De acordo com as normas legais da Coreia do Sul, Yoon Kyeong-ah não é considerada “madura” o suficiente para formar opinião política e votar nas eleições. Mas a estudante de ensino médio, de 18 anos, de Anyang, Província de Gyeonggi, pensa o contrário.

Ela pode ser imatura em outros aspectos da vida, mas é completamente capaz de compreender os acontecimentos dos últimos meses no país, disse Yoon.

Eu vim aqui mostrar que nós (estudantes) temos uma voz na sociedade,Yoon informou do The Korea Herald em novembro, quando se juntou às dezenas de milhares de manifestantes nos protestos em grande escala no centro de Seul contra a presidente Park Geun-hye. Eu não podia simplesmente ficar em casa assistindo a atitude irresponsável da presidente.”

Durante o escândalo chocante envolvendo Park Geun-hye e sua amiga de longa data, Choi Soon-sil, a Coreia do Sul presenciou o despertar político inesperado de uma parcela demográfica da população – os adolescentes.

Nas manifestações contra a presidente – feitas sempre aos sábados desde do fim de outubro, com o pico de 2,3 milhões de pessoas no dia 3 de dezembro – foram um sinal surreal do crescimento do interesse dos jovens pela política.

Em 19 de novembro, o protesto ocorreu dois dias depois do exame nacional de vestibular, mesmo assim uma grande quantidade de jovens esteve presente. Muitos se apresentaram ainda com uniformes escolares e alguns portais de notícias descreveram essa nova gama de manifestantes como “legião do uniforme escolar”.

Alguns manifestantes jovens foram mais abertos que seus companheiros mais velhos, falando com confiança sobre seus direitos como cidadãos em palcos improvisados e palanques no topo de caminhões. Eles esquentaram a discussão sobre diminuir a idade legal para votar.

Jovens e adolescentes participam mais e se preocupam mais com os acontecimentos atuais,” afirmou Kim Ji-yoon, também de 18 anos, que compareceu a vigília noturna à luz de velas do dia 19 de novembro, após a prova do vestibular.

Ao contrário de seus semelhantes em outros países, aos jovens de 18 anos na Coreia do Sul não é permitido o voto. São até proibidos por lei de se ligarem à partidos políticos ou de expressar opiniões políticas de modo continuo que afete qualquer eleição.

A lei já havia sido desafiada por proponentes de uma nova idade legal de voto anteriormente. Mas o Tribunal Constitucional manteve uma posição conservadora sobre o assunto, rejeitando o primeiro recurso feito em 1997 quando a idade mínima era 20 anos de idade. Foram citados a “falta de discernimento” e “imaturidade” dos jovens quando o assunto é decisões políticas. Pelo mesmo motivo – quando a idade mínima era 19 anos – esse descontentamento foi expressado em 2014. Na Coreia, jovens de 18 anos são veteranos no ensino médio, enquanto que apenas aos 19 anos são considerado legalmente adultos.

Entre as 38 nações da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a Coreia é a única que estipula direitos de voto apenas para maiores de 19 anos, enquanto que os demais 32 países membros garantem o sufrágio para maiores de 18, com exemplos como a Aústria, que permite o voto aos 16 anos.

Países vizinhos como o Japão baixaram a idade mínima legal de voto de 20 para 18 anos em Julho. Ao redor do mundo, 147 países estabeleceram a idade mínima de 18 anos para começar a votar. EM 2005, a Coreia revisou a lei e estipulou a idade mínima como 19 anos.

Apoiadores da revisão da lei argumentam que os adolescentes são “conscientes” sobre os eventos atuais e que deveriam ser permitidos a formar sua opinião política ainda cedo.

A lógica do oponente é falha. Quando os jovens completam 19 anos, eles não adquirem conhecimento de repente e sabem em quem irão votar. Permitir que esses adolescentes participem nas atividades políticas desde cedo pode ajuda-los a aprender” expressou Choi Seo-hyun, secretário geral da organização de jovens intitulada Hope.

O grupo cívico liderou jovens nas manifestações, oferecendo ajuda financeira, por meio de doações, para transporte à estudantes que moram fora da capital, para que pudessem participar dos protestos no centro de Seul.

Além disso, jovens tem ativamente feito sua parte na resolução de problemas sociais, incluindo as ações contra os livros autorizados pelo governo e durante o desastre da balsa Sewol. A história mostra que os jovens sempre estão em frente às manifestações por direitos,” acrescentou Choi.

Nem todos os adultos são ‘maduros’ o suficiente para fazer escolhas políticas. Veja por exemplo aqueles de 50 e 60 anos leais a Park, independente do que ela fez. Apesar de novos, estamos dispostos a falar sobre os assuntos de estado como cidadãos da Coreia do Sul,” disse Kim Ji-yoon, de 18 anos, em uma manifestação no dia 17 de novembro. “Eu gostaria de poder votar no líder certo.”

Os círculos políticos são muito divididos em relação a idade de voto. Diminuir a idade é favorecer a oposição liberal reprimida pela base conservadora devido a seus próprios interesses políticos. Por isso, alguns especialistas são céticos que a lei eleitoral possa ser alterada em um futuro próximo.

De acordo com uma pesquisa recente da Gallup Korea, o principal partido de oposição, o Partido Democrático da Coreia, reuniu 57 por cento de apoio entre adolescentes e jovens por volta de 20 anos, enquanto que o partido do governo, o Saenuri, apenas obteve 5 por cento de apoio desse grupo demográfico.

Este ano novamente, os deputados de partidos de oposição – o Partido Democrático, o Partido Popular e o Partido da Justiça – propuseram uma moção para oferecer sufrágio para maiores de 18 anos. Mas a proposta se manteve no limbo, por questões de força política maior.

Dois Estudantes Do Ensino Médio Seguram Pôsteres E Velas Durante O Quarto Sábado De Manifestações Contra A Presidente Park Geun-Hye No Centro De Seul, 19 De Novembro. (Yonhap)
Dois estudantes do ensino médio seguram pôsteres e velas durante o quarto sábado de manifestações contra a presidente park geun-hye no centro de seul, 19 de novembro. (yonhap)

Jovens de 18 anos podem casar de modo legal, obter a carteira de motorista e até passar pelo serviço militar. Eles são obviamente capazes de ter opiniões políticas e de fazer escolhas políticas,” expressou o deputado Kim Kwan-young do Partido Popular ao The Korea Herald. Ele está entre os 23 membros do partido de oposição que enviaram a proposta.

Um professor de política da Myongji University, Shin Yul, também apontou que o clima político deveria ser considerado, assim como na Coreia, resultados de eleições são descritos como reflexos do regionalismo, relações escolares e parentesco. “Eu tenho visto estudantes que são muito mais sábios que adultos em protestos. No entanto, uma tentativa falha de convidar estudantes de 18 anos para uma votação pode tornar as escolas em um campo de batalha,” disse Shin. “Pode não ser uma boa ideia inserir uma cultura de voto tão cedo, pode torna-los facilmente manipuláveis.

Um professor liberal da Seoul National University, Cho Guk, argumenta que os deputados deveriam liberar os direitos de votos para adolescentes, e citou a tendência mundial.

Estudantes formram uma parte importante de certos movimentos do passado, como o Levante Democrático de Gwangju em 1987, contra o regime autoritário do presidente Chun Doo-hwan.

Em 2008, quando milhares se reuniram para protestar contra a importação de carne dos US, devido a doença da vaca louca, uma grande porção dos manifestantes era de estudantes segurando velas.

Depois do desastre de 2014 com a balsa Sewol, que resultou na morte e desaparecimento de mais de 300 pessoas – muitos destes, estudantes do ensino médio à caminho de uma excursão escolar – jovens também tomaram as ruas para condenar o governo por não lidar de modo apropriado com o acidente.


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