Vou ser bem sincero: já tive vergonha de ser coreano. Calma, vou explicar melhor. A questão da identidade étnica e sócio-cultural nunca foi algo fácil para mim, a começar pelo fato de ter vivido em quatro países diferentes até os oito anos de idade. Logo cedo aprendi que era diferente dos outros, não só na aparência como em todo o resto. Sempre tive dúvidas do tipo “porque somente eu tenho olho puxado e cabelo tipo he-man” ou “nossa, só a minha família come 김치 (kimchi) neste mundo”.

Meus pais são imigrantes coreanos que vieram para o Brasil com mais de 40 anos de idade, hoje entendo o quão difícil isso deve ter sido para eles. E entendo as razões para que não tenham assimilado a cultura brasileira tão rapidamente como eu o fiz. Se para mim uma macarronada ou um picadinho são pratos da infância, o equivalente para eles seria um 김치찌개 (kimchi-tchigue) ou um 된장 찌개 (doenjang-tchigue). Não é fácil se adaptar a uma nova cultura quando somos mais velhos. Aliás, como contei tempos atrás, quando vivíamos no Chile fomos até expulsos de um prédio porque os vizinhos reclamaram do cheiro do 된장 찌개 (doenjang-tchigue) que minha mãe fazia. Ela não me contou na época, mas sofremos um forte preconceito e fomos alvos de agressões verbais e tivemos que mudar de casa. Tempos depois, viemos para o Brasil.

E a vida nunca é fácil para um imigrante. Chegando ao Brasil, logo já tinha gente pegando no meu pé por causa do meu sotaque espanhol, inclusive uma professora que ao invés de me acolher e ajudar, preferiu corrigir a minha pronúncia de maneira exaltada na frente dos meus coleguinhas e me fazer chorar de vergonha depois da aula. E como estudava numa escola com poucos orientais, apenas os meus amigos me chamavam pelo nome, para todo o resto eu era o “japoronga”, versão anterior ao atual “ô china”. Perguntas de se eu comia cachorros eram comuns. Tenho amigos coreanos que passaram imunes a tudo isso, como tenho amigos coreanos que por causa de situações assim acabaram crescendo mais fechados dentro do seu “mundo coreano” ou mesmo que passaram a negar a sua identidade coreana.

No meu caso, por algum motivo acabei me aproximando de amigos de descendência japonesa, tanto que eu vivia em festas, kaikans e clubes esportivos japoneses. Até que entrei na faculdade e fui apresentado ao mundo da cultura coreana pelos meus veteranos que estavam agrupados numa associação de estudantes coreanos. Depois disso, eu mesmo me tornei presidente dessa associação e no ano seguinte (em 1995) fui eleito como presidente da Associação Brasileira dos Universitários Coreanos, onde comecei meu trabalho de divulgação e promoção da cultura coreana. E nunca mais parei.

Foi um longo caminho até entender a beleza da multiculturalidade e de sentir orgulho das minhas raízes coreanas. E mais do que isso, foi um longo caminho até ter coragem de bater de frente com as pessoas defendendo as coisas em que acreditava. Como aconteceu em 2002 durante a Copa do Mundo da Coreia-Japão, quando muitos jornalistas faziam matérias maldosas sobre o fato de (parte dos) coreanos consumirem carne de cachorro. Nunca me deram atenção, mas enviei cartas e reclamações para todos os que abordaram o assunto de maneira errada.

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Olhem eu apresentando ao público uma coreana… loira de olhos verdes?!

Hoje, sou um adulto de 42 anos (mas ainda com espírito de um garoto de 20 anos) que tem plena consciência da complexa realidade da vida em sociedade. Atualmente levo “desaforos” com mais traquilidade para guardar energia com o que realmente importa. E o que importa para mim no momento é ver tanta gente interessada em cultura coreana que chega a assustar! Nunca houve um debate formal da inclusão da cultura coreana, mas naturalmente foram surgindo situações que a valorizaram. Educação, comida, música, artes e tantos outros aspectos da cultura coreana são apreciados por mais pessoas e fazem com que eu sinta cada vez mais vontade de trabalhar na sua promoção. Por exemplo, no domingo passado houve o evento “Annyeonghaseyo Korea” em São Caetano e lá a primeira aluna brasileira (loira de olhos verdes e não descendente de coreanos) de dança tradicional coreana da minha esposa fez o seu debut em apresentações. Coisa linda de ver!

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Brasileiros fazendo comida coreana no Concurso de Gastronomia Coreana 2016.
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O Koreapost e a K.O. Entertainment gerenciaram uma tenda sobre cultura coreana e k-pop no evento Anime Friends, um dos maiores eventos de cultura asiática do Brasil.
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Evento “Educação e Língua Coreana”, organizado pelo Koreapost no Centro Cultural Coreano do Brasil.

Sim, hoje sinto um orgulho danado de ser um imigrante coreano e da minha identidade cultural, muito mais do que sentia há 30 anos atrás. Claro, sou um brasileiro e que não fiquem dúvidas sobre isso, mas aprendi a valorizar as minhas raízes. E grande parte do mérito por essa mudança de atitude vai para os meus amigos brasileiros que também amam a cultura coreana e fazem com que me sinta acolhido e em casa. 감사합니다! <3


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



11 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito do texto e pode parecer estranho, mas mesmo eu sendo brasileira e nunca tendo morado fora do Brasil sempre me senti um peixinho fora d’água. Pelos meus gostos e interesses (um deles a cultura asiatica) era difícil encontrar alguém que gostasse das mesmas coisas, mas mais que isso: que respeitasse uma pessoa ‘diferente’. O meu ensino fundamental e médio inteiros foram marcados por experiências horríveis e apelidos ofensivos apenas porque eu era diferente e pensava diferente da maioria. Hoje ainda me considero uma pessoa diferente, porém não sei explicar o quanto a cultura coreana (presente na música, filmes, dramas e na história do povo coreano) mudaram a minha vida. Em momentos de depressão se tristeza profunda eu, sem saber como sair dessa situação, abracei com todas as forças a cultura coreana na minha vida e esse amor é uma das razões que fazem eu continuar lutando pelos meus sonhos. Eu me identifiquei com o seu texto e aprendi com ele e todos os dias sou grata por ter a oportunidade de conhecer e me aproximar de uma cultura que me acolheu com muito carinho independente de qualquer diferença. Obrigada.

  2. Tem tanta beleza nas nossas culturas, tanto brasileira quanto a coreana (como tantas outras) que não sei nem como as vezes a gente tem vergonha.
    Quando a gente para pra pensar de maneira mais ampla, tudo se torna mais belo ainda. Não é mesmo?
    Vamos continuar divulgando e enaltecendo essa linda cultura coreana que nos traz tantas coisas novas todos os dias!
    Vc é incrível Ahjussiiiii!!!! *-*

  3. Muito bom seu texto pois você abriu seu coração e colocou suas dificuldades aqui no Brasil, mas acredite todis nós passamos por momentos difíceis, mas o que importa são as suas metas e o seu amor a DEUS, lembre-se sempre estamos todos neste globo que se chama terra, nascemos apenas em locais diferentes mas nossos corações querem sempre as mesmas coisas amar e sermos amados, respeitar e sermos respeitados e assim por diante… não se importe com a opinião nos outros seja você , faça você o seu melhor nao espere aplausos e compreensão de pessoas que estão vazias dd sentimentos o importante e você querer dar o seu melhor sem feliz e fazer todos a sua volta receber está sua luz de amor. Adoro a Coréia um dia com certeza experimentarei suas comidas pois só de olhar fico salivando. Obrigada pela suas palavras e lembre-se nunca desista use as pedras de seu caminho para fazer a sua estrada onde você trilhara fazendo o seu melhor, a cada dia aprendemos com os outros como devemos ser e como não devemos ser. Hoje é o dia certo de fazer o seu melhor e o momento é agora, deixe pra lá os infelizes da vida você não deve se preocupar com eles de valor aos que querem ser diferentes como você. Muito obrigada.

  4. Bruno Kim, meu amigo te admiro muito e você sabe disso. Que belo texto você produziu, comovente, simples, contando sobre as dificuldades em se “enturmar” numa nova sociedade e culturas diferentes! Fico imaginando como foram aqueles anos, ao mesmo tempo vejo como milhares de pessoas se importam com a cultura coreana. É isso Bruno!O passado nos ensina, o presente nos cobra e o futuro nos espera… estamos juntos nessa nova fase! Vencer ou vencer! abraço meu amigo!

  5. Ao ler o seu texto, pude entender o porquê da minha negação à cultura coreana. Sou filha de coreanos imigrantes, nasci em São Paulo, mas morei um período na Bahia, em Salvador. Lá, dos 7 aos 14 anos, eu era a ” china-ina” e “prima do Jaspion”, sofria muito bullyng, mas nunca ficava quieta, sempre revidava agressivamente, verbal ou fisicamente… Certa vez, uma criança me perguntou se eu tinha algum problema físico por causa dos meus ollhos ” puxados”…Bem, como eu era uma boa aluna, passei a chamar mais atenção pelas minhas notas do que pela minha etnia, mas ainda assim gostaria de ser uma brasileira brasileira boa aluna.
    Com 14 anos nos mudamos para São Paulo e tudo mudou, havia muitos japoneses e coreanos também! Eu era mais uma oriental na multidão, na escola, nos shoppings, nos restaurante…estava tão feliz anônima, mas continuei a negação à cultura. Negava todas as amizades coreanas, namorados e até torci contra o time coreano na Copa de 2002, enquanto todos faziam festa com o melhor resultado até então obtido em Copas do Mundo…
    Hoje, com 36 anos, o sentimento é outro. Ao encontrar coreanos na rua, o sentimento é de familiaridade, ao entrar em suas casas e sentir o cheiro das sopas, sinto acolhimento, bem mais que uma casa com bolinho de chuva quentinho…Está no sangue, no paladar, nos olhos, sou coreana- brasileira com muito orgulho.

  6. Sinto muito que vocês tenham passado esse bullying aqui no Brasil. Como brasileira descendente de italianos e amante da cultura coreana peço desculpas por todos os que cometeram essa atrocidade e tortura psicológica com todos vocês. Eu sonho em ter amigos coreanos aqui em São Paulo, mas por causa desse tipo de gente que faz bullying com as pessoas, muitos acabam sendo bem fechados. Espero que com a explosão do kpop tudo isso mude!

  7. Adorei o post, comecei a admirar a cultura coreana, depois que assisti o primeiro Dorama, Winter Sonata.Acho que esse dorama que levou o mundo a conhecer a Coreia.Não parei mais, hoje totalmente viciada.Com a ascensão do cinema coreano no mundo do entretenimento, hj produzem excelente obras tanto pro cinema, como para tv. Adoro Lee Min Ho e Jang Keun Suk, meus amores entres outros maravilhosos. Amo A Coreia.

  8. Cara que legal tudo Isso!! Pois é infelizmente ainda hoje é complicado você morar em outro país, eu mesma morei alguns anos em Buenos Aires (Argentina) e sofri preconceito por simplesmente ser brasileira e pior ainda ser branca, por que na visão deles Brasileiros deveriam ser todos negros! Tipo… OI?? sério Isso?? O Brasil é lindo cheio de pessoas lindamente diferentes cada um do seu jeito, bem missigenado… É horrível!! E infelizmente tem preconceito principalmente com asiáticos aqui no Brasil veio isso diariamente o que pra mim é algo ridículo!! Mas também já escutei relatos de pessoas até youtubers que foram pra Seoul e foram tratados como como um nada, que até sofreram abuso em balada por que povo acha que por que é brasileira virou festa! é que Brasileiros são bem mal vistos lá fora, o que é triste! Acho que isso tem que mudar muito não só lá fora mas aqui também por que seria hipocrisia dizer que somos santos haha! Beijooos adorei seu post

  9. No inicío eu senti pena de você, mas quando chegou o apelido ‘japoronga’ ou ‘ô china’ eu ri kkkkkkkkk desculpe, mas é pq eu não vi praticamente um bullying do tipo bullying pra valer. Digo isso pq eu tb ja fui apelidada na escola, mas eu nao dei moral e tb passei a apelidar os outros, então ficou por isso mesmo. Na minha sala tinha um negro q a gente chamava ele de ‘alemão’ pq ele torceu pra Alemanha ganhar do Brasil aí ele virou pé quente. Tinha ‘ô china’ tb e todos gostavam dele, ele sempre zuava a galera nos amigo-secreto levando pastel de flango kkkkk, eu era a Dercy Gonçalves pq falava palavrão e ria alto (mas hj sou mais educada hehehe) enfim… tinha outros apelidados lá.. acho q tive a sorte da minha classe não ter bullyinado colegas a ponto de fazer eles sofrerem, mas levar numa boa, porque diferente da Coreia, nós brasileiros somos bastante zoadores, zoamos os outros e a nós mesmos. Fazemos porque somos menos educados que os asiáticos (fato!), mas fazemos também pra esquecer as dificuldades que qualquer um de nós enfrentamos por aí, em casa, no trabalho, relacionamentos. Não é uma justificativa pra lá de convincente, mas chega perto. Se você se der a oportunidade e conhecer pessoas de cultura diversas vai se surpreender. A diversidade não deve ser um obstáculo, mas um complemento. Quando ela se torna um obstáculo é porque existe resistência de algum lado e o ponto negativo no meio. Se queremos integrar uma comunidade e outra, devemos nos dar à oportunidade. E eu digo que nós brasileiros temos mais essa facilidade que o oriental, por causa da nossa facilidade de se integrar e fazer amizade. Só precisamos ser mais educados. Eu mesmo aprendi a ser mais educada e menos bocuda. Mas sendo bocuda e sincera, eu sou legal, hehehe.. do tipo que é capaz de te chamar de ‘japoronga’ e ‘Ô china’, se permitir ser apelidada também, e capaz de fazer qualquer coisa por um amigo q vale à pena. Acho q é isso q conta. Ás vezes, pessoas são tão mais formais e educadinhas na sua frente, que sao verdadeiras cobras q vc não conhece. Eu posso ser zoeira total, mas sou parceira, sou como a família do Velozes e Furiosos, sacô? Hehehe.. É isso! ;D

  10. Ah, só pra mencionar, eu nao apoio o bullying. Quando vc força a barra com alguem q nao sabe curtir apelido, q não aceita tais brincadeiras… isso eu nao apoio. Quanto a pessoa aceitar a zoeira, o vice-versa tá valendo.

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