Semana passada fui assistir uma palestra no Colégio Polilogos, uma instituição de ensino bilíngue (português e coreano) localizada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O evento foi para marcar a reinauguração da sua biblioteca e o palestrante foi o Sr Jung Sam Ahn, ex-presidente da Associação Brasileira de Educação Coreana (entidade que mantêm o Colégio Polilogos) e uma das grandes lideranças coreanas. O tema foi sobre a importância dos livros na educação.

Tenho uma grande paixão pelo Colégio Polilogos e a sua missão. Desde 1995, quando fui presidente da Associação Brasileira dos Universitários Coreanos, sou voluntário lá. Nessa época havia só o terreno e a gente até jogava bola nele. Doei meu dinheiro, tempo e suor. Por dois anos fui o responsável adjunto pela contabilidade, voluntariamente. E tudo isso por apenas um motivo: acredito que só a educação muda (permanentemente) o mundo, o resto é paliativo. E pelo que pude apurar, esta biblioteca é a que tem o maior acervo de livros coreanos do Brasil!

Mas não era sobre isso que queria falar hoje. Na verdade, é sobre algo que o Sr Ahn disse na sua palestra e que acabou ficando na minha cabeça… No meio da nada, ele disse algo como “estou no Brasil há mais de 50 anos e ainda hoje me surpreendo com a bondade do brasileiro”. O que fez ele dizer isso foi algo que ele viu na rua um dia desses, quando um motorista de ônibus desceu pessoalmente para ajudar um deficiente físico a subir no coletivo. Sim, sei que alguns dirão que esta cena poderia ser vista provavelmente em qualquer lugar do mundo, mas entendo o ponto de vista dele. O brasileiro tem uma bondade genuína que salta aos olhos.

E por alguns minutos, perdi o foco nas suas palavras e passei a pensar nas coisas que me surpreendiam positivamente no brasileiro, baseado na minha experiência pessoal de imigrante coreano vivendo no Brasil há 35 anos. Vou listar abaixo:

As pessoas se ajudam, de verdade: a gente percebe isso até naquela brincadeira que ouvimos com frequência de “bota mais água no feijão”. Pois uma vez comentei que estava com fome fui convidado a comer numa casa miserável onde o único prato era um caldo feito de restos de frango. Era provavelmente a única comida disponível na casa e foi dada a mim, sem pestanejar. Não consegui sair de lá sem antes comprar algo para eles.

Melhor país para perguntar um caminho: este realmente me surpreende, até hoje. Quando você está perdido e quer perguntar a localização de algum lugar, praticamente 99% das pessoas a quem você pede auxílio param o que estavam fazendo e te dão atenção. Na direção de um carro, não foram poucas vezes em que ouvi um “olha, me segue que fica mais fácil e sinalizo por onde você tem que entrar”.

Sotaques, muitos sotaques lindos: claro, vão dizer que é pelo fato do português ser a minha primeira língua (falo espanhol, coreano e inglês fluentemente). Mas apesar das dificuldades da língua portuguesa considero-a uma das mais bonitas e mais do que a própria língua, a infinidade de sotaques regionais. Claro, para pessoas como a minha esposa (que não domina o português completamente), isso pode ser um transtorno.

Feiras livres de rua e feirantes: claro que os preços já deve incluir o valor das frutas que os feirantes dão para os compradores provarem, mas fico espantando com a generosidade de muitos deles. Mesmo sabendo que não vou comprar, tentam me convencer sendo bacanas comigo, sempre com um sorriso no rosto. Isso que é ser empresário! Claro, não poderia deixar de citar os pastéis e o caldo de cana!

A esperança de dias melhores: no geral, o brasileiro é alguém que pode mostrar pessimismo por fora, mas por dentro tem sempre uma chama da esperança que nunca se apaga. O brasileiro nunca fica de braço cruzado, sempre tem um jeitinho (no bom sentido) pra tudo. Nunca perde sua fé e esperança por dias melhores, por trabalhos melhores, por amores melhores, por governantes melhores e por… uma seleção melhor.

Claro, tudo o que citei é algo muito pessoal para mim, resultado de experiências e observações ao longo da minha vida. Digo que sou muito grato por minha família ter vindo ao Brasil e de termos sido recebidos de braços abertos. Hoje sou um brasileiro naturalizado e no coração. Sim, temos os nossos problemas, mas temos coisas belas que não encontramos em outros lugares do mundo, eu garanto a vocês.

E do nada, deu vontade de finalizar o texto transcrevendo aqui um trecho de uma das minhas músicas preferidas: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Ah meu Deus! Eu sei, eu sei. Que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita. É bonita, é bonita e é bonita”. E é mais bonita porque hoje vivo no Brasil, com muito orgulho. 😉

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



5 COMENTÁRIOS

  1. Que legal, Bruno!
    É tão bom ouvir isso do nosso povo brasileiro. Estamos tão acostumados a só reclamar… Fico feliz em ver, através de seus olhos, tanta poesia em nosso Brasil.
    Parabéns!

  2. Eu sou descendente de portugueses, italianos e libaneses. Muitos dos meus tios e primos adoram o Brasil e o povo brasileiro, mas preferem morar na Itália. Percebo pelos meus parentes que nós brasileiros somos muito mais receptivos. Os europeus e os asiáticos são bem mais fechados em comparação com o nosso povo. Isso que você colocou em questão, que somos mais “amigões” de todos. É uma verdade, mas eu sou um tanto que descrente da melhoria no nosso país. Por mais que eu tenha como morar em outros lugares, como na Europa e não ter muito otimismo nas melhorias políticas eu prefiro ainda morar aqui. Não existe lugar melhor que a nossa casa. O povo brasileiro, a cultura, o clima, entre outros fatores me faz permanecer aqui. Talvez quando estiver mais velho e com filhos eu mude de ideia, mas por enquanto quase tudo que eu conheço e admiro está nessa terra. Gostei muito de você colocar o seu ponto de vista como imigrante naturalizado, e conhecedor de outros países. Obrigado pelo conteúdo postado, e ficarei esperando pelos próximos.

  3. Bruno, já estava me perguntando quando você ia dá o ar da graça rsrsr brincadeira.
    Adorei o seu post, como sempre. E me senti muito emocionada, sério, fiquei realmente feliz.

    E concordo com você, apesar de tantas coisas ruins no nosso dia a dia, nem percebemos os pequenos gestos de bondade e generosidade, eu poderia citar alguns exemplos, mas vou citar dois que aconteceram recentemente.

    Teve um incêndio ali no Paraisópolis, e se você visse o tanto de pessoas que se mobilizaram para arrecadar varias coisas para aquelas famílias que perderam tudo o que tinham.

    E algo que acontece comigo quase sempre, eu moro num lugar um pouco perigoso, e tem uma perua que o ponto final é do lado da minha casa, foram várias vezes que os motoristas me deixam na porta de casa ou as vezes vão bem devagarinho me seguindo até eu entrar em casa. Fico realmente muito grata por isso.

    Então, sei que talvez possa demorar, mas sempre tenho esperança de dias melhores.

    Obrigada pelo post e você é 100 heheheeh

    Abraços!!!

  4. Não tem como não se orgulhar de ser brasileiro, é claro que o Brasil tem lá os seus problemas (não é como se, só o Brasil enfrentasse dificuldades), mas sempre me orgulhei e me orgulho se de ser brasileiro, sinto uma raiva medonha ao ver ser feitas comparações entre Brasil e outros países (como por exemplo, o EUA). O povo brasileiro é conhecido mundo afora como um povo alegre, “parceiro”, “gente boa”, isso me alegra bastante. Um amigo coreano que mora no Chile, disse que, o que ele mais gosta no Brasil é a natureza e as pessoas. Isso é good. Rsrsrs
    Enfim . . . suas matérias sempre me agradam Sr. Kim, às vezes, fico revirando a sua coluna procurando matérias novas. Então podes ter certeza que sou sua leitora fiel, se por acaso, algum dia eu faltar com a minha palavra é por causa das circunstâncias da vida (internet). rsrs

  5. Fiquei maravilhada com td o que li, parabéns pelos detalhes!! Vc é muito sábio, qdo vier à Santa Catarina, com certeza irá se maravilhar ainda mais 🙂 Brasil, nosso país é acolhedor 🙂

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