Pesdestre andando em frente ao Seul Cinema, no dia 4 de julho de 2021 Imagem: Yonhap

Em 31 de agosto, o Seul Cinema, no distrito de Jongno, centro de Seul, fechou suas postas após 42 anos funcionando com uma última projeção, o filme “Holy Motors” (2012), do diretor francês Leo Carax. Apesar das fortes chuvas ao longo do dia, centenas de pessoas compareceram ao teatro, embora todos os bilhetes estivessem esgotados para o dia.

Porquê fechar um cinema tão popular?

Ter uma multidão alí presente é irônico, uma vez que o teatro só tem recebido atenção e aglomerações recentemente, após a notícia do seu encerramento. Quando o último filme projetado no cinema chegou ao fim, por volta das 19 horas, e o local se preparou literalmente para fechar as portas, os visitantes rapidamente levantaram os seus smartphones para tirar fotografias, desejando registrar as impressões dos momentos finais do Cinema de Seul.

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Visitantes do seul cinema no dia do seu encerramento tiram fotografias em frente a uma parede fotográfica exibindo cartazes de alguns dos filmes de sucesso que exibiu ao longo dos últimos 42 anos.
imagem: yonhap

Em julho, foi feito um anúncio em seu website dizendo, “O Seul Cinema, que recebeu muito carinho como sendo um dos teatros de referência em Jongno, vai fechar a partir de 31 de Agosto”. Hapdong Film, uma empresa de produção cinematográfica que opera o cinema disse que está “a preparar-se para novas mudanças e desafios que conduzirão o futuro”.

Foi o falecido presidente da Hapdong Film, Kwak Jeong-hwan, quem também foi diretor de cinema e deu origem ao Seul Cinema, em 1978, adquirindo o Teatro Segi e dando-lhe um novo nome. Com a abertura do Seul Cinema, o distrito de Jongno 3-ga em Seul foi consolidado como um centro de cinema, pois também contava com a presença do Dansungsa, o primeiro cinema que abriu na Coreia em 1907, e do Piccadilly, que abriu em 1958.

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A bilheteira do seul cinema no dia 31 de agosto com cartazes dizendo que os bilhetes do dia estavam todos esgotados
imagem: yonhap

Contudo, desde o final dos anos 90, tais salas de cinema vem sofrendo financeiramente com o surgimento de gigantes multiplex. Dansungsa fechou em 2012, enquanto Piccadilly foi adquirido pelo gigante Multiplex Lotte Cinema, em 2004, seguido pela CGV, que é o atual proprietário. O Seul Cinema não conseguiu resistir à pressão financeira em meio a Covid-19 e tornou-se o último dos três a fechar as suas portas.

Assim, um artigo fez uma retrospectiva dos últimos 42 anos do Seul Cinema.

O filme de abertura

A primeira menção ao Seul Cinema no JoongAng Ilbo foi em 16 de setembro de 1978, um dia antes da sua abertura. O artigo dizia: “O Segi Cinema, que foi adquirido pela Hapdong Film, foi remodelado e renomeado Seul Cinema e está previsto para abrir dia 17 de setembro, a tempo para as próximas férias Chuseok”. O artigo detalha a festa de abertura que a Hapdong Film organizou no dia anterior.

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Pessoas fizeram fila para comprar bilhetes para “o último inverno”, do diretor jeong so-young e primeiro filme exibido no cinema de seul em setembro de 1978.
imagem: seul cinema

Nessa altura, o cinema só tinha uma única sala, o que não era incomum para salas de cinema naquela época. Para a abertura, Hapdong Film decidiu exibir o filme “O Último Inverno” (1978), do diretor Jeong So-young, que contava com os atores veteranos Yu Ji-in, Lee Young-ha e Kim Dong-hyun. O filme retrata um triângulo amoroso entre três amigos universitários, à medida que experimentam o noivado, a gravidez, o desaparecimento e uma fuga dramática. O filme atraiu 120.000 pessoas, estabelecendo o importante status como uma das principais salas de cinema do centro de Seul.

Na década de 1980, os filmes de sucesso seguiram-se um após outro no Seul Cinema. Primeiro com “Madame Aema” (1982), o primeiro filme erótico do país que foi criado após o governo ter começado a relaxar o seu controle na indústria cinematográfica. O filme é creditado com a ascensão de Ahn So-young, que estrelou como protagonista feminina. Devido à sua popularidade, a produção foi exibida durante quatro meses, tendo vendido cerca de 310.000 bilhetes no total. Quando estreou em 6 de Fevereiro de 1982, tanta gente se aglomerou no cinema de Seul que, segundo relatos, as janelas do cinema foram estilhaçadas.

Seguiu-se “O Destino Bate à Sua Porta” (1981), que também estreou na Coreia em 1982 e vendeu mais de 400.000 bilhetes. O filme, que é adaptado de um romance criminal de 1934 do escritor americano James Cain, estrela Jack Nicholson e Jessica Lange. Embora o seu gênero seja o crime, foi promovido como um filme sensual, provavelmente para atrair os espectadores de cinema que ainda falavam sobre o filme anterior “Madame Aema”.

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Uma fotografia em preto e branco mostrando multidões de pessoas à espera de ver “o destino bate à sua porta” em 1982, no seul cinema
imagem: arquivo cinematográfico coreano

Em 1985, quando exibiu “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (1984), o Seul Cinema sustentou uma competição de bilheteria com o Yeon Heung Cinema, que também o exibia. O Seul Cinema conseguiu vender um impressionante número de 600.000 bilhetes, tornando-se o cinema mais popular do ano para filmes estrangeiros.

Era dos Multiplex

Em 1989, o Seul Cinema foi renovado para acompanhar o seu estatus de cinema líder em Seul. Recebendo o apelido Seul Cinema Town, o Seul Cinema abriu três salas – Cannes, Veneza e Academia. As três obras de reabertura selecionadas para as exibições foram o filme de comédia “Miss Rhino, Mr. Korando” (1989), do diretor Lee Jang-ho, o filme “Major League” (1989), dirigido por David Ward e John Warren e estrelado por Charlie Sheen, e o filme de Hong Kong “The Killer”, produção de Tsui Hark e estrelado por Chow Yun-fat.

Foi em 2003 quando o Seul Cinema se tornou um verdadeiro multiplex, abrindo 11 salas para competir face a face com outras franquias de multiplex geridas por grandes empresas que começaram a surgir na Coreia a partir de 1998, começando com a CGV Gangbyeon. Em 2017, passou por outra grande renovação para instalar todas as características convenientes que os outros multiplexes possuíam.

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Uma foto do seul cinema em 1993, após uma renovação para instalar mais duas salas.
imagem: foto joongang

O Seul Cinema também se orgulhava de ser o cinema no qual o falecido Cardeal Stephan Kim Sou-hwan escolheu para ver “A Single Spark”, em 3 de dezembro de 1995, com a sua mãe. O filme retrata a vida real de Jeon Tae-il, um jovem alfaiate numa fábrica de vestuário em Seul, que se matou em 1970 em protesto contra as leis laborais. O cardeal, que era conhecido por estar profundamente interessado nos direitos dos trabalhadores, tinha dito aos produtores mesmo antes da conclusão da produção do filme que queria ver o filme com jovens coreanos assim que este fosse exibido. Quando estreou a 18 de novembro, vendeu mais de 150.000 bilhetes em apenas três semanas.

Outro filme que atraiu um grande número de pessoas foi “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (2001), que estreou no Seul Cinema em 14 de dezembro de 2001. Segundo a Warner Brothers, mais de 4 milhões de bilhetes foram vendidos em todo o país. Jornais publicaram fotografias do Seul Cinema com jovens coreanos visitando  o cinema pela primeira vez para verem “Harry Potter”, segurando firmemente as mãos da sua mãe.

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Uma longa fila de pessoas na fila, em 1993, em frente ao seul cinema, a espera para comprar bilhetes.
imagem: yonhap

O teatro também era o local para os grupos cívicos realizarem protestos contra os filmes. Em 2003, organizaram piquetes em frente ao Seul Cimea para protestar contra a série de James Bond “Um Novo Dia para Morrer”, incitando as pessoas a não verem o filme, que foi lançado na Coreia a 31 de dezembro de 2002.

O filme tinha recebido muitas críticas do público coreano mesmo antes do seu lançamento pela sua representação da Coreia e das cenas em que a Linha de Demarcação Militar entre a Coreia do Norte e do Sul se transforma num mar de fogo. O filme acabou por ser derrubado do top 10 nas bilheteiras no prazo de três semanas após o seu lançamento e em breve foi retirado das salas de cinema em todo o país.


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