“Sim, finalmente encontrei alguém que sabe o que é viver com um olfato apurado”, pensou Kim Hooran, editora de cultura do Korea Herald, ao assistir o filme Parasita, sucesso mundial de Bong Joonho. 

No texto abaixo, ela explora o que chama de “verdades inconvenientes” exploradas no filme.

“Eu senti explicada a minha irritação de ser atingida pelo cheiro penetrante, pungente do kimchi ao abrir a geladeira, as caixas de bicarbonato de sódio, absorventes de odor, aparentemente vencidas. A agitação de acordar com o cheiro acre do cigarro, vindo pela janela, graças a um vizinho inconsciente que – no mesmo horário, toda manhã – fuma apesar de viver em um prédio onde fumar é proibido. E tem o fedor do velho sistema de esgoto da vizinhança onde meu escritório está localizado.

A camaradagem inicial com os personagens que passavam pela tela sentindo cheiros se foi logo, virando vergonha e constrangimento quando eu percebi que o cheiro era utilizado para delimitar as classes.

A família Kim, do filme Parasita

Dizem que os Kim, pobres, tem um odor particular. O patriarca da rica família Park descreve o motorista, o patriarca Kim, como tendo um “odor de metrô”, propondo, implicitamente, que as massas que utilizam o transporte público tem um cheiro distinto, desagradável.

Eu comecei a me contorcer na poltrona, forçada a encarar meus preconceitos. Quando eu comecei a me perguntar se eu também discriminava, baseada no cheiro, o filme, então, se tornou muito desconfortável. Parasita se instalou em mim. A sensação ruim durou por dias.

E aí mora a genialidade de Bong e o poder de seus filmes. O diretor tem uma habilidade estranha de expor nossas fraquezas, nossos demônios, nos forçando a confrontar nossas verdades inconvenientes.

Cena do filme “Memories of a Murder”

Alguns acham as verdades expostas por Bong muito inconvenientes. A investigação inepta, conduzida por detetives incompetentes, no filme Memories of Muder (2003), baseado em assassinatos em série que aconteceram entre meados da década de 80 e começo da década de 90, certamente irritou as autoridades. Quando um homem, preso por outro assassinato, confessou, em 2019, ter cometido esses assassinatos e outro homem, condenado à morte e que foi solto em condicional, após 20 anos, afirmou ter sido condenado injustamente, as pessoas se lembraram do filme.

Cena do filme “The Host”

The Host (2006), foi lançado em um período de muita agitação pública por conta de contaminação do solo em bases militares do Estados Unidos. Foi inevitável que a critica apontasse no filme – que fala sobre um monstro mutante que surge após o exército estadunidense jogar produtos químicos no rio – um sentimento anti-estadunidense.

Cena de “Snowpiercer”

Snowpierce (2013), distopia que se passa em uma era do gelo ocorrida graças às mudanças climáticas, é uma ousada representação da luta de classes: a explorada classe trabalhadora é colocada no fim do trem e luta para chegar na frente, espaço ocupado pela classe dominante.

O desconforto sentido pela administração de Park Geunhye foi tão grande com o trabalho de Bong, que o diretor entrou para a lista negra.

Essas verdades inconvenientes expostas por Bong cruzam as linhas politicas. A atual administração deve, ao menos, ter estremecido, relembrando a cena onde a filha de Kim falsifica o certificado de matrícula da universidade que seu irmão usa para conseguir a posição de tutor na família Park. A cena tem suas semelhanças com o escândalo de documentos falsos envolvendo o antigo ministro da justiça, Cho Kuk e seus filhos que se desdobraria vários meses depois do lançamento do filme, em maio.

Os problemas da crescente disparidade social, do aumento do desemprego entre jovens e dos custos de habitação estão escancarados para todos verem.

Se não tivesse conseguido tantos prêmios internacionais, inclusive a vitória majoritária no Oscar, onde fez história como o primeiro filme em cujo idioma não é o inglês a ganhar o prêmio de melhor filme, quem poderia dizer como essa administração reagiria a Parasita?

Bêbado na glória do Oscar e desesperado para explorar as conquistas de Bong para seu próprio bem, os políticos – de todas as cores e estirpes – estão propondo uma comemoração decente para o novo herói nacional: reconstruir a casa onde Bong nasceu, um museu dedicado a ele, um museu dedicado ao ator Song Kangho. A lista é longa.

O ator Song Kangho e o diretor Bong Joonho durante exibição do filme Parasita no 57th New York Film Festival. Foto: Mettie Ostrowki

Ao invés de pedirem por outro projeto relacionado a Parasita, eles deveriam assistir ao filme de novo, se já o fizeram alguma vez. Ser perturbado pelas inconvenientes verdades te encarando e sentir um desconforto tão grande que você tem que agir.”


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