Cena do filme “Exit”, dirigido por Lee Sang-geun, de 2019 Foto: CJ ENM

Antes da pré-estreia de “The Host”, os espectadores coreanos foram levados a acreditar que este seria um filme sobre monstros. Mas o filme de 2006, dirigido pelo diretor ganhador do Oscar Bong Joon-ho (“Parasita”), possui uma camada bem mais profunda.

O foco não era voltado à um monstro agressivo emergindo do Rio Han em Seul, mas sobre a negligência e a estupidez daqueles que estão no comando. O monstro é o resultado de armamentos químicos dos EUA despejados no rio. Quando o governo coreano falha em defender sua população, pessoas inocentes e impotentes são deixadas para trás, para, por conta própria, salvarem uma criança que foi agarrada pelo mostro do rio.

Cena do filme “The Host”, do diretor Bong joon-ho, de 2006. Foto: Chungeorahm Films

”The Host” foi o maior e mais brutal filme coreano de todos naquela época, excedendo 13 milhões de ingressos. Seu sucesso foi, em partes, creditado a intensa chuva que ocorreu no ano anterior ao lançamento do filme.

A inundação causada custou centenas de bilhares de won, em danos de propriedade e dezenas de milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas. Nestas circunstâncias , as pessoas puderam identificar a mensagem por trás do filme, que era basicamente “o real monstro não é o próprio desastre, mas a forma como as pessoas lidam com o desastre”.

Modelo de sucesso

”The Host” trouxe um novo modelo para o gênero de filmes sobre desastres ambientais. “Haeundae”, um filme de 2009 dirigido por Yoon Je-kyoon, conta sobre um tsunami que se chocou com o destino de verão mais famoso na Coreia. O filme, que deu destaque às súbitas emoções e conflitos ao invés da morte e destruição na praia de Busan, vendeu mais de 11 milhões de ingressos.

Cena do Filme Haeunde. Foto: Han Cinema

A abordagem emotiva tornou-se uma característica idiossincrática dos blockbusters coreanos em meio ao seu sucesso comercial. Entretanto, alguns filmes feitos nesse modelo acabaram sendo melodramáticos e eventualmente o estilo foi perdendo a graça.

Filmes sobre desastres puderam se recuperar com “Train to Busan” de Yeon Sang-ho em 2016, que deu protagonismo a passageiros que lutavam contra zumbis à bordo de um trem KTX em alta velocidade, destinado a Busan. Mas o filme também possuia elementos que eram uma renovada nos filmes do gênero.

O trem era uma metáfora sobre a acelerada modernização da Coreia. As hordas de zumbis, vindas aos montes, representavam uma sátira ao crescimento obsessivo presente na sociedade coreana. E os personagens de status elevado, que falharam em dar ajuda suficiente, eram um comentário acerca da destrutiva crença de meritocracia ecoando como uma mensagem, em “The Host”.

Cena do filme “Train to Busan”, do diretor Yeon Sangho, de 2016
Foto: Next Entertainment World

Liderança durante a crise

O naufrágio da balsa Sewol e 2014, que custou a vida de centenas de passageiros, a maioria estudantes do ensino médio que estavam em excursão de campo, causou uma comoção e indignação pública quando investigações revelaram a ausência de um líder e de um protocolo de emergência no início do acidente. A população coreana condenou o governo por negligência. A falha em responder prontamente e efetivamente ao caso teve um grande impacto no impeachment do presidente Park Geun-hye.

Cena do filme “Ashfall”, codirigido por Lee Hae-jun e Kim Byung-seo, de 2019

Em 2016, quando o processo de impeachment foi aberto, os coreanos tiveram mais oferta de filmes sobre desastres do que costumavam ter; além de “Train to Busan”, houve o lançamento dos filmes “Tunnel”, o qual aborda o desabamento de um túnel, e “Pandora”, que trata de um acidente em uma usina nuclear.

O impeachment refletiu em uma  “democratização digital” na Coreia, que floresceu junto à internet e aos smartphones. Nos anos 2000s, protestos populares se voltaram mais e mais dos espaços físicos aos ciberespaços, nos quais as informações e ideias poderiam ser compartilhadas em grande escala e de maneira mais imediata.

As linhas de alta velocidade nos estados e a profundo alcance dos telefones celulares facilitaram a discussão não somente sobre temas políticos mas também sobre a responsabilidade governamental acerca de desastres. Muitos dos desastres abordados em filmes que foram laçados possuíam temas críticos similares: a incompetência e não-transparência por parte dos funcionários responsáveis e a abordagem da população nas redes que levam a mudanças mais palpáveis.

Ao reparar nessas tendências, é possível entender a mudança na perspectiva coreana sobre desastres e a suas reações. As mensagens contidas nos filmes esse gênero, como a necessidade de comandos centrais competentes e informação pontuais, refletem a angústia da população em ter que lidar com crises reais.

Mas esse tom de desaprovação desapareceu nos filmes de 2019. “Exit”, por exemplo, fala sobre a escapada de um cidade tomada por gases nocivos, e “Ashfall”, que retratou a colaboração entre coreanos durante a erupção fictícia de um vulcão na Montanha de Paektu (também chamada de Montanha Baekdu ou Changbai, que fica na fronteira da Coreia do Norte com a China).

A crítica social era inexistente em ambos os filmes; eles abordavam mais a parte agradável do gênero e eram recheados de humor. Mas a tendência nos filmes coreanos sobre desastres pode mudar novamente, principalmente por causa da atual pandemia da COVID-19.

Porter do filme “The Flu”, do diretor Kim Sung-su, de 2013. O filme voltou a receber atenção durante a pandemia de COVID-19, em 2020. Foto: CJ ENM

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