Foto: Netflix. 'Mr. Sunshine' episódio 2.

‘Mr. Sunshine’, produzida em 2018  e televisionada pelo canal de televisão sul coreano TvN, globalizada pela Netflix é uma novela de background histórico e melodramática escrita por  Kim Eun-sook e dirigida Lee Eung-bok. Esta conta com o elenco de  Lee Byung-hun, Kim Tae-ri, Yoo Yeon-seok, Kim Min-jung e Byun Yo-han. O enredo se passa no inicios dos anos de 1900 e foca em alguns movimentos sociais.

Caso você esteja acompanhando o drama ‘Mr. Sunshine’, que semanalmente atualiza dois episódios com legendas na Netflix, viu que até agora a imagem politica de Joseon é de um ‘país fraco’.

Escrevo este artigo, pois cada episódio eu sinto uma euforia pelo modo que a História esta sendo narrada dentro do drama. (E essa euforia vai além do fato de que simplesmente amo o que eu estudo). Mesmo não intencionando de modo algum escrever sobre doramas (que afinal já tem coluna especial aqui no Koreapost), vi a necessidade de escrever um pouco, ao menos, sobre as representações e memórias envolvidas na narrativa.

O ator Lee Byung-hun vive Eugene Choi em Mr. Sunshine. Foto: Digital Spy.
O ator Lee Byung-hun vive Eugene Choi em Mr. Sunshine. Foto: Digital Spy.

Agora foram lançados 8 dos 16 capítulos do drama, e aqui vai um paralelo da História que o drama mostra desses primeiros episódios. Espero que até o fim da exibição eu tenha ainda mais sobre o que escrever. Aconselho que assista, pois apesar do romance envolvendo personagens principais há muito para ser observado.

Mas vamos lá. Vamos entender o drama – historicamente falando – um pouco. A fragilidade de um governo dependente da China,  combatendo a introdução da cultura ocidental e das forças autoritárias do Japão. Neste quesito, o drama está indo bem. Embora a produção seja uma fusão do olhar americano e coreano, a História será tendenciosa para esses dois lados.

Mas, tudo bem! É divertido e o papel de assistir com olhar critico deve-se a mim e  outros profissionais. Por isso, vou fazer um paralelo sobre a História factual escrita por historiadores e o imaginário, narrado romanticamente no drama.

Começo do 1º episódio, sabemos que os Estados Unidos estão entrando em Joseon. Mas por quê? Aqui vai a resposta: em 1854, os Estados Unidos forçavam o Japão a negociar com o Ocidente para acordos industriais. Na época, a Coreia (Joseon) estava com problemas financeiros internos que contribuíram para o desencadeamento de uma crise, no período da dinastia.

Com a morte do rei Cho Ol- Chong (1849-1864), seu neto herdeiro Kojon era menor de idade, por isso, seu pai Taewon Gun assumiu o papel de regente. Taewon designou um programa de reformas, a fim de fortalecer a monarquia e o poder central do governo. Reconstruiu e restaurou palácios e institutos reais; realizou medidas para aumentar taxas tributárias; e criou novos impostos para a aristocracia e, sobretudo, os plebeus.

Em acréscimo à fragilidade interna, as relações externas da Coreia passavam por um momento delicado de pequenos conflitos. Como exemplo, notícias do desaparecimento do General Sherman, militar americano que chefiava tropas no Japão, chegaram aos americanos na China, e o almirante Shufeldt foi instruído a investigar o caso. O almirante enviou um navio para a Coréia em 1867, e outro em 1868  para investigar, mas os coreanos recusaram-se a aceitar a entrada americana com essas intenções.

Em 1870, o novo ministro dos Estados Unidos na China, Frederick Low, começou a preparar-se para tomar medidas firmes contra a recusa hostil coreana e em maio de 1871, Low levou cinco navios a comando do Almirante John Rodgers em uma expedição punitiva contra a Coreia. Os americanos esperaram uma resposta sobre a ofensiva, mas o governo coreano afirmou que não estavam interessados em negociações. Desta forma, os americanos atacaram a cidade de Kanghwa e pequenas ilhas ao sul.

Via: Netflix. 'Mr. Sunshine' episódio 1.
Foto: Netflix. ‘Mr. Sunshine’ episódio 1.

Tudo isso é retratado com nomes, datas e eventos diferentes, para trazes o drama a sua forma melodramática que identifica seu estilo e narração. Claro, nem tudo na história pode ser contado exatamente como mostram os documentos. No drama, Eugene Choi (o personagem principal) é mandado para a Joseon para acordos diplomáticos, e enquanto se prepara, ele observa um documento desse momento que acabei de narrar: a evasiva nas ilhas de Kanghwa pelos navios estadunidenses, anos antes, que diretamente mudaram sua vida, pois a entrada americana possibilitou que ele, quando criança, fugisse de seu destino como escravo.

Com isso o primeiro episódio vai e volta quanto às primeiras entradas americana em Kanghwa e  o retorno de Eugene, agora militar e diplomático americano. Parece confuso enquanto o episodio passa, por falta de datação, em minha opinião. Eugene volta para Joseon em 1902, e menciona seu retorno após 30 anos.

Já no episódio 2, uma sequência de cenas sobre a Batalha de Caney de 1898, da Guerra Hispanico-Americana, mostra o momento que Eugene Choi salva seu colega Kyle Moor. Por este acontecimento, eles são enviados para Joseon para acordos ”diplomáticos”. Volta, então a cena do personagem olhando as fotos e documentos do primeiro episódio, trazendo, novamente, lógica para a sequência.

Via: Netflix. 'Mr. Sunshine' episódio 2.
Foto: Netflix. ‘Mr. Sunshine’ episódio 2.

Quando fiz amizades com coreanos no programa de ‘buddies’, duranto o período que estudei coreano em Daegu, mais de uma pessoa ficava surpresa por eu estudar História da Coreia, pois para eles, trata-se de algo chato, já que o país só perdeu guerras, e eles ainda levam o legado de serem um “país fracos”. Já são 7 anos que estudo História da Coreia e nunca entendi de onde foi conceitualizado dentro da própria sociedade de que é um país fraco. Essa afirmação é repetida em praticamente todos os episódios até agora. Mas nunca se definiram no quê exatamente é fraco. Militarmente? Economicamente? Diplomaticamente? Politicamente?

Em um reino que perdeu grandes batalhas, até mesmo territórios, e se passou a protegido da China, politicamente mostra uma aristocracia e um ministério pronto para proteger apenas suas ideias e interesses, sem considerar seu povo ou mesmo seu rei. É ali nos dois primeiros episódios da novela, que retrataram claramente o que fragilizou a Dinastia, deixando seu legado para os dias atuais. Cada discurso, cada decisão dos finais dos séculos XIX e inicio do XX é o que moldaram essa característica tomada pela própria sociedade. Não é possível pensar na História deste país sem considerar sua geografia e geopolítica, tanto quanto sua cultura tradicional. E é por isso que estou tão ansiosa pelos próximos episódios, e convido a todos vocês a assistirem e acompanhar uma próxima apreciação do drama, considerando  o instrumento que tem todas as perguntas e respostas: a História.

Por fim, espero que o drama proporcione mais o que estudar e entender, enquanto nos diverte e emociona.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



4 COMENTÁRIOS

  1. lá Camila, meu nome é Anemarg, sou acadêmica de História – Bacharelado na UFSM, estou tentando dar inicio a um projeto de pesquisa sobre a Coreia, se puderes me passar algumas de tuas fontes (livros, sites..) ficaria agradecida, pois estou encontrando dificuldades quanto a isso, e gostaria muito de abordar este tema(Coreia) em meu projeto. Desde já agradeço!

  2. A Coréia é um pais fraco porque os 0,001% de bilionários continuam explorando o povo da mesma maneira que faziam em Joseon. Veja a diferença de como foi construído os EUA com dezenas de milhares de europeus miseráveis explorados pelos monarcas europeus, abraçaram o país como seu e lutaram heroicamente em todas as guerras a que o país se propos até a IIWW. Hoje as guerras americanas são feitas por exércitos terceirizados, não existe mais o heroísmo do séc IXX e da IIWW. Joseon era um país fraco porque o povo era fraco e vergonhosa e imoralmente explorado pela aristocracia. Os coreanos que protestam contra a série dizendo que os americanos são mostrados como bonzinhos devem ser jovens que não sabem q se não foseem os americanos, estariam com a cara no pó e o rabo pra cima diante de uma estátua de Mao Tsé-Tung na praça central de Seul.

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