Foto: easternkicks

Os mais diversos problemas referentes à terceira idade não é uma questão que apenas o ocidente enfrenta. Mesmo o oriente, com toda a sua reverência aos mais velhos, na realidade, esconde no seu interior social uma série de preconceitos envolvendo os idosos, e na Coreia do Sul, país hoje considerado desenvolvido, isso não é diferente. A Coreia, no fundo, é um país de contradições marcantes, deve-se dizer.

Ao mesmo tempo que apresenta uma preocupação tão grande em mostrar respeito a quem tem mais idade, na prática, as velhinhas e velhinhos sul-coreanos passam por muitas dificuldades. A exemplo está uma aposentadoria praticamente inexistente, que os leva a terem de buscar soluções desesperadas, como é o caso das senhoras que se prostituem para comer e pagar o aluguel.

Dito isso, é sabido também que parte do problema relacionado à terceira idade está na questão cultural extremamente rígida e hierárquica de uma sociedade que faz com que as gerações mais jovens aos poucos venham mostrando certa rebeldia e enfrentamento aos mais velhos, o que muitas vezes chega a maldade. No cinema não é diferente. Há poucas histórias cujos protagonistas não sejam belos garotos e garotas com suas peles extremamente brancas e de seda.

No entanto, há exceções interessantes e aqui apresentamos: “The Chase” (2017), dirigido por Kim Hongsun. Trata-se de uma produção policial em que o proprietário de vários imóveis Sim Deoksoo (Baek Yunshik/72 anos) une-se ao policial Park Pyeongdal (Sung Dongil/55 anos) para desvendar uma série de assassinatos que se assemelha ao estilo de um serial killer. Este costumava matar homens idosos e depois jovens moças, há 30 anos atrás.

Baek Yunshik/72 anos e Sung Dongil/ 55 anos procuram por um assassino em série em “The Chase”. Foto: Hancinema.

O senhor Sim, uma norte-coreano que fugiu para o sul durante a guerra civil, é uma figura pouco apreciada no bairro onde mora. Um verdadeiro ranzinza, ele não tem muitos amigos e vive de cobrar os aluguéis, sendo bastante grosseiro na sua forma de comunicar, o que desagrada a muitos.

Contudo, diferentemente do que se espera, suas ações não condizem com a sua forma ríspida de se comunicar. Apesar de ter muitos inquilinos, idosos e jovens, que lhe devem vários meses de alugueis atrasados, ele nunca os despeja, ainda que faça inúmeras ameaças. É um homem solitário, vivendo à margem como muitos de seus contemporâneos. Um dia observa a polícia recuperar o corpo de um conhecido que morrera, aparentemente, dormindo.

O tal idoso, assim como ele, não tinha ninguém. Portanto, dias passaram para que percebessem que se encontrava morto dentro de casa. Igual a ele, muitos outros senhores são encontrados mortos, dados como suicidas. Na Coreia, onde o número de pessoas que se matam todo dia é alto, esta coincidência não traz grandes suspeitas à polícia. Porém, não é o caso de um dos inquilinos de Sim, o Mr. Choi, um ex-detetive que lastimava não ter prendido o assassino em série de 30 anos atrás. Desta forma, ele revela seu passado à Sim.

Foto: IMDb.

Mas o próprio policial acaba morto, e logo após uma jovem inquilina desaparece. Portanto, Sim acaba por conhecer o policial Park, ex-colega de Choi, que afirma ter o antigo serial killer retornado à ativa.

Assim, ambos começam uma busca que levará a várias revelações, entre elas, críticas inseridas ao longo do enredo pelo diretor, que contestam a forma atual com que a Coreia realmente enxerga seus idosos, como improdutivos e inúteis. Esta é uma narrativa que possui menos elementos complexos e inesperados que outros filmes sul-coreanos, mas que não desaponta, pois a atuação, em especial da dupla de protagonistas, consegue promover empatia do público que os acompanha nas situações difíceis pelos quais passam.

Baek Yunshik em especial, conhecido por ser um ator veterano que não muda sua fisionomia durante suas atuações, prova que não é preciso fazer grandes caras e bocas para realizar um bom trabalho e tornar um personagem crível ao espectador. Outro item que vale destacar é a importância que a trama fornece à personalidade do senhor Sim, acusado de falta de cordialidade, ou melhor, de decoro e falsidade.

É clara a mensagem, ou até o velho ditado neste caso, que não se pode julgar o real caráter de ninguém de forma tão superficial, pelo o que ela/ele diz, mas por suas ações. O ranzinza Sim, ao final, mostra-se muito mais humano, proativo, capaz de sair de sua zona de conforto para ajudar outros com os quais ele não tem qualquer relação de parentesco, amizade ou proximidade. Mostra-se, acima de tudo, civilizado. “The Chase” pode ser assistido no Netflix.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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