Não sei quantas vezes me fizeram essa pergunta ao saberem que eu era coreano. Claro, não precisam saber que ninguém sai facilmente da Coreia do Norte ou que apenas a Coreia do Sul teve um histórico de imigração para o Brasil. Mas me “incomodava” quando perguntavam primeiro se era descendente de japonês. Diante da negativa, se era chinês. Aí respondia que não e finalmente: “coreano!”. Bingo! E então quando eu acho que acabou o assunto, a clássica “do norte ou do sul?”… 🙁

Ficava frustrado pensando que a Coreia não tinha relevância alguma. Mas agora, a grande virada! Graças ao meu bom amigo Psy e a turma do kpop e aos dramas, um número considerável de pessoas já pergunta se sou coreano de cara ou na tentativa seguinte. Ufa, ao menos sou segunda opção! 🙂

Se 40 anos atrás a comunidade coreana era isolada, agora vejo não descendentes de coreanos frequentando o Bom Retiro. Por exemplo, restaurantes coreanos ficavam restritos a áreas específicas e hoje temos estabelecimentos desbravando novas regiões onde a comunidade não está presente. Aliás, vi através do SaranginGayo que amanhã teremos a inauguração de uma sorveteria fora do Bom Retiro, especializada em 빙수 (bingsu), sorvete feito com raspas de gelo que é uma D-E-L-Í-C-I-A! #ficaadica

Fico feliz em ver diversos sites dedicados à cultura coreana, ver muita gente participando dos eventos realizados pelo Centro Cultura Coreano e pelo Centro de Educação Coreana e comparecendo em shows de k-pop. Antigamente, se você desejava algum contato com a cultura coreana era somente pelo Taekwondo e olhe lá. Você saia de lá sabendo apenas contar até 10 em coreano: 하나 (haná), 둘 (dul), 셋 (set), 넷 (net), 다섯 (dasót), 여섯 (yosót), 일곱 (ilgôp), 여덟 (yodól), 아홉 (ahôb) e 열 (yól). Claro, você aprendia também a falar 차렷 (tchariot) e mais meia dúzia de palavras. Aliás, se quiserem aprender coreano, procurem no Facebook pelo grupo “포르투갈어 + 한국어 para todos”, criado pela queridíssima Juliana Oh! Lá poderão aprender coreano e/ou ensinar português!

Mas… sinto que a popularização da Coreia veio com alguns efeitos colaterais. Noto que às vezes há choques culturais e informações erradas acabam sendo compartilhadas como se fossem verdade e ocorrem muitas generalizações. Porque é necessário alguma sensibilidade para ver que são dois mundos completamente diferentes e também perceber que coreanos daqui e coreanos da Coreia são diferentes, apesar de terem muito em comum. Já estamos na terceira geração em solo brasileiro!

Já peguei textos escritos por não descendentes de coreanos falando sobre a Guerra da Coreia ou temas sobre machismo, sistema educacional coreano e suicídio, onde emitiam opiniões baseadas na sua experiência pessoal e os leitores tomavam como verdade. Claro, não há nenhum problema em contar experiências pessoais mas considero que deve haver cuidado na abordagem do tema. Por exemplo, se uma coreana que não conhece o Brasil vier durante o Carnaval e for numa micareta, provavelmente será agarrada por um monte de homem bêbado e poderá voltar para a Coreia generalizando que os homens brasileiros são todos tarados. E todos os que ouvirem a sua história pensarão que essa é a verdade. As mulheres brasileiras são consideradas como “fáceis” na Europa, porque pensam que o Brasil é o país do futebol e da bunda de fora. Aliás, algo que precisamos ajudar a mudar urgentemente!

Sei que meu sobrenome coreano vai fazer com que achem que eu estou na defensiva, mas tento ser justo. Outro dia, vi um vídeo onde estudantes estrangeiros na Coreia experimentavam 번데기 (bondaegui), que a maioria sabe do que se trata. Eu pessoalmente, tenho nojo! Mas achei a reação deles exagerada e desrespeitosa, tinha até lenço para cuspir e bala para tirar o gosto já preparados na mesa. Lembro quando o Jamie Oliver falou mal do brigadeiro, eu achei que ele foi deselegante. E ficaria chateado se algum coreano viesse no Brasil e falasse mal de algum prato brasileiro, por mais que eu não gostasse dessa comida. Bom, mas eu não gostar de comida brasileira é difícil, já que gosto desde dobradinha até feijoada!

Enfim, o meu objetivo era fazer um texto propositivo. Que os que realmente gostam da cultura coreana possam entender as razões e o contexto de algum assunto antes de emitir opinião. Tem dúvidas sobre a Coreia? Pode perguntar que tentarei ajudar e se não souber a resposta, procuramos juntos! 🙂


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

24 COMENTÁRIOS

  1. É, muitos ocidentais fazem perguntas do tipo, sobre a origem dos demais.
    Eu sempre observei isso desde mais novo, e procurei saber como era jeito de cada um para não causar má impressão.
    Lembrando que isso não ocorre apenas no Brasil, também é bem frequente nos EUA.
    A primeira vez que soube que existia uma comunidade Coreana no Brasil foi em 2013. Até então, pensei que em terras tupiniquins de asiaticos encontraríamos seriam apenas Japoneses, Cantoneses, Chineses (Han), alguns Taiwaneses, e Sino-Malaios.
    Esse artigo me deixou uma dúvida. Eu lembro de ter lido em alguma página de registros que na verdade houve sim, migração de poucos Norte-Coreanos, para esse lugar. E que estes, são como “empregados” de Coreanos de origem do sul.
    Mas beleza, um excelente artigo!

  2. Sua postagem é, infelizmente, muito necessária, embora essas informações devessem fazer parte do senso comum.
    Não tenho descendência de nada evidente e tenho aparência dentro dos padrões de TV, daquele branco meio amarelado que fazem parecer ser a maioria no Brasil. Embora não tenha sofrido preconceito por questões de descendência por aqui, estou ciente dos problemas que os outros sofrem, sobretudo os de origem asiática. Afinal, é tudo japa, né?
    Uma amiga japonesa, residente dos EUA, veio dar aulas de inglês aqui na cidade, junto com uma estadunidense de descendência chinesa. Ao final da estada no Brasil, precisavam apresentar um projeto ao órgão que as trouxe aqui, e elas fizeram um trabalho bem interessante que abordava exatamente esse ponto, da sua identidade como descendente de asiático.
    Infelizmente, acho que o e-book ainda não está disponível, mas se desejar, posso compartilhar quando ele sair. É interessante como a questão do preconceito racial sequer é percebida por muitos, ou se é, não davam valor ou não achavam prejudicial até que as duas abriram um debate sobre a questão.
    Obrigada!

    • É um assunto realmente bastante pertinente. Sei que o povo brasileiro (da qual eu faço parte) é hospitaleiro e aberto. Mas… não podemos tapar o sol com a peneira, pois o racismo e o preconceito estão aqui entre nós. E sim, outras minorias sofrem mais do que os descendentes de coreanos e judeus. E sim, preconceito e racismo existe na Coreia também, o que não justifica nada. Devemos lutar contra isso onde quer que seja.

  3. Eu atualmente estou estudando coreano, e todos os meus professores foram jovens que estão estudando Português e vieram pra cá para intercâmbio!
    Nós organizamos alguns passeios em grupo com turma! Em um passeio nós fomos até um restaurante coreano e em outra ocasião fizemos nosso próprio jantar coreano e foi super legal!
    Sou do tipo que gosta de experimentar as coisas ante de dizer se gosto ou não!
    Ah, e uma coisa que adorei foi o Kimchi! <3
    Mas questão de pesquisar sobre a cultura, eu faço bastante, até porque quem me conhece sabe que eu ouço kpop, assisto doramas e estou aprendendo coreano, e eles sempre me fazem perguntas sobre isso!
    Fico muito chateada quando dizem que coreanos, japoneses e chineses são todos a mesma coisa. Tento explicar que são países próximos mas cada um tem a sua cultura. É como comparar Brasil, Argentina e Uruguai e dizer que são todos a mesma coisa!
    Enfim, gosto muito dos seus posts e de todo o conteúdo da página! Já está nos meus favoritos!

    • Taiane, muito obrigado por ler os meus posts! Realmente, muitos no Brasil ainda não sabem muito a respeito dos países asiáticos, mas graças a pessoas como você e muitos outros que tem interesse na cultura coreana, podemos mudar isso! 🙂

  4. Amei a abordagem desse assunto.
    Temos que aprender a respeitar a cultura de ou outros países. Essa é a base de tudo.
    Além do que será também uma forma de nós verem com outros olhos .
    Não apenas como o País do Futebol e da bunda.
    Mais um país que respeita todas as formas de culturas e que também aprende com elas.
    Temos que saber somar as experiências e não dividir e nem subtrair o mesmo.

    • Cleide, é verdade, precisamos sempre ter respeito e aprender uns com os outros. O meu objetivo com o post de hoje foi deixar claro que muitas vezes o autor de um texto pode estar colocando as suas impressões pessoais como verdade absoluta, confundindo as pessoas sobre uma determinada cultura.

  5. Realmente gostei da sua publicação, talvez pelo fato de ser verdade do que pude observar ao longo do tempo, de inicio relutei um pouco pra ler mas pelo texto longo. Diria que foi interessante de inicio ao fim, sua opinião sobre o assunto realmente me pois a pensar e a querer saber mais sobre a cultura coreana, que se for basear nos meus conhecimentos do que eu li ate agora é realmente pouco mas o suficiente pra defender um país que contem história e uma maneira diferente da cultura brasileira; que se dependesse de mim não teria essa fama de ser só o país do futebol e de bunda de fora. E alem disso tenho interesse na cultura coreana e já faz 1 ano que me interessei pela Coreia e tenho tentado aprender coreano, mas o máximo que aprendi foi o que escultei em k-dramas ou doramas e em musicas e para conseguir continuar tenho que melhorar meu inglês que não é muito bom mais tenho me esforçado pra mudar. Espero ver mais publicações como a sua e claro sempre esperando que sejam verdadeiras em relação a Coreia.

    • Olá Iolanda! O Koreapost tem a proposta de trazer material relevante sobre a Coreia em português, espero que continue nos prestigiando e acompanhando os nossos posts! Fazemos com o maio carinho do mundo! 🙂

  6. Mais um grande texto!
    Bravo 👏👏👏👏👏Bruno Kim
    Ah,fico chocada quando vejo alguém dizer que odeia BRIGADEIRO😱,talvez ,esse era ruim mesmo 😂😂

  7. Me irrito pelo meu marido qdo alguém pergunta se ele é do norte ou do Sul, tenho vontade de mandar procurar no google para entender um mínimo de noções básicas do mundo. Kkkk parabéns pelo texto

  8. Bom, machismo existe no mundo inteiro, no Brasil, na Coreia, no país mais desenvolvido que seja. Isso não é generalização, faz parte de um contexto cultural e global. Eu gosto muito da Coreia, mas não sou ingênua. Por exemplo, outro dia vi um drama (마을 – 아치아라의 비밀) onde existia preconceito de gênero e sexualidade, e todo o tipo de situação absurda (da mulher defender o marido estuprador porque se ele fosse preso ia “destruir” a família; ou de um homem ser considerado doente mental porque se vestia como mulher). Dramas, novelas, filmes, séries, sendo ficção ou não, ainda são baseados na realidade e ainda são reflexo do comportamento de uma sociedade. Lembrei de um filme (한공주) baseado num caso real de uma adolescente que foi estuprada por um grupo de rapazes e que os pais dos culpados não queriam saber da dor da vítima, queriam apenas que os filhos fossem livrados da acusação pra não prejudicar o futuro “brilhante” deles. Cada vez mais eu tenho a sensação de egoísmo, de falta de empatia. Mais ou menos como acontece no Brasil, só que aqui eu vejo claramente e não tenho dúvidas. Existem generalizações sim, existem informações erradas também, a Xinran até fala isso em um dos livros dela sobre a China. Muitas informações que chegam até nós nem são a história toda, mas o jornalismo é assim, a história é assim, é tudo seleção. Por isso a sua postagem chama atenção pra um ponto muito interessante: de que não se deve apenas escutar um lado, é preciso procurar todos os outros lados e ver o que é comum entre eles, o que não é, analisar, conversar com outras pessoas, e só depois tirar alguma conclusão. O problema é que nem todo mundo tá interessado em ler mais da mesma história, mesmo que por outro ângulo.

    • Bianca, seu comentário foi totalmente pertinente. Faço das suas palavras, minhas palavras. 🙂

      Acho interessante como a questão da sexualidade e gênero são tabus na cultura coreana e brasileira, mas de maneiras diferentes. A forma da população em geral lidar com esses temas é diferente, mas não menos repressiva.
      Os dois países têm muito o que evoluir nesses aspectos ainda.Espero que um dia cheguemos lá.

  9. O Brasil com sua diversidade com regiões tão distintas e desconhecidas de norte a sul , de centro oeste a nordeste etc tem dificuldades em entender diferentes culturas de países tão diversos quanto os visitantes e migrantes desse mundo.
    A culinária sempre será alvo de brincadeiras por suas particularidades pois quem do sudeste brasileiro não acha graça no nome do pão francês usado no sul e nordeste brasileiro? (Vulgo cacetinho ) Quantos moradores dos grandes centros não torceram a cara ao ouvir sobre cozidos de tatu ou calangos assados comidos país afora ?
    O povo brasileiro é conhecido por sua alegria mas tem sim o hábito de esquecer de conversas e repetir perguntas que já foram respondidas anteriormente. As vezes o comportamento é exagerado e insistente descambando para um comportamento preconceituoso. Afinal quantos orientais já declararam sua origem e continuam sendo chamados de china , japa entre outros termos genéricos. É importante que o fluxo de informações corretas seja cada vez mais amplo para que barreiras e estereótipos caiam em desuso. Opiniões pessoas sempre vão existir mas quanto mais informações corretas existirem as opiniões exóticas serão apenas isso e o mundo será um lugar mais justo…

  10. Lembro-Me de quando minha amiga foi no centro aqui de Manaus e o seu irmão a levou onde ficavam concentradas as lojas asiáticas. Ela chegou em casa empolgante, me contando sua experiência, morria de rir.
    “- Brenna, eles são tão fofos, lindos e brancos. Eu não sabia diferenciar, você tinha me contado as diferenças mas eu esqueci. Entrei em uma loja só pra ouvir a gerente falando.”
    Acredito que muitas pessoas pecam pela ignorância, ao não saber das diferenças entre chinês, japonês e coreano, sendo as duas primeiras mais conhecidas.

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