorts”.

O estudo mostrou que muitas produtoras de TV não viam conexão entre o padrão prevalente do preconceito com aparência e a desigualdade de gênero. Os pesquisadores perguntaram à 6 produtoras de TV sobre o nível de importância de combater esse preconceito e o body-shaming na televisão, em uma escala de zero a cinco, sendo cinco como o mais importante. As produtoras marcaram em média 1,5 de cinco.

Eu acho que o preconceito se aplica tanto a homens quanto mulheres (na TV)”, disse um dos produtores entrevistados pelo estudo. “Eu não acho que preconceito (com o peso) seja parte do problema de desigualdade de gêneros”.

Body-Shaming no Sistema Educacional

Won Yoo-Ri tinha 17 anos quando retornou à Seul em 2010 para ingressar na universidade, após viver fora do país por 16 anos. Durante os primeiros meses, uma mulher de meia idade literalmente se assustou no meio da rua quando a viu usando shorts.

Meu Deus, quando você vai perder peso? Mulheres devem ser magras para encontrar homens”, disse a mulher, que nunca a havia visto antes.

Daquele dia em diante, Yoo-Ri disse que era discriminada devido ao seu corpo a torto e a direito na Coreia, tanto por estranhos quanto por amigos, colegas e até professores. Um dos seus antigos colegas de classe disse que ele namoraria com ela se ela perdesse 14 quilos, apesar dela nunca ter tido interesse em namorar com ele. Uma vez em um restaurante, o garçom disse para ela parar de comer porque já havia comido bastante. E Yoo-Ri também teve um professor que disse a ela que ela “teria tudo” se perdesse 10 quilos.

Ela disse que todas essas experiências afetaram muito sua autoestima.

Nos Estados Unidos, eu sentia que tudo que importava era minha personalidade e as pessoas respondiam a isso,” ela disse ao The Korea Herald. “Mas vir para um país e ouvir toda conversa sempre ir para o lado do ‘você deveria perder peso’ é de partir o coração. Isso se tornou minha identidade: a garota gorda e extrovertida de LA.

Pressionada pelo constante constrangimento, Yoo-Ri passou por diversas tentativas para perder peso desde 2010. Ela até procurou ajuda médica em uma empresa para controle de peso. Em uma tentativa, ela corria 10 quilômetros por dia durante dois meses durante o forte inverno. “Eu até considerei redução de estômago”, ela disse.

O ponto principal para perder peso era evitar ser envergonhada e passar a ser elogiada pela sua aparência, segundo ela. Uma de suas colegas da universidade também se forçou a parar de comer durante quatro meses. Ela apenas comia meia maçã e um peito de frango ao dia para perder peso. Durante o processo, ela desmaiou pelo menos quatro vezes. “Eu queria finalmente me sentir bonita na Coreia pelo menos uma vez e me encaixar no padrão”, ela disse. “Para poder esquecer isso e melhorar em outros aspectos.

Ashley Hounsell, uma americana de 29 anos de idade e professora de inglês, trabalha em uma escola de ensino médio há seis anos. Ela testemunhou muitas de suas alunas, atuais e passadas, com insegurança sobre sua imagem corporal. Todo ano durante o os exames periódicos de saúde, a balança mostrava o peso e altura de todos para a classe inteira ver. “Eu lembro que as meninas me contavam que não comiam por uma semana antes do exame na escola,” Ashley disse ao The Korea Herald. “Quando perguntei o motivo, elas me disseram que era porque todos iriam ver seu peso”.

Antes de começar a trabalhar na escola, ela lecionou para crianças de um instituto privado de língua inglesa. Ali uma de suas alunas, que tinha 9 anos na época, escreveu em seu diário que estava em uma dieta somente de pepino porque sua mãe disse que ela era gorda.

A Coreia do Sul atualmente não oferece programas educacionais específicos para imagem corporal ou auto-estima para crianças em idade escolar.

Nosso programa de igualdade de gênero para professores escolares inclui uma sessão sobre como uma pessoa não deve sofrer descriminação devido a sua aparência, “ disse Lee Myung-Eun, do Ministério da Igualdade de Gênero e Família e da Divisão de Avaliação do Impacto do Gênero.

Body Shaming e Indústria da Moda

Em Seul, Alina apenas faz compras em Myeong-Dong, em lojas estrangeiras como H&M e Forever 21, porque marcas nacionais coreanas simplesmente não oferecem roupas para sua numeração. Certa vez enquanto olhava uma blusa para presente em uma loja coreana, a assistente de vendas agarrou a blusa de suas mãos sem nem ao menos perguntar. “E então começou a falar (em inglês) ‘(muito) pequena, (muito) pequena’” ela disse. “Eu fiquei chocada.

Ela disse que até lojas online e estrangeiras na Coreia geralmente não oferecem itens para mulheres plus-size. E ela fica constantemente frustrada com as opções disponíveis – que são geralmente muito folgadas ou desfavoráveis, e não complementam o corpo plus-size, segundo ela. “Ter apenas algumas lojas onde posso comprar não é fácil,” ela disse. “É como se, por ser plus-size, você não pode se vestir bem. Eu não posso me vestir tão bem quanto quero (na Coreia), mesmo que eu queira parecer bonita”.

Baek Jae-Hwan, que administra uma loja de varejo online especificamente voltada para mulheres plus-size há cinco anos, disse que muitos coreanos tendem a pensar que aqueles que se vestem bem são apenas os magros. A sua loja, Tongkeungirl, é uma das poucas lojas online coreanas que possui modelos plus-size para as roupas. Uma das modelos é a esposa de Baek, que também é sua parceira de negócio.

Um "gif" de um dos produtos da loja TongKeunGirl
Um “gif” de um dos produtos da loja TongKeunGirl

Minha esposa sempre teve gosto especifico para roupas”, Jae-Hwan disse ao The Koreal Herald. “Ela sempre preferiu designs simples e modernos, ao invés de roupas com babados ou chamativas. Já que ela não conseguia encontrar o que queria, disponível no seu tamanho, ela decidiu consegui-las por conta própria. E foi assim que começamos nosso negócio”.

Jae-Hwan disse que recebeu bastante feedback positivo de seus consumidores, que também expressaram sua frustração com outras lojas online que mostram modelos magras quando afirmam visar mulheres plus-size. “O tamanho e o corpo de uma pessoa não tem haver com a habilidade de se vestir bem. Eu já vi pessoas magras que se vestem mal”, ele disse. “Se vestir bem significa entender o seu corpo, o que funciona melhor para você. Eu acho totalmente possível pessoas de todos os tipos se vestirem bem. Mas também entendo que indivíduos plus-size possuem opções limitadas e isso precisa mudar”.

Atraindo Mudanças

No inicio do ano, Alina participou de um projeto especial chamado “I am Beautiful”, composto por fotografias de 24 indivíduos que tiveram problemas com auto estima e fazem esforços para se amar e se aceitar como são.

Para ela, descobrir a existência de modelos plus-size pelo mundo, especialmente Tess Holliday, uma das mais conhecidas ativistas de positividade corporal nos Estados Unidos, e a primeira modelo plus-size da Coreia, Kim Ji-Yang, fez muita diferença. Ela recentemente aceitou que não é fácil perder peso e que iria entrar em dieta somente por motivos de saúde, e não para se encaixar em padrões de beleza.

A modelo plus size mais famosa do mundo - Tess Holiday
A modelo plus size mais famosa do mundo – Tess Holiday

Apesar de considerar que modelos plus-size não devem justificar a obesidade e estilo de vida não saudáveis, Alina disse que o mundo precisa de mais pessoas como Tess e Ji-Yang para mudar a visão de beleza e corpo feminino.

Uma vez que comecei a ver garotas plus-size na mídia, eu definitivamente comecei a apreciar mais o meu corpo e me aceitar mais”, ela disse. “Aprender sobre Kim Ji-Yang foi empoderador. Ela é bonita e é asiática como eu, mesmo o estereótipo sendo que ‘asiáticos são normalmente magros’”.

A primeira modelo plus size coreana - Kim Ji-Yang
A primeira modelo plus size coreana – Kim Ji-Yang

James Turnbull, que escreve sobre feminismo coreano e cultura popular em seu blog conhecido como Grand Narrative, disse que pedir aos produtores de TV coreanos que percebam  a descriminação é como “pedir para peixes prestarem atenção na água”. Ele apontou que a Coreia possui um dos maiores índice de endosso por celebridades à essa cultura da magreza, já que cerca de 60% dos comerciais tem presença de celebridades, em oposição com a média de 10% em outras nações desenvolvidas.

O governo sul coreano pode escolher exemplos alternativos como modelos e representantes para suas inúmeras campanhas públicas, ao invés de sempre escolher estrelas jovens e magras de K-pop”, disse Turnbull  quando perguntado sobre o que a Coreia poderia fazer para abordar a discussão do body-shaming.

Como Alina, Yoo-Ri decidiu recentemente perder peso para benefício próprio e por sua saúde, e diz que nunca esteve tão feliz. “Há um ano atrás, eu conheci meu atual namorado que é filipino-americano,” ela disse. “Estar com ele e seu amigos me tranquilizou e encorajou a perder peso apenas talvez para ser saudável, o que foi crucial. Realmente depende com quem você anda”.


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6 COMENTÁRIOS

  1. Isso aparentemente é bem comum na Ásia pelo visto. O padrão de beleza está bem distante do ocidente na minha opinião. Não acho mulheres tão magras atraentes, e acredito que a maioria dos brasileiros também não. Muitas vezes a cultura coreana me passa a ideia de um tanto de discriminação por coisas muito idiotas. Principalmente para as mulheres. Elas tem uma certa obrigação de serem magras, brancas, castas, e super meigas. É como se não tivessem uma identidade própria. Não estou aqui para julgar, só acho desnecessário tudo isso. Obrigado pelo ótimo texto. Fico muito feliz do site ter tantas informações e pessoas interessadas em repassar esse conhecimento.

    • Olá Rafael, realmente o padrão é muito diferente do ocidental e por diversas razões, em sua maioria culturais e históricas, a sociedade coreana leva muito consideração a aparência e comportamento público do indivíduo em meio a um mercado de trabalho tão competitivo e estilo de vida muito estressante (de modo semelhante a outros países asiáticos). O diferencial da Coreia do Sul é exatamente um indústria cultural que continua incentivando esse tipo de comportamento não saudável. Mas mudanças tem acontecido, por dentro, para que a sociedade coreana seja mais flexível nesse sentido.
      Obrigada pelo comentário e por curtir o KoreaPost!

  2. Espero que o Koreapost promova mais Hallyu e se abstenha de artigos politizados como os que tem sido publicados recentemente (cachorros, idosos e body shaming, entre outros). Um site que deveria promover a cultura coreana não deveria gastar espaço com notícias de jornal. Se a idéia é mostrar o outro lado da coréia, criem uma seção só sobre isso, ao invés de poluir nossa linha do tempo com esse tipo de matéria.

    • Prezada Joana, Obrigada por seu comentário. Há diversos sites que atualmente promovem a Onda Hallyu. A missão do Koreapost é ser justamente um veículo diferenciado, que traga para os apreciadores da cultura coreana, a verdade sobre o país, pois ocorre que muitas pessoas tem uma visão extremamente romanceada da Coreia. O Koreapost é sim um veículo de notícias e informações fidedignas, das quais também fazem parte os aspectos da Onda Hallyu mas definitivamente, não é o nosso foco.

  3. Sempre quis visitar a Coréia mas sou gorda e já sofro preconceito no Brasil (onde já consigo driblar muito o mesmo), mas tenho receio de não me sentir bem lá e ser tratada mal em todo lugar que eu for.. Isso me desanima muito para ir, pois gostaria de conhecer de perto a cultura, as comidas, os cosméticos e etc. O que você acha sobre isso? Devo me arriscar quando eu tiver a possibilidade de visitar o país ou melhor só admirar de longe? 🙁

    • Querida Leticia – Geralmente esse tipo de preconceito é focado nos próprios coreanos. É deles para com eles mesmos. Os estrangeiros não sofrem tanto. Minha filha é gordinha e estudou lá 5 meses. Ela me disse que nunca sofreu nenhum tipo de bullying. Então, para um turista, isso afeta menos ainda. Acredito que seja um pouco mais delicado quando o assunto é conseguir um emprego, porém, acredito que o mesmo ocorre no Brasil, porque infelizmente, as pessoas confundem obesidade com doença. Mas não desista dos seus sonhos, nem por isso e nem por nada!

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