A Coreia não tem escassez de comerciais originais e criativos. Mas sua indústria cinematográfica possui uma abundância de filmes que exploram apenas um tema óbvio. Seu auge se deu por volta dos anos 2000s, especialmente com enredos de comédia gangster. Os roteiros populares eram de chefes de gang que voltavam no tempo para uma série de eventos no ensino médio, ou sobre uma promotora se casando com um integrante de uma família do crime organizado. A fórmula garantia bilheterias de sucesso e outras histórias idênticas as alimentaram por anos.

Os cineastas finalmente ampliaram seu alcance por volta dos anos 2010s, mas sua caçada subsequente por um conceito distinto persistiu. Enquanto as bilheterias definem amplamente as conquistas comerciais de um filme, enredos inovadores são ouro. Por outro lado, produtores e diretores que não se arriscam, ficam nas tramas antigas que já entusiasmam os cinéfilos. Entretanto, o problema para eles seria o excesso; esses filmes entregam pouco mais do que uma sequência de cenas previsíveis e de finais clichês. Tais produções podem ser interessantes para passar o tempo, mas não para aumentar os horizontes de alguém.

Algumas Hipóteses

Bong Joon-ho acertou em um outro caminho, conquistando um nicho inovador nos gêneros de filme. Ele traz um conceito interessante que despertou a curiosidade da audiência, mas indo um passo além. Essa abordagem o fez ganhar o maior reconhecimento na indústria.

Quando o filme “Parasita” (2019) de Bong levou para casa diverso prêmios em fevereiro, após ter recebido o Palma de Ouro do festival de Cannes, no ano passado, o interesse no filme gravado em uma perspectiva de enredo “vertical” cresceu muito. Esse interesse também se estendeu para as produções anteriores do diretor, e notavelmente para as perspectivas  “horizontais”, assim como a ação que se desdobrava em “Snowpiercer” (2013), um triller sci-fi futurista e primeiro filme em inglês do diretor. Ambos os filmes retratam a classe inferior dos menos afortunados conspirando para superar o abismo que os divide da elite.

Em “Snowpiercer”, um amontoado de pessoas desfavorecidas estão na parte de trás dos vagões de um trem, no qual, avançando ”horizontalmente” em direção à dianteira dos vagões se encontra a elite. Em “Parasite”, uma família pobre de vigaristas, vivendo em um apartamento que fica quase que no subsolo, se move “verticalmente” a fim de se infiltrar na rica família de Park Dong-sik, que vive em uma chique vizinhança. Tais pontos de vista não estariam totalmente errados.

No entanto, eles provavelmente excluiriam as infinitas possibilidades imagináveis que podem aflorar quando as memórias e fantasias dos espectadores se fundem com as imagens na tela. Mais do que entregar uma resposta clara, os filmes de Bong são caracteristicamente saturados de questões e sugestões. Portanto, afim de aproveitar totalmente os filmes do inusitado diretor, os espectadores precisam abster-se de predeterminar suas direções.

 

Cena do filme “Snowpiercer” (2013), que mostra o trem no qual vivem sepradamente as classes desfavorecidas e a elite, respectivamente atrás e à frente dos vagões. Fora, o mundo está completamente coberto por gelo!
Foto: CJ ENM

O mundo de “Snowpiercer” é como um planeta Terra congelado em uma nova era do gelo. Os únicos humanos sobreviventes vivem à bordo de um trem, que percorre infinitamente o globo coberto de gelo. Os passageiros são segregados pelo status social; conforme o filme avança, aqueles na traseira do trem, sofrendo constantemente com tratamento desumano, se rebelam buscam uma forma de ir para a parte dianteira, da primeira-classe, um vagão por vez. Se isso fosse tudo o que acontece no filme, poderia bem ser igual qualquer outra história de fuga. Inesperadamente, Bong transforma o tema e cria uma reviravolta – literal e figurativamente. Assim que o especialista em segurança Namgoong Min-soo (nterpretado por Song Kang-ho, que também atua em “Parasite”) abre uma porta que conecta os vagões e permite que os rebeldes avancem, ele volta seu olhar para a porta ao lado. Para decifrar o significado, precisamos explorar o “conceito dentro do conceito” de Bong.

O mundo transformado

A locomotiva à vapor é um símbolo da era moderna. Após a invenção e produção em massa da locomotiva à motor, houve uma explosão demográfica da população urbana. A gestão de tempo posteriormente evoluiu em razão da supervisão dos funcionários nas fábricas, que eram acostumados com o trabalho do nascer ao pôr-do-sol.

As fábricas tiveram que reprogramar os turnos e reduzir as horas de trabalho, e os trens precisavam chegar de acordo com o programado. Como uma única máquina era capaz de fazer o trabalho de centenas de pessoas, as máquinas se tornaram mais valorizadas que os humanos, os quais foram rebaixados para fazerem a manutenção. No século 20, as máquinas eram veneradas e a elite minoritária, que as possuía, controlavam e governavam o mundo – assim como a classe dominante em “Snowpiercer” e o “motor sagrado” do trem, os quais só podem ser mantidos quando cada componente cumpre com a sua função.

Rebeldes à bordo no “Snowpiercer” Foto: CJ ENM

Assim como retratado na comédia “Tempos modernos” de Charlie Chaplin (1936), os trabalhadores de um mundo mecanizado foram reduzidos a meras engrenagens substituíveis de uma grande máquina. “Snowpiercer” apresenta uma angustiante representação da segregação de classes em uma cena específica, na qual pequenas crianças são descobertas dentro das engrenagens do trem, desempenhando a função de peças quebradas. A Ministra Mason (Tilda Swinton) ordena que os rebeldes fiquem parados enquanto o dono do trem, Wilford (Ed Harris) declara: “Todos tem o seu lugar específico”.

A elite do trem emprega diversas medidas para controlar a população tanto de animais quanto de humanos regularmente. Essa é a lógica desumana da modernidade, da Era Industrializada, dominada por máquinas de capacidade produtiva. Mas, na realidade, a onda da industrialização começou a mudar por volta no final do século 20.

O sistema da Guerra Fria colapsou e a Era Ideológica diminuiu. A Revolução Tecnológica desde então conduziu a uma nova era de informação digital intangível, que se move livremente sem limitações físicas, atraindo dinheiro e poder. O capital financeiro e o poder digital se tornaram a força dominante, à medida que a Era das Máquinas rendeu à Era da Informação, representada pela internet.

Nessa nova Era, os subjugados lutam contra um inimigo invisível do mundo virtual. Similarmente, assim como a classe mais desfavorecida em “Snopiercer” permanece em uma batalha ao estilo do Século 20, o mundo fora do trem sofre imensas mudanças.

A luxuosa vida levada ela elite que está nos vagões dianteiros do trem em “Snowpiercer”, graças ao sacrifícios os mais pobres, na traseira do trem, que estão sob condições desumanas. Foto: CJ ENM

Isso é ilustrado primorosamente em uma cena particularmente memorável. Ao contrário do líder rebelde Curtis Everett (Chris Evans), cujo olhar apenas se volta para a porta que dá aos vagões da frente, Namgoong Min-soo regularmente vislumbra fora do trem. Um floco de neve chama sua atenção. Ele gira aqui e ali, sua direção é determinada pela complexidade atmosférica e até mesmo a respiração dos seres vivos.

Esse é um tipo diferente de movimento, comparado com o avanço persistente dos rebeldes no início do filme. Isso pode ser associado ao sinal digital, que escapou da era moderna enquanto “todos tinham seus próprios lugares”. Essa é a maneira de Bong questionar o conceito abordado no filme – a subestimada jornada em direção à dianteira – e sugerir que paremos de olhar incansavelmente para frente e comecemos a notar o que está acontecendo ao nosso redor.

Casa da rica família Park em “Parasite” que destaca a disparidade econômica na Coreia, em relação à família Kim, que vive em um apartamento quase no subsolo. Foto: CJ ENM

O espaço vertical em “Parasite” trata de outro conceito. A metáfora das escadas no filmes sevem como um isca de Bong. A simples máxima contida no filme, “O que acontece quando uma família pobre vai trabalhar na casa de uma família rica?, obviamente prevê uma guerra iminente entre classes. Mas essa é ideia derrubada na segunda metade do filme, quando confrontos entre pobres e os ainda mais pobres toma o centro do palco.

A rica família Park está completamente alheia à esse conflito, e nem mesmo a mídia ou a polícia tem o mínimo de entendimento sobre os acontecimentos que se seguiram. Enquanto os integrantes das classes mais altas estavam ocupados desempenhando seu papel “fielmente, mas sem o mínimo de reflexão” teria o mundo retornado por alguns momentos à pré-Era Moderna, quando, nas palavras do filósofo Thomas Hobbes, havia uma “guerra de todos contra todos”? As questões de emprego fundamentadas no filme, constantemente lembram a audiência dos conflitos unilaterais da vida real, entre trabalhadores contratados e de tempo integral, aqueles que foram demitidos e os que foram poupados e os donos de pequenos negócios e os trabalhadores de meio período.

O poder invisível

Os passageiros da traseira do trem em “Snowpiercer” incansavelmente lutam para forjarem um caminho para os vagões à frente, mas, no final, mudam sua atenção para a revelação sobre a terra congelada fora do trem. Do mesmo modo, a família de Kim em “Parasite”, tem sua atenção voltada a ascensão, para evitar descerem ainda mais socialmente. Isso é encerrado com uma luta sangrenta entre a família de Kim e um casal ainda mais desfavorecido e desesperado com sua situação, a governanta da casa da família Park e seu marido, que secretamente vivem no porão da casa dos patões ricos, escondidos de agiotas. Após fugir da casa e correr pela escada abaixo em uma chuva intensa, Ki-woo, filho da família Kim, subitamente para e pondera, “Porquê parece que estamos brigando apenas com aqueles em situação pior que a nossa?”.

O patriarca da família Park, que vive em um apartamento quase no subsolo. Essas casas, representadas no filme, foram consequência do risco de guerras na Coreia nos anos 1980 e que hoje são ocupadas por famílias e pessoa, em razão do preço reduzido. Foto: CJ ENM

As escadas no filme representam o questionamento da existência de um poder invisível em nossa sociedade que coloca os socialmente desfavorecidos um contra o outro. Esse poder pode ser algo onipresente no ciberespaço, mas indiscernível para ser visto à olho nu, assim como o mundo em aparelhos de realidade virtual desenvolvidos pela Empresa de TI global comandadas pelo patriarca da rica família, Park Dong-sik. É por isso que “Parasite” e a sua contemplação da sociedade do século 21 representa uma sombra ainda mais pessimista do que a em “Snowpiercer” e sua filosófica reflexão sobre o século 21.

A crise global do capitalismo, mudanças drásticas no ambiente de trabalho e consequências de ações anti ecológicas – esses tem sido os interesses atuais de Bong. Mesmo hoje, com a intensa conexão do mundo, decisões continuam sendo feitas em níveis locais e nacionais, o que não é favorável para efetivamente abordar os desafio globais frequentemente enfrentados pela humanidade. Talvez, esse é o motivo do porquê os filmes de Bong continuam a trazer questões que nos fazem encarar a realidade enquanto transmite sua profunda preocupação com a raça humana.

Kim Ki-woo e sua irmã Kim Ki-jung, em uma cena de “Parasite”, em seu apartamento quase no subsolo, que tem os ambientes da casa adaptados à construção subterrânea. Foto: CJ ENM

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