Eu adoro quando vou ao exterior e digo que sou brasileiro. Geralmente a expressão de espanto é muito engraçada, pois esperam que eu diga que sou de algum país asiático. Nascido na Coreia e hoje naturalizado brasileiro, saí de lá aos dois anos. Como contei em outros posts, vivi dois anos no Paraguai, mais dois anos no Chile e cheguei ao Brasil um pouco antes do meu oitavo aniversário. Hoje consigo lidar muito melhor com esta situação, mas houve muitas vezes em que me olhei no espelho e perguntei “afinal, quem sou eu?”.

O Brasil é um país multiétnico mas algo que um coreano e asiáticos em geral não conseguem fazer é “misturar-se” à população como poderiam fazer imigrantes europeus, do oriente médio ou africanos. Porque o rosto é diferente, o olho é puxado, o cabelo é liso. Então, eu sempre acabava virando ponto de referência: “isso, atrás do japonês de camiseta branca”. Por várias vezes tive crises existenciais relacionadas às minhas origens. Porque eu não era um brasileiro no Brasil e nem um coreano na Coreia!

Uma história que meus pais sempre me contavam é de quando fomos “expulsos” de um prédio em que vivíamos em Santiago do Chile. Minha mãe estava preparando 된장 찌개 (“dwenjang tchigué”, que tem um cheiro forte de feijão curtido tipo missô) pela primeira vez e os vizinhos fizeram muitas reclamações sendo boa parte de cunho racista, o que acabou fazendo com que tivéssemos que mudar para outro lugar. Olha, nada contra o Chile que o consideramos nossa segunda casa na América do Sul, mas é uma experiência negativa que nos marcou bastante.

Não sei quantas vezes me senti mal por minhas origens. Cheguei a desejar ter nascido brasileiro (sem descendência oriental) em muitas ocasiões. Quando estava na faculdade, lembro de uma festa em que fui e só tinha eu de oriental. Enfim, fui com os amigos “conversar” com garotas e lembro de uma que me disse “abre os olhos e se enxerga”. Bom, pode ser que o problema nem fosse o fato de eu ser oriental mas é algo que fica na cabeça, ainda mais de um jovem imaturo e inseguro e cheio de espinhas no rosto. E fora isso, foram inúmera situações onde me senti diminuído pelas minhas origens asiáticas.

Acho que um dos piores momentos foi na Copa do Mundo de 2002, que foi realizado pela Coreia e o Japão. Com isso, a Coreia ficou muito em evidência e falava-se no país a todo momento. Lembro que um dos assuntos preferidos era a carne de cachorro, ou “sopa de au-au”, como dizia um radialista de uma rádio importante. Claro, sempre tirando sarro, nunca explicando do que se tratava desse costume pelo qual eu pessoalmente não tenho nenhuma simpatia. É que amo os peludos de quatro patas e já criei mais de 30 cães. 🙂

O mais engraçado é quando um descendente de oriental nascido no Brasil faz algo bacana. Os jornais geralmente o tratam como “brasileiro de origem coreana”, por exemplo. Mas quando o camarada faz algo errado, é simplesmente “coreano que vive no Brasil”. Nunca se referem aos orientais como “brasileiros” somente, sempre tem que haver referência às origens asiáticas, algo que por exemplo não ocorre quando a pessoa tem descendência européia, não é verdade?

Mas não estou escrevendo este texto para me lamentar, pois adoro o Brasil como todos que me acompanham já devem saber e aqui é o meu lugar. Costumo brincar dizendo que sou mais brasileiro do que o resto porque eu escolhi viver aqui, enquanto que os outros simplesmente nasceram aqui! Falo fluentemente quatro línguas e o português é a que mais amo, apesar de ser a mais difícil de todas. É da sua culinária que vem a maioria dos meus pratos favoritos. Grande parte dos meus grandes amigos vivem no país e são das mais diversas origens: japoneses, chineses, portugueses, italianos, africanos, árabes e judeus. E quando alguém fala mal do Brasil lá fora, estou eu a defender a nossa pátria como um irmão faz para defender o outro (mesmo que ele esteja errado), sabem como é…

Hoje, a minha experiência de vida me faz ver que esse tipo de “estranhamento” com estrangeiros existe em qualquer país, em maior ou em menor grau. Inclusive na Coreia que até há pouco tempo atrás era um lugar relativamente fechado. Situações que podem parecer estranhas muitas vezes ocorrem por diferenças culturais. Digo isso para que os amigos brasileiros que estão começando a ter contato com a cultura coreana tenham paciência e empatia pelos coreanos, tanto os daqui como os de lá para que não sejam cometidas injustiças. Afinal, os coreanos também são apenas seres humanos.

E apenas para finalizar, sou brasileiro com muito orgulho e muito amor! 😉

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

5 COMENTÁRIOS

  1. E em pensar que tem gente que vai pra outros países e ficam com vergonha de falar que é brasileiro, inventam até outras nacionalidades, fico bem triste com isso. Mas de qualquer forma, parabéns Bruno acompanho suas postagens aqui no blog e realmente da orgulho de ser brasileira por causa de pessoas como você, isso é ser brasileiro.

    abraços 🙂

  2. Há coisas que marcam né? Eu imagino que como pai, e tendo passado por essas situações, você tenha receio que seus filhos possam sofrer com os mesmos problemas. Eu venho de uma família cheia de mistura, mesmo assim alguns primos meus são racistas, o que é bem curioso já que meu avô era negro. É complicado porque a gente reproduz preconceitos que as crianças assimilam, encaram como verdade e acabam reproduzindo também. E assim a gente vai estragando o mundo um pouquinho mais.

  3. Que texto mais amor! Fico pensando como ficaria minha situação na Coréia pois sou negra e pelo que tenho visto, eles não são muito “acostumados” conosco hahaha mas desde já tenho aprendido a ter paciência. Amo os coreanos! Espero um dia que o grau de “estranhamento” dos coreanos baixe em relação aos negros estrangeiros hahaha

  4. Bruno você não escreveu um texto, você acaba de produzir um documento valiosíssimo, tenho muitos amigos coreanos, mas jamais pensei que pudessem passar por situações parecidas com as suas. Passo a adimirá-los mais e mais a partir desse “documentário”. Tenha certeza, você pelo seu texto é muito mais Brasil, que muitos brasileiros. Abraço Bruno Kim!

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