Eu cheguei à conclusão de que memória é uma coisa bem engraçada – e que não dá pra confiar 100% nela. Por exemplo, as pessoas me perguntam sobre histórias que vivi na Coreia, alguma coisa inusitada, e apenas recentemente eu fui me lembrar do meu melhor acontecimento lá – o melhor não necessariamente por ser bom, mas por ser bem curioso (na minha opinião). Sério, eu tinha esquecido! Aconteceu logo no começo do intercâmbio, depois de eu estar em Seul por um mês ou algo assim, e acho que por isso que eu não me lembrava, mas é um absurdo tão tão grande eu só ter me lembrado disso agora que resolvi compartilhar com todo mundo e nunca mais esquecer. Lá vai.

Era Chuseok, um dos feriados mais importantes da Coreia do Sul, e eu e minhas amigas queríamos explorar. À tarde fomos assistir a uma apresentação cultural especial, depois a um museu – e quando a noite chegou, decidimos ser rolezeiras e comer chimek (frango frito e cerveja) às margens do Rio Han. Pareceu uma ótima ideia – e é mesmo, recomendo -, então, depois de uma rápida pesquisa no oráculo Google, decidimos que o local ideal seria próximo à estação Yeouinaru. Então apenas fomos, com um sorriso no rosto e o coração cheio de esperança.

Chegando lá, ficamos surpresas com a quantidade de pessoas – tradicionalmente, o Chuseok é um feriado familiar, festejado em casa, mas havia muitos grupos de amigos e casais por ali. E quero dizer muitos mesmo, o lugar tava cheio de gente. Enfim, como uma amiga havia recomendado fazer o pedido do frango ali mesmo, com alguém que estivesse distribuindo folheto de restaurante, foi o que fizemos. Eu e outra amiga (realmente não consigo lembrar o porquê de só nós duas termos ido e as outras ficarem esperando a gente) descemos um lance de escadas em direção à orla do Rio Han e nos aproximamos de uma das várias ahjummas que distribuíam folhetos. O que aconteceu a seguir foi tão rápido que eu nem me dei conta do que estava acontecendo. Quando a ahjumma que abordamos nos entregou seu folheto, ela simplesmente chamou as outras que também estavam trabalhando – aquilo foi um sinal, que minha amiga percebeu e conseguiu fugir (me deixando sozinha), mas que eu, ah… eu fui muito lenta para notar. Todas – e eu quero dizer todas mesmo, não tô exagerando -, t o d a s as ahjummas vieram em minha direção, empunhando seus folhetos como se empunhassem espadas e com o mesmo olhar de determinação de um soldado em uma missão. Elas me cercaram. Eu não consegui fugir. Eu não consegui não pegar os folhetos, pois elas simplesmente os enfiavam em meus braços. Foram os 10 segundos mais loucos da minha vida. Me senti um peixe cercado por tubarões, completamente sem saída. E quando todas me entregaram seus folhetos, elas me deram as costas, indo atrás de outras vítimas, me deixando atordoada e com uma tonelada de papel nas mãos.

Brincadeiras a parte, acho que foi a experiência mais surreal que eu tive na Coreia. Foi a primeira vez que vi pessoas tão ávidas panfletando. Se alguém me dissesse, antes de eu viajar, que eu seria cercada por ahjummas jogando folhetos de frango frito na minha cara, eu não teria acreditado. Mas aconteceu.

Depois disso, eu me juntei à traidora minha amiga que fugiu sem mim e que se divertiu bastante às minhas custas e fechamos negócio com uma das ahjummas, que prontamente tirou todos os folhetos dos meus braços, disse “você não precisa disso” e os jogou fora. Quando nosso pedido chegou, ela fez a gentileza de ir buscá-lo pra gente (acho que normalmente o entregador liga pra quem fez o pedido, fala onde tá e o cliente vai encontrá-lo), e nessa hora vivemos momentos de tensão, já que – sério, não me perguntem o porquê -, demos o dinheiro para ela, que foi procurar o entregador sozinha. Foram 5 minutos nos perguntando se ela voltaria, e um enorme alívio quando ela enfim voltou com nossa comida, que era o mais importante. O frango estava delicioso, a companhia era ótima, e terminamos a noite nos sentindo felizes.

Mas na volta fizemos outro caminho, para não ter que encarar nenhuma ahjumma entregando folheto.


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