A Coreia do Sul tem gasto bilhões tentando aumentar sua taxa de fertilidade, atualmente a mais baixa do mundo. Sem nenhum sinal de melhora à vista, o governo está tentando uma abordagem diferente.

No ano passado, sua taxa de fertilidade caiu para um recorde de 0,98 filhos por mulher, menos da metade dos 2,1 necessários para manter uma população estável. Nos próximos sete anos, prevê-se que a Coréia do Sul se torne uma “sociedade com idade avançada“, o que significa que um em cada cinco cidadãos terá mais de 65 anos. Essa é considerada uma das maiores ameaças que a 11ª maior economia do mundo enfrenta. Enormes quedas na população em idade de trabalhar na Coreia do Sul levarão a perdas em inovação e produtividade em toda a economia, enquanto os serviços de saúde provavelmente serão pressionados à medida que a demanda dos idosos aumentar.

Desde 2006, o governo sul-coreano gastou KRW152,9 trilhões (cerca de R$553 milhões), tentando tirar a taxa de natalidade da beira do abismo. Por meio de seu programa estadual de subsídios, os casais que estão esperando filhos podem reivindicar KRW500.000 (R$1.800,00) para cobrir as despesas pré-natais, e subsídios no valor de KRW107.000 (R$388,00) por mês estão disponíveis para pais com filhos menores de cinco anos. No entanto, apesar desses esforços, a taxa de fertilidade permanece incrivelmente baixa. O governo está percebendo que precisa repensar sua abordagem e com rapidez.

O Preço da Prosperidade

No passado, a Coreia do Sul fez campanhas para reduzir sua taxa de fertilidade. Em 1960, as mulheres tinham, em média, seis filhos cada. Para estabilizar a população, a Coreia do Sul iniciou uma campanha de planejamento familiar incentivando os pais a ter uma “família pequena e próspera”, melhorando a educação das mulheres e o acesso aos serviços de saúde. O pensamento por trás dessa campanha era que pais com menos filhos estariam melhor posicionados para investir na educação dos mesmos.

O sistema educacional sul-coreano é um dos mais competitivos do mundo: quando as crianças são mais jovens, seus pais começam a sofrer por antecipação com o exame de admissão (uma espécie de ENEM que dura oito horas) para a universidade, que terá um tremendo impacto em sua mobilidade social e perspectivas de carreira. Um sistema tão exigente ajudou a gerar nada menos que um milagre econômico na Coreia do Sul: a economia cresceu 17 vezes no final do século passado. Porém, para as crianças e famílias que ainda passam por esse processo todos os anos, está longe de ser o ideal.

Há um alto custo para a mãe quando se trata de pressões emocionais e financeiras ao criar os filhos“, disse Gavin W. Jones, professor emérito da Universidade Nacional da Austrália. “Se as crianças não se dão bem [na vida], a reputação da família sofre“. Essas tensões psicológicas são elevadas também pelo enorme peso financeiro de criar uma criança. As famílias em Seul gastam surpreendentes 16% de sua renda em aulas particulares após a escola para ajudar seus filhos a prepararem para os exames. A assistência à infância também é muito cara – apesar do programa de subsídios do estado, muitos pais gastam cerca de U$200 (R$860,00) por mês comprando e custeando o necessário para a criança.

Os jovens sul-coreanos de hoje viveram e respiraram essa cultura. Eles viram seus pais sofrerem o estresse e as despesas financeiras de criar um filho, e agora estão questionando se ter um filho é, afinal um evento crucial na vida.

A Desigualdade de Gênero

Na Coreia do Sul, a geração Y tem outro nome: “Geração Sampo“, que se traduz na ‘geração de três desistências‘. O termo é usado para descrever o grupo de jovens sul-coreanos que abandonaram três aspectos da vida: namoro, casamento e filhos. Essa tendência é particularmente predominante entre as mulheres jovens do país; muitas estão decidindo não criar uma família, pois temem que isso signifique perder suas carreiras.

Elas estão certos em se preocupar: 40% das mulheres sul-coreanas deixam o local de trabalho por algum tempo depois de terem filhos. Isso cria o que é conhecido como “curva em forma de M”. Quando plotados em um gráfico, o emprego das mulheres na Coreia do Sul aumenta na casa dos 20 anos e depois cai na altura em que eles têm filhos antes de subir novamente na casa dos 40, criando uma forma distinta de ‘M’. É um fenômeno raramente observado em países desenvolvidos e um sinal de disparidade significativa de gênero no mercado de trabalho da Coreia do Sul.

Também impactando a decisão das mulheres de não ter filhos é o simples fato de que a maternidade é incrivelmente desgastante. Apesar de sua participação no mercado de trabalho aumentar, as mulheres continuam a sofrer o peso das tarefas domésticas. O confucionismo, que defende a ideia de que as mulheres são as únicas responsáveis ​​pelo cuidado de crianças e idosos, bem como pela manutenção do lar, ainda é uma escola de pensamento altamente influente na sociedade sul-coreana – mesmo entre aqueles com atitudes mais progressistas em relação ao gênero – com valores sociais profundamente enraizados que podem ser difíceis de se livrar.

De acordo com a Pesquisa de Gênero e Família do Instituto Coreano de Desenvolvimento da Mulher, 86,1% dos casais coreanos em famílias com dois salários concordam que o trabalho doméstico deve ser igualmente compartilhado entre homens e mulheres“, Sirin Sung, professora de política social da Queen’s University Belfast, disse à World Finance. “No entanto, os dados da OCDE sugerem que as mulheres coreanas ainda gastam quatro vezes mais horas em trabalho familiar não remunerado do que os homens“.

O governo demorou a reconhecer o impacto da desigualdade de gênero na taxa de natalidade do país. Muitas mulheres o acusaram de ser surdo na abordagem do problema. Em 2016, o governo anterior lançou um mapa de quantidade de casamentos, nascimentos e mulheres em idade fértil em todo o país, esperando que isso incentivasse a competição entre diferentes regiões. Em vez disso, foi retirada depois de um dia devido a protestos públicos de mulheres sul-coreanas, que acusaram o governo de vê-las como “órgãos reprodutivos”.

Uma Mudança de Direção

O governo está finalmente começando a ouvir. Aprendendo com os erros de seu antecessor, o Presidente Moon Jae-in concentrou a política de taxa de natalidade em torno da melhoria da igualdade de gênero. “Agora estamos no último momento de ouro para resolver um sério problema populacional“, disse Moon em discurso ao lançar o Comitê Presidencial da Sociedade do Envelhecimento e Política de População. “Agora, precisamos nos concentrar em como o casamento e o parto não limitam a vida das mulheres.”

Uma maneira de o governo planejar fazer isso é incentivar os homens a desempenhar um papel mais ativo na paternidade. Em julho de 2018, novas medidas foram adotadas, estendendo a licença paternidade para dois anos, e garantindo aos novos pais 80% de seu salário normal, limitado a U$1.338 dólares por mês (R$5.754,00). Esperava-se que isso reduzisse a carga de cuidados infantis para as mulheres.

No entanto, poucos homens escolhem essa opção. Apesar das campanhas do governo para normalizar a licença paternidade, os homens representaram apenas 17% dos pais que a aceitaram em 2018. “Os homens estão preocupados com o fato de a cultura organizacional do local de trabalho, que retrata aqueles que se afastam como menos comprometidos com o trabalho, resulte em desvantagens de promoção e pagamento”, disse Sung.

Sung também aponta que até mesmo o nome relacionado ao gênero dessas políticas pode ser desanimador para os homens. “A provisão de maternidade, paternidade e licença parental se enquadra no esquema de ‘proteção à maternidade‘”, disse ela. “Alterar o nome desse esquema para ‘direitos dos pais’ ajudaria a desafiar essa suposição de gênero“.

Outra maneira de o governo ajudar as mães que trabalham é abordar as deficiências dos programas estatais de assistência à infância. Embora as famílias recebam apoio financeiro do estado, isso não garante uma boa assistência à infância – principalmente porque não há creches suficientes para atender à demanda. É bastante comum que as famílias permaneçam nas listas de espera dos centros administrados pelo Estado por mais de um ano, a falta de atendimento acessível é uma das principais razões pelas quais as mulheres tendem a deixar o emprego e se tornar mães que ficam em casa. É crucial que o governo construa mais creches para convencer as mulheres de que a maternidade é algo que elas podem buscar confortavelmente sem perder suas carreiras ou estabilidade financeira.

Muito trabalho e nenhuma diversão

Uma pessoa sul-coreana em média trabalha 2.113 horas por ano – a segunda maior de todas as nações membros da OCDE. O governo reconheceu o impacto que isso pode estar causando na capacidade de seus cidadãos de namorar e passar um tempo com seus parceiros; como resultado, a semana de trabalho foi reduzida de 68 para 52 horas. Para reforçar isso, a prefeitura de Seul reduz a eletricidade do prédio às 19h às sextas-feiras. Algumas empresas privadas até transmitem lembretes para que as pessoas voltem para casa.

Embora isso possa melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho dos funcionários de escritório, tem repercussões de amplo alcance para a camada de trabalhadores da Coreia do Sul que possuem empregos com horário irregular. Para compensar o número de horas pagas perdidas, muitos desses trabalhadores tiveram que assumir um segundo emprego. Alguns deles trabalham até 19 horas por dia.

Além disso, a política não mudará necessariamente a cultura por trás do excesso de trabalho, o que pode ser igualmente prejudicial para a vida familiar. A ética de trabalho sul-coreana, incutida desde uma idade muito nova, significa que muitos priorizam suas carreiras e finanças em detrimento dos relacionamentos pessoais. Em uma pesquisa de 2018 com 1.141 pessoas, quase 70% dos sul-coreanos disseram que estavam muito focados em suas carreiras para se casar.

A cultura hipercompetitiva da Coreia do Sul – uma fonte de progresso por tanto tempo – agora está contribuindo para uma grande tendência de queda em sua economia. Durante décadas, maridos sobrecarregados, mães que ficam em casa e filhos intensamente estudiosos sustentaram o crescimento do país, mas esse crescimento ocorreu às custas do empoderamento feminino, um equilíbrio saudável entre vida profissional e uma taxa de natalidade estável – elementos-chave necessários para sucesso econômico sustentável. Se o governo puder melhorar a igualdade de gênero e criar um ambiente melhor para a criação de uma família, ainda poderá voltar no tempo a esta crise demográfica iminente.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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