Han-Joon Lee cursa o seu último ano de Linguística da Língua Inglesa na Hankuk University of Foreign Studies. Ele fez uma reflexão, sobre vida atual em seu país – a Coreia do Sul – para o jornal Koreatimes, numa coluna chamada “A Esquina do Estudante”.

Nota do Tradutor/KoreapostÉ interessante verificar a visão do estudante na medida em que ele apenas enxerga seu próprio universo. Para nós brasileiros, para cuja maioria, a realidade é bem mais difícil do que a que ele “pinta” em seu texto, o mesmo pode até parecer piada, mas temos que nos lembrar que é difícil para um coreano, vivendo num país tão distante, imaginar como é a vida no Brasil. Para muitos estrangeiros, o Brasil é o país do Carnaval, da praia e da liberdade incondicional. Da mesma forma como que para nós, a Coreia é a terra da tecnologia, do segundo melhor ensino do mundo e do Kpop. Mas tudo isso tem seu preço, para ambos países! Tentemos compreender a visão de Han-Joon Lee, desprovidos de preconceitos.

“A luta por questões básicas. Desordem. Ondas de pessoas cambaleando por aí.

A primeira coisa que vem à mente com essas palavras? Talvez um filme pós-apocalíptico de zumbis, onde cidades inteiras são tomadas pelos mortos-vivos. Mas a primeira coisa que me vem a mente é a República da Coreia.

A Coreia do Sul, um país que atingiu níveis sem precedentes de crescimento econômico nos últimos 60 anos, não é mais uma terra de oportunidades. Apesar de sua prosperidade, a corrupção no governo e nos negócios interromperam o seu legado.

Entre as nações da OCDE, a Coreia carrega a coroa pela maior taxa de suicídio, um dos menores níveis de felicidade, menor média de horas de sono e menor taxa de natalidade. Todas essas estatísticas mostram o quão desorganizada a Coreia está.

Cidadãos idosos são os primeiros a sofrer. Eram jovens durante a Guerra das Coreias, quando o foco não era a educação, mas sim, a sobrevivência. Sem nenhuma habilidade marcante e sem formação específica superior, eles mal podem fechar as contas coletando caixas de papelão, papéis e garrafas de vidro por alguns trocados.

O suporte governamental está fora de seu alcance, já que a maioria é ignorante sobre os complicados processos para receber benefícios ou simplesmente não atendem aos critérios. Um grande número deles não tem condições financeiras para tratamentos médicos, moram sozinhos ou são abandonados em casas de repouso.

Ainda assim, é a população de meia idade que recebe o maior fardo. Essas pessoas estão em situação precária em seus trabalhos em companhias que começam a despedi-los conforme chegam aos 50 anos de idade. Eles devem cuidar de seus pais e serem responsáveis pela educação de seus filhos.

O custo das instituições privadas (Hakwons) que preparam seus filhos para os exames das universidades é alto – as vezes chegam a mais de US$ 4.000 (R$ 14.000) por mês. O fervor pela educação parece nunca diminuir, mesmo para crianças de 4 e 5 anos de idade que estudam inglês na pré-escola, o que custa cerca de US$ 1.000 A US$ 2.000 por mês (R$ 3.500/R$ 7.000).

Apesar do preço absurdo, os pais não têm opção senão mandar seus filhos à instituições privadas, porque sem uma educação reforçada, seus filhos terão menos chances de sucesso na escola.

O que ocorre é que, desde pequenos até graduandos de universidades, não podem aproveitar a vida. Desde os 3, 5 anos de idade, matemática, coreano, inglês e outras matérias são jogados nas suas cabeças por seis a oito horas por dia, ou mais.

Isso continua até o ensino médio, quando a competição para a universidade se torna muito maior. Estudantes de ensino médio começam seu dia na escola às 8h30 da manhã e permanecem lá até às 11h da noite. Eles vivem assim até entrarem na universidade. Então, logo depois, terão de enfrentar o difícil mercado de trabalho.

A sociedade coreana está saturada de formandos universitários e milhões de desempregados que foram formados em instituições de alta qualidade. Ainda assim, a competição acirrada os estrangula dia após dia e mesmo quando os 0,1 por cento de sortudos conseguem um emprego, a vida não fica mais fácil.

A Samsung Eletronics oferece um salário mensal inicial de US$ 2.600 (R$9.100). A maioria das empresas pagam apenas US$ 1.800 (R$ 6.300) por mês. Isso está longe de ser o suficiente para prepara-los para o futuro. O custo típico de uma casa é por volta de US$ 170.000 (R$ 595 mil) em média e encontrar uma em uma vizinhança decente requer US$ 500.000 (R$ 1.750 mil).

A maioria dos jovens adultos teria que trabalhar e economizar por cerca de 20 anos para conseguir comprar uma casa, levando em consideração os custos de vida.

Fazer “turnos noturno voluntários” e trabalhar alguns finais de semanas, ambos sem pagamento, são vistos como ética básica de trabalho para jovens empregados porque, sem isso, suas carreiras não irão durar muito. Jovens empregados são descartáveis, e logo, sem poder. Lute por seus direitos e será o primeiro a ir embora.

Não importa o que os outros pensem, este ciclo parece ser inquebrável. Esse circulo irá persistir devido ao lobby corporativo de políticos e juízes para manter o status quo. Cidadãos da Coreia vivem como se fossem zumbis – sem um brilho de esperança em seus olhos, nada além de um olhar caído e sem expressão.

Considere-nos mortos, já que não temos nem esperança, nem a chance de viver vidas decentes. Muitos coreanos vão ao ponto de pensar que a melhor chance de felicidade que podem ter é deixar o país e procurar um novo recomeço. Mas podemos realmente fazer isso?


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

2 COMENTÁRIOS

  1. A matéria é de 2016, estou lendo em 2020, os dados continuam atuais, mesmo com alguns poucas melhoras em vários dos meios sociais apresentados. A pressão pela excelência acadêmica e perfeição social continuam a dominar a Coreia, assim como a taxa de suicídio que decresce a número pequenos devido ao ciclo vicioso criado por práticas reinteradas de costumes desumanos. Caso alguém leia esse comentário e seja contrário, leia as estatísticas oficiais do governo coreano, artigos acadêmicos, dissertações e outros textos científicos para pensar melhor.
    Outro ponto a ser adicionado está nos K-Dramas, mesmo com a necessidade de dramatização e criação de alguns pontos idilíticos, vários dos lançados após 2016, estão a retratar, melhor, realidades vividas por coreanos.

    • Prezado Helmer, muito obrigada pelo seu comentário. Não há como discordar do seu comentário, esta é uma realidade na Coreia, ainda hoje, infelizmente. Apesar de tecnologicamente avançada, ainda falta um pouco de inteligencia emocional por parte da sociedade coletiva coreana, principalmente nos mais velhos. É perceptível alguma mudança acontecendo nos pais que hoje tem crianças ainda pequenas, eles mesmos, vítimas desta pressão. Então, pode ser que daqui a alguns anos, consigamos ver algumas mudanças de comportamento que ainda não são visíveis. Os k-dramas estão sendo um pouco mais audaciosos atualmente mas a maioria que trata de assuntos polêmicos, não passa em tv aberta. A Coreia precisa enxergar que seu país cresceu como eles esperavam e que agora todo aquele esofrço já não é tão necessário. O governo tem feito ações para que as atenções se voltem para as pessoas mas ainda é pouco. Obrigada por curtir o Koreapost!

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