A Península da Coréia é reconhecida por abrigar uma das sociedades mais antigas do mundo, a qual, ao longo de uma história de divisões, invasões e tensões internas, criou características e identidade próprias que a sustentaram ao longo do caminho. De 1910 à 1945, a península esteve sob forte domínio japonês, que como movimento imperialista, o deixou suas marcas tanto na memoria da população coreana quanto em registros físicos, como a arquitetura.

Durante o período colonial, a arquitetura consistia de uma mistura de arquitetura japonesa e ocidental. Em sua expansão pela península, o domínio japonês permeou várias camadas da vida local, destruiu muitas estruturas e artefatos históricos, e os substituiu, por questões estratégicas de domínio. As mudanças afetaram desde templos até palácios como o Palácio Gyeongbokgung, bem como foi responsável pelo estilo da Estação Central de Seul e a Prefeitura da capital.

Após o fim da Segunda Guerra, a península passou por diversos momentos conturbados, como separação das Coréias e tensões políticas internas. Ao longo de todo esse período e ainda hoje, o país procura reaver e reposicionar sua identidade cultural, que vai além do estilo tradicional da Dinastia Joseon conhecida mundialmente pelas Vilas Hanoks.

 

Vila Hanok em Seul. Fonte: Guesthouses in Seoul.

 

Essa busca se intensifica quando se aborda a permanência de estruturas da época colonial, que carregam uma bagagem negativa desde a época do domínio japonês. Na época da libertação da Coréia, dois lados foram expostos ao se considerar a destruição de tais estruturas. Alguns argumentavam que a demolição deveria ser feita por ser um estilo de arquitetura imposto. Enquanto outros consideravam que conservar tais obras seria manter viva e acesa a memória dos eventos desastrosos do período colonial, como alerta sobre o passado, de modo semelhante ao feito com estruturas da Alemanha Nazista, como Auschwitz.

O Palácio Gyeongbokgung foi um dos muitos que tiveram suas estruturas destruídas ou alteradas pela colonização. A porção do palácio que se encontra em frente ao Portão Gwanghwanmung foi destruída em 1926 para a construção do prédio Sede do Governo Coreano (중앙청), onde funcionaria a central de governo durante a ocupação japonesa. Tal mudança também afetou o Portão Gwanghwamun que foi destruído e sua base realocada próxima ao atual Museu Nacional do Folclore da Coréia. Uma das razões para se construir tamanha estrutura na área do palácio foi expor o poder político, econômico e militar japonês ao bloquear a visão completa do palácio, em especial do trono, e abalar a moral coreana ao destruir uma região tradicional coreana. A estrutura feita em estilo ocidental projetada pelo arquiteto alemão Georg de Lalande se opunha ao estilo tradicional do palácio.

Finalmente na década de 1990, teve início um projeto de restauração com o objetivo de revitalizar o palácio e suas estruturas originais, como relocação e reforma do Portão Gwanghwamun em suas características originais. O projeto, que se iniciou com o intuito de revigorar a moral coreana, completou sua primeira fase em 2010, ano do centenário da ocupação japonesa.

Antiga Sede do Governo Coreano.
Antiga Sede do Governo Coreano. Fonte: Pinterest
Palácio Gyeongbokgung. Fonte: Korea.net

Outras estruturas famosas da cidade passaram por modificações após o término do período colonial, como a Estação Central de Seul e a Prefeitura de Seul. Ambas as estruturas originais datam do período de ocupação japonesa. Porém, se tornaram tão emblemáticas que, apesar da extensa discussão sobre mantê-las, optou-se apenas por modificar parte dos prédios. No caso da Estação, a frente e parte da estrutura colonial foram mantidas e a estação transformada em centro cultural, além de anexada a uma expansão da estação com um estilo moderno. Em relação à Prefeitura de Seul, no entanto, apenas a fachada foi mantida, e anexada a uma nova construção “eco-friendly” que foi concluída em 2013. O novo prédio da prefeitura também possui entrada direta para a linha de metrô da cidade.

Prefeitura de Seul após reforma.
Prefeitura de Seul após reforma. Fonte: Inhabitat
Estação Central de Seul. Fonte: Samoo

Além de tais construções que se tornaram icônicas da capital, outras partes do país também contam com uma quantidade considerável de influências arquitetônicas da época colonial. A pequena cidade de Beolgyo, localizada no Província de Jeolla e com cerca de 19.000 habitantes, foi criada durante a ocupação como centro de transporte de produtos agropecuários para as cidades costeiras. Devido à sua história ser tão ligada à ocupação japonesa, a cidade ainda conserva muitas construções da época, como a estação central de trem e a ponte Sohwa.

Estação de trem de Beolgyo.
Estação de trem de Beolgyo. Fonte: Taebaek Mountain Range Literature Museum

A ponte Sohwa, construída em 1931, foi mantida por ser considerada uma marca das lutas do passado durante a ocupação e algumas rebeliões anos depois. O local foi palco de inúmeros assassinatos e lutas contra os japoneses e posteriormente de levantes populares, em especial a rebelião Yeosu-Suncheon em 1948. A rebelião causou execuções em massa e marcaram a memória da cidade. Ícone da ocupação, a ponte foi também retratada no romance Taebaeksanmaek, de Jo Jeong Rae e publicada em 1981.

Ponte Sohwa em Byeolgyo.
Ponte Sohwa em Byeolgyo. Fonte: Taebaek Mountain Range Literature Museum

A Coréia do Sul é reconhecida por sua engenharia civil e arquitetura inovadores e modernos que se mesclam às construções de estilo tradicionais. Por menos conhecidas que sejam do público, como a ponte Sohwa, todas são parte da história do país e o esforço para conservar uma parte dessas estruturas, foi importante para a construção da identidade do povo.

A cultura e identidades coreanas vão além do tradicional e do pós-guerras. É um conjunto complexo de todas as interações e ideologias que influenciaram a população da península. Essa mistura é vista na tendência de se mesclar o tradicional e o novo, o colonial e o moderno, que definem o estilo arquitetônico coreano.

 


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