Quando estava editando a matéria da tradutora Carol Monteiro, esta semana – “Preço de produtos de higiene feminina prejudica jovens coreanas de baixa renda” me deparei com uma realidade que nem eu mesma acreditava que existisse. Quando a Carol Lee, nossa Editora Chefe, me enviou o texto original em inglês eu pensei que talvez se tratasse de um assunto pontual. Mesmo assim, já fiquei bastante chocada. Tanto, que decidi pesquisar e descobri que – sim, para a minha completa surpresa – na Coreia do Sul, dos dias de hoje, também existe pobreza.

Nos anos 50 e início dos anos 60, no período pós guerra, a Coreia foi realmente um dos lugares mais pobres do mundo. As pessoas não esperavam nem sobreviver, e muitas pessoas acreditavam que, eventualmente, a Coreia do Norte iria dominá-las e que o pior aconteceria. Foi impressionante como esta Coreia confusa, desordenada e quebrada pôde se tornar o país democrático, e considerado rico, que é hoje. Contudo, a economia lenta a nível mundial e a intensificação da concorrência dentro do país, que tem um dos povos mais instruídos do mundo, está fazendo muitos coreanos vulneráveis à pobreza.

Um relatório, escrito e publicado pelo Instituto Coreano para a Saúde e Assuntos Sociais, apurou que a taxa de pobreza entre famílias cujos chefes tem idade por volta dos 35 anos aumentou de 10,7% para 12,2 % entre 2006 e 2014. Enquanto isso, esta mesma taxa entre as famílias com chefes com idade superior a 65 anos aumentou para 63,8 %. Apesar de ser a 13ª maior economia do mundo, a Coreia do Sul tem a maior taxa de pobreza entre os idosos dos países da OCDE – Organização das Nações para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Em minhas pesquisas, realmente, descobri que a população mais prejudicada é a idosa, principalmente pela falta de políticas governamentais e a mudança do estilo de vida dos jovens atuais. Antigamente a tradição confuciana do país demandava que os mais jovens olhassem pelos mais velhos até o fim de suas vidas, mas, com os jovens mudando-se de cidade para estudar em melhores universidades ou até por uma melhor oferta de emprego, muitos idosos ficaram esquecidos e isso tornou-se até uma das principais  razões para o suicídio entre idosos, como abordei em meu texto Suícidio na Coreia – Causas e Curas.

Mas na coluna de hoje vou me utilizar apenas de um artigo, publicado na versão eletrônica do jornal britânico Daily Mail.com que aborda a existência de uma favela em Seul. Isso mesmo… Eu também fiquei boquiaberta, mas nas linhas a seguir vamos conhecer a vila (ou bairro) de Guryong, a “Rocinha” coreana.

“O bairro do Gangnam ficou mundialmente conhecido e catapultou a Coreia do Sul para o mundo com a música do rapper Psy (Gangnam Style) que trata do bairro mais chique e tecnologicamente avançado de Seul. Visto pelo menos 2,3 milhões de vezes em todo o mundo no YouTube, o vídeo mostra Gangnam como sendo a Beverly Hills da Coreia do Sul. Um local cheio de arranha-céus, urban-chic, com carros e roupas da moda – onde as pessoas bonitas de Seul saem para ver e serem vistas.

Mas logo abaixo da superfície da área comercial de Gangnam, e na sombra dos prédios de escritório brilhantes, onde milhões de dólares são feitos em grande estilo todos os dias, há uma história triste de pessoas que vivem sem dinheiro, em uma favela, muito distante das riquezas que os cercam.

O mar de telhados de zinco e cabanas em ruínas surgiu após o despejo em massa de pessoas no período de preparação para os Jogos Olímpicos de Seul em 1988. Foto: Daily Mail
O mar de telhados de zinco e cabanas em ruínas surgiu após o despejo em massa de pessoas no período de preparação para os Jogos Olímpicos de Seul em 1988. Foto: Daily Mail

Duas mil pessoas vivem amontoadas em um favela superlotada, formada por um mar de cabanas em ruínas e telhados de zinco, onde várias famílias são forçadas a compartilhar um vaso sanitário cavado na terra e onde até mesmo os mosquitos se tornaram resistentes a repelente.

A Guryong Village, que surpreendentemente fica no Gangnam, é a última favela restante de Seul – um acampamento ilegal que foi criado após a expulsão em massa de bairros pobres que ocorreu durante a preparação para os Jogos Olímpicos de Seul em 1988.
Desabrigados por projetos de renovação urbana realizados para os jogos, eles se estabeleceram em terras privadas mas subdesenvolvidas na área de Gangnam. Mal sabiam eles que os seus vizinhos um dia, seriam uma das partes mais ricas do país ao ponto de serem ridicularizados por seu estilo de vida extravagante e fútil, na música de Psy. E é aqui onde o contraste entre ricos e pobres é tão claramente ilustrado.

Os arranha-céus brilhantes do distrito de Gangnam, em Seul lançam uma sombra sobre de vila Guryong, a última favela restante da cidade, tornando o contraste entre ricos e pobres, muito óbvio.
Os arranha-céus brilhantes do distrito de Gangnam, em Seul lançam uma sombra sobre de vila Guryong, a última favela restante da cidade, tornando o contraste entre ricos e pobres, muito óbvio. Foto: Daily Mail

Em 2014, um apartamento no Tower Palace, um complexo residencial com vista para a Guryong Village, foi vendido por R$ 11 Milhões – a segunda propriedade mais cara da Coreia do Sul. Mas, enquanto os moradores daquele apartamento, vivem uma realidade nababesca, aqueles em Guryong vivem quase sem os itens mais básicos.

Os vasos sanitários, que consistem em buracos no chão, as vezes são compartilhados por várias famílias. “A coisa mais inconveniente são os banheiros, porque eles são usados publicamente por várias casas” disse Yoo Ae-Soon, que se mudou para a vila em 1996 depois que seu negócio de restaurante faliu. “Se fossem privadas com descarga, tudo bem, mas estes sanitários à moda antiga, fica realmente desconfortável“.

Foto: Daily Mail
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Como a maioria dos moradores são idosos, essa mãe de três filhos infelizmente pode fazer pouco à respeito. Enquanto o marido dorme no escritório na maior parte das noites, ela ganha um dinheirinho cortando cabelos em sua pequena casa. Às vezes, ela tem apenas um cliente a cada poucas semanas, mas sabe como esticar um saco de 20 kg de arroz para que ele dure até quatro meses. “Se eu ganhar o suficiente para comer, já será suficiente“, disse Ae-Soon. “Eu só fico em dúvida as vezes, se devemos ou não comer arroz duas vezes por dia. Mas a gente se acostumar a viver assim, se é o que temos“.

A cabeleireira Yoo Ae-Soon e a pequena empresa que montou em sua casa em Guryong. Foto: Daily Mail
A cabeleireira Yoo Ae-Soon e a pequena empresa que montou em sua casa em Guryong. Foto: Daily Mail
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A população exata do local é desconhecida, mas acredita-se que entre 700 e 2.000 pessoas vivem amontoadas nos cerca de 283 mil metros quadrados de terra em um bairro famoso por seus preços imobiliários altíssimos. As ruas de terra estão repletas de lixo e veículos e máquinas quebradas – metal, que é vendido por moradores para garantir uma renda extra.

Foto: Daily Mail
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Uma residente, conhecida apenas como Kim, que limpa janelas de arranha-céus para ganhar a vida depois da morte de seu marido mais de três décadas atrás, admitiu que inveja as pessoas que vivem nas torres acima dela. “Por que não? Rezo todos os dias para que um dia, um de meus filhos possa ter uma vida como a deles“, disse ela.

Mas existem preocupações mais prementes para os moradores de Guryong Village. Principalmente, o sério risco de fogo, que é comum devido a trabalhos eléctricos de má qualidade e a dependência de combustíveis sólidos. No ano passado, um incêndio em uma seção da vila matou uma pessoa e destruiu dezenas de casas, que são construídas muito próximas uma das outras, ao longo de um labirinto de ruas estreitas. Foi o 11º fogo desde 2009.

Foto: Daily Mail
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No ano passado, um incêndio na vila matou uma pessoa e destruiu dezenas de casas, que são construídas em um labirinto de ruas estreitas. Foto: Daily Mail
No ano passado, um incêndio na vila matou uma pessoa e destruiu dezenas de casas, que são construídas em um labirinto de ruas estreitas. Foto: Daily Mail
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No entanto, as pessoas se recusam a se abater, tendo criado uma comunidade no meio do caos. Não existe apenas uma cabeleireira, mas também existem várias hortas, lojas, um centro de voluntariado para deficientes e algumas igrejas. Os moradores se uniram para pagar por serviços públicos, como eletricidade e água. Nos últimos anos, eles foram conectados ao serviço postal e receberam cartões de residência temporária, que lhes permite votar nas eleições.

Os esforços para reconstruir a área e realojar os moradores têm sido repetidamente emperrados pelo governo em disputa, disenções entre os próprios moradores e complicações legais decorrentes da presença de vários proprietários. “É como se a vila tivesse ficado para trás na corrida de Seul para expandir-se e modernizar-se – um lembrete das condições em que muito mais coreanos viviam“, disse Donald Kirk, um correspondente estrangeiro que escreve sobre a Coreia do Sul desde os anos 1970. “A situação se arrasta por uma série de razões, nomeadamente incapacidade burocrática para descobrir o que fazer com os moradores idosos, onde colocá-los, etc.

Em 2012, a cidade de Seul e o Gangnam District Office (como uma sub-prefeitura) entraram em rota de colisão quando produziram propostas separadas para realojamento e compensação aos moradores. Em 2014, uma resolução parecia à vista, quando Seul finalmente concordou com o plano do Gangnam District Office em permitir que as entidades públicas comprassem a totalidade da terra e compensasse os moradores. Mas, desde então, o progresso estagnou novamente, com Seul argumentando em favor de compensar parcialmente os residentes com direitos à terra, em troca de menos dinheiro.

Foto: Daily Mail
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Depois de tanto tempo e muitas falsas promessas, a frustração, raiva e desconfiança são evidentes entre os residentes. Um comerciante local, que não quis ser identificado, disse que ouve promessas sobre a reconstrução da vila desde que chegou em 1989. “Eles disseram que em julho ou agosto de 2015 as coisas iriam começar a acontecer mas já passou e nada aconteceu”. Mesmo os moradores mantendo-se unidos em querer o redesenvolvimento, eles também permanecem desconfiados e preocupados com o seu futuro. Entre outras incertezas, questionam se seriam capazes de realmente ter recursos para arrendar a habitação que tem sido proposta pelas autoridades locais. A senhora Kim acrescentou: “Eu estou com medo de continuar a viver aqui e morrer aqui, do jeito que está. Eu queria morrer em um lugar um pouco melhor“.

Foto: Daily Mail
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Mesmo diante dos fatos, é sabido que o Ministério do Bem-Estar tem feito esforços contínuos para combater a pobreza nos últimos anos. Anteriormente, todos os coreanos adultos eram legalmente obrigados a apoiar financeiramente os seus cônjuges, pais e sogros, e os beneficiários da previdência social perdiam uma parte ou a totalidade do seu subsídio se eles tivessem um cônjuge, filho ou genro/nora com uma renda, dependendo de quanto eles ganhassem. Mas, desde o ano passado, as pessoas pobres são elegíveis para uma ajuda de custo do governo, se os seus filhos ou cônjuges ganharem pouco.

No ano passado, um relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial mostrou que os sistemas fiscais e de transferência da Coreia do Sul, visivelmente ineficientes, como seguro desemprego e benefícios de aposentadoria, foram substancialmente responsáveis pelo aumento da desigualdade.”


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



10 COMENTÁRIOS

  1. liberais, economistas, pessoas minimamente interessadas em política, quando ouvirem alguém dizer que tal país é rico, e principalmente se a simplicidade atingir outro nível, eu visitei o país, e vi com meus próprios olhos os hotéis, as ruas limpas, muitos automóveis, aprendam a ter um olhar socialista, pergunte se ali tem pobreza, como vivem ali os pobres. Cuba é um país pobre, e os pobres de Cuba.. E os pobres da Coreia do Norte. Da China. Da África e da Noruega. É difícil encontrar essas informações. Porque saber se os prédios são mais altos, se os carros custam 100 mil ou 50 mil, isso não influi quase nada na vida humana. E sim se os pobres têm empregos, se são respeitados, se têm garantias, aposentadoria, acesso à saúde, à escola, se seus filhos não são discriminados etc.

    • Visitou a Coreia – suponho que tenha sido a do Norte – mas não trouxe imagens pra provar o que afirma. Até porque as autoridades proíbem fotografar as condições em que vivem os norte-coreanos. Se Cuba prestasse, os Castro não proibiriam que eles deixassem o país. O mesmo vale para a Coreia do Norte.

    • Prezado Paulo, obrigada pelo seu comentário, porém cremos que você esteja equivocado. O texto fala da Coreia do Sul e não da Coreia do Norte! No único parágrafo em que a Coreia do Norte (que apesar de se denominar socialista, é realmente uma ditadura) é citada, estávamos falando do medo que os sul-coreanos tinham de serem dominados pelo norte, veja bem: “Nos anos 50 e início dos anos 60, no período pós guerra, a Coreia foi realmente um dos lugares mais pobres do mundo. As pessoas não esperavam nem sobreviver, e muitas pessoas acreditavam que, eventualmente, a Coreia do Norte iria dominá-las e que o pior aconteceria. Foi impressionante como esta Coreia confusa, desordenada e quebrada pôde se tornar o país democrático, e considerado rico, que é hoje“… O país ao qual nos referimos como “um país democrático e considerado rico” É A COREIA DO SUL! Esperamos ter esclarecido!

  2. Gostei muito do conteúdo e é realmente uma pena que sejamos tão falhos como seres humanos. Os moradores de Gangnam poderiam facilmente construir alguns prédios em parceria com o governo e investir nessas pessoas e/ou parentes mais jovens para que elas pudessem se manter. Quando olhamos para uma realidade como essa, percebemos que a falha do Capitalismo não é ele em si, mas as pessoas. Enquanto houver pessoas, haverá miséria, pobreza, divisões por cor (uma vez que somos todos da mesma raça; a humana), classe social etc. Se conseguissemos deixar de nos preocupar com essas coisas e passesmos a olhar com carinho para o próximo independente de ter mais ou menos dinheiro que a gente, da língua falada ou de sua cor, certamente usufruiriamos muito mais dos encantos do nosso planeta, sejam os naturais ou os construídos com nossas mãos.

  3. Excelente texto! Conheço pouco sobre a Coreia do Sul. Sempre a imaginei como uma enorme potência que, assim como muitos países desenvolvidos da atualidade, conseguiu reduzir de maneira muito eficiente as desigualdades sociais em seu território. É notável a evolução do país desde o pós-guerra, com o auxílio dos EUA e com o seu programa de valorização da educação para reconstruir o país, no entanto, vemos os problemas decorrentes da intensa concorrência estudantil e trabalhista que afetam o bem-estar dos cidadãos.
    Pensar que um país tornou-se igualitário socialmente para todos os seus membros é uma completa ilusão, óbvio. Contudo, pensei que a Coreia do Sul tivesse se livrado de fenômenos excludentes e pudesse promover serviços essenciais a todos os seus cidadãos. Vejo que a realidade não se afirma dessa maneira, embora o país tenha se tornado tão rico.
    Ademais, obrigado pela matéria. Abraços!

    • Prezado Arthur, Obrigada por seu comentário! Acredito que o problema seja infinitamente menor que no Brasil, mas sem dúvida, ele existe, principalmente tratando-se de uma grande metrópole como Seul. A maioria das grandes metrópoles do mundo sofrem do mesmo problema. A grande vantagem que eu vejo é que nesse caso, a pobreza nao está associada ao crime e à violência, uma vez que a Coreia é um dos países mais seguros para se viver. Só por esta razão, eu bato palmas para este país.

  4. Na 2ª foto é possível ver cilindros de gás do lado de fora das casas. Mesmo sendo uma favela, não há ladrão. Aqui, se deixar na porta de casa, se rouba até chinelo usado! Gostei da matéria, obrigado!

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