Há 12 anos, Park Ki-woong (32 anos) mudou-se para Seul. Longe de sua família residente em Busan, ele vive sozinho desde então. Demorou um tempo para ele se acostumar com a vida solo, mas se acostumou. No entanto, uma coisa ainda o perturba.

“Comer sozinho, dormir sozinho ou assistir a TV sozinho é mais fácil do que antes, mas com o passar dos anos, o sentimento de solidão me invade com mais frequência em momentos inesperados”, disse ele.

“Por exemplo, quando volto para casa após um longo dia de trabalho e acendo a luz no meu apartamento vazio, de repente sinto como se estivesse sozinho no mundo”.

O sentimento de solidão acabou se aprofundando em uma depressão. Park agora vê um terapeuta uma vez por semana para melhorar sua saúde mental.

Foto: 123rf

“Poderia haver muitas razões para minha depressão, mas talvez eu administraria melhor se tivesse alguém com quem conversar e compartilhar minha vida diariamente”, disse ele.

Park, um trabalhador de escritório faz parte de um crescente número de pessoas que moram sozinhas.

De acordo com a Statistics Korea, havia cerca de 5,6 milhões de domicílios de apenas uma pessoa na Coreia em 2017, representando cerca de 29% do total de moradias.

Em 2000, a porcentagem de pessoas morando sozinhas alcançava 15,5%. O estudo prevê a ultrapassagem dos 36% desta taxa em 2045.

Enquanto isso, uma pesquisa realizada em abril de 2018 pela Hankook Research com 1.000 adultos na Coreia mostrou que 46% das pessoas morando sozinhas no país se sentem sozinhas “sempre” ou “frequentemente” e 44% se sentiam sozinhas às vezes. No total, quase 90% das pessoas que moram sozinhas estão expostas ao sentimento de solidão.

Atividades sociais tiram as pessoas da solidão

A estudante universitária Lee Ji-soo vive sozinha em Seul há 6 anos e odiava comer sozinha na mesa vazia de sua cozinha.

“Pensei que haveria muitas pessoas da minha geração enfrentando a mesma dificuldade, como jantar sozinha”, disse ela.

“Eu queria compartilhar minha mesa com aqueles que se sentem solitários enquanto comem sozinhos, então reuni pessoas para fazer compras no mercado local e cozinhar refeições juntos”.

O primeiro evento social organizado por ela e seus vizinhos em 2017 tornou-se um negócio para Lee: Ela administra hoje um grupo de jantares sociais, o “Mesa de Amigos” e o público-alvo são as pessoas que jantam sozinhas em Seul.

Integrantes do “Mesa de Amigos” fazem refeições juntos e compartilham suas histórias. Foto: Korea Herald

Através de perfis nas mídias sociais do grupo, Lee reúne de 10 a 12 pessoas todos os meses para preparar refeições caseiras.

O cardápio varia de curry a ensopado, mas Lee se concentra na seleção de receitas consideradas complicadas de serem feitas sozinhas em casa. Enquanto preparam refeições e comem juntas, as pessoas logo se tornam amigas, compartilhando as dificuldades de morar sozinhas, disse Lee.

“Um participante ativo no evento por cinco semanas consecutivas me disse o quanto agora ele sente que algo está faltando, quando come sozinho à noite”.

Vários eventos são realizados em todo o país para quem mora sozinho. A tendência até inspirou o programa de TV “Cozinha de Todos”, apresentando jantares oferecidos por celebridades. Tais eventos de networking são muito úteis para os solitários manterem um estado mental saudável, disseram especialistas.

“Como os seres humanos nascem sociais, é fundamental que as pessoas solitárias da cidade obtenham um apoio social”, disse o  professor de psicologia da Universidade Nacional de Seul, Kwak Keum-joo.

Integrantes do grupo “Mesa de Amigos” preparam suas refeições. Foto: Korea Herald

“Quando as pessoas se sentem estressadas, devido ao trabalho ou vida cotidiana, os sentimentos negativos podem ser reduzidos em conversas com amigos íntimos ou familiares. Para quem mora sozinho, eventos de networking, como jantares ou encontros, podem ser boas alternativas”.

Apoio do governo para eventos de networking

Com a popularidade de tais eventos, o Governo Metropolitano de Seul participa na resolução de problemas relacionados a solidão enfrentados por pessoas que moram sozinhas.

Em 2018, a prefeitura introduziu 12 programas de networking em vários distritos como parte de seus esforços para conectar os solitários de Seul. As ofertas variam de viagens, exercícios e aulas de culinária para quem não está familiarizado com a preparação de refeições por conta própria.

O “Vamos Cha Cha Cha juntos” de Seodaemun-gu é um programa popular de três meses, reunindo 20 pessoas entre 40 e 60 anos todos os sábados, das 10h às 20h, para aulas de culinária ou artesanato.

“O programa oferece uma chance de se aproximar dos vizinhos e reduzir a solidão”, disse Lee Young-sook do escritório de Seodaemun-gu, coordenadora do programa.

Lee, um homem de 60 anos que vive sozinho em Seodaemun-gu, entrou no programa ano passado após ver um folheto no ônibus da cidade. Apesar da grande diferença de idade entre os membros, Lee fez bons amigos, pois eles tinham um tópico similar a compartilhar: viver sozinho na cidade.

“Eu aguardava pelos sábados e me sentia menos solitário ao jantar com os outros”, disse Lee. Ele acrescenta que os membros ainda se reúnem pelo menos uma vez por mês, embora o programa tenha terminado ano passado.

Moradores solitários de Seodaemun-gu realizam atividades de marcenaria no Centro de Saúde e Apoio a Família de Seodaemun-gu. Foto: Korea Herald

“Eu pedi para Lee realizar o mesmo programa em 2019. Estou muito disposto a participar”.

De acordo com o governo metropolitano de Seul, 300 milhões de won ($264.300 dólares) foram distribuídos aos programas de networking, destinados aos moradores solitários este ano. Os detalhes do programa foram disponibilizados em abril, de acordo com o governo da cidade.

Portaria sobre ‘prevenção da solidão’

Park Min-sung, do Conselho de Busan, diz que a cidade leva a questão da solidão a sério. De acordo com Park, responsável na preparação de uma lei municipal para combater a solidão, as moradias com uma pessoa somam 34% de todas as residências em Busan.

Entre os 206 distritos de Busan, 78 têm a taxa acima dos 40% de moradias constituídas por uma pessoa.

“Como a solidão se tornou um sério problema em nossa sociedade, pensei que o conselho deveria estabelecer uma portaria para cuidar da saúde mental de seus cidadãos”, disse Park.

Em um fórum aberto realizado por Park no final de janeiro, cerca de 20 estudantes universitários e jovens discutiram medidas para lidar com a questão da solidão, incluindo aquelas que poderiam ser tomadas pelo governo da cidade.

Entre as medidas incluídas na portaria, o projeto busca a elaboração de um “mapa da solidão” de Busan, com um “índice de solidão” de cada distrito e a criação de um centro de aconselhamento, onde as pessoa possam receber aconselhamento de saúde mental de especialistas.

“O grau de solidão pode ser medido com base no índice, como a taxa de lares de uma pessoa, taxa de suicídio ou a taxa de pessoas que morrem sozinhas na região. Se a lei for promulgada, o governo da cidade de Busan poderá analisar os dados periodicamente e fornecer serviços apropriados a cada distrito com base no resultado”, explicou Park.

Park Min-sung planeja propor a “Lei de Prevenção da Solidão” ao Conselho de Busan em maio.

Ao levantar a necessidade de esforços do governo para lidar com a solidão, outros governos municipais começaram a aguardar a lei com grande interesse.

“Isso mostra que a solidão dos lares de uma pessoa não é apenas um problema de Busan, mas um problema que prevalece em todo o país. Que esta portaria também seja um bom modelo para trabalhar de forma eficaz em outras cidades”, disse Park.


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