“Nas histórias de sobreviventes a campos de concentração, há um arco narrativo recorrente. Forças de segurança roubam o protagonista de uma família amorosa e de um lar confortável. Para sobreviver, ele abandona princípios morais, reprime sentimentos por outras pessoas e deixa de ser um seu humano civilizado” (Blaine Harden).

A história de Shin é diferente.

Campo 14

Imagem: Google Maps

Quando falamos em Coreia do Norte imediatamente o associamos a conflitos, ditadura, armamento nuclear e a ameaça que representa para o restante do mundo.

Mas, pouco se fala sobre os norte-coreanos – ignoramos o fato que toda uma população vive em um extremo regime político por mais de 70 anos.

Desde as eleições de 1948, quando 김일성 (Kim Il sung) assumiu o poder, o país vive uma monarquia absolutista com um intenso culto de personalidade e nacionalismo.

Parte desse sistema governamental consiste em prisões políticas e campos de trabalhos forçados – comprovados por imagens de satélites e depoimentos de desertores.

De acordo com o serviço de inteligência da Coreia do Sul existem 6 campos, dos quais os denominados 15 e 18 são zonas de reeducação e os detentos podem ser libertados (porém, monitorados pelo resto da vida).

Os demais campos são conhecidos como “distritos de controle total”, ou seja, os prisioneiros são forçados a trabalhar até a morte. O Campo 14 é um desses.

Fundado em 1959, o Campo 14 abriga cerca de 15 mil prisioneiros e é conhecido pela brutalidade e a intensa vigilância armada.

“Em sua maioria, os detentos trabalham na agricultura, na extração de carvão, na confecção de uniformes militares ou na fabricação de cimento, subsistindo com uma dieta de milho, repolho e sal” (Blaine Harden).

Uma das leis estabelecidas por Kim Il sung, em 1972, diz que “a semente” deve ser eliminada por três gerações, ou seja, quando um transgressor é preso toda sua família vai junto para o campo. Não existe processo judicial e muitos morrem sem saber do que foram acusados.

신동혁

Imagem: U.S. Mission Geneva/ Eric Bridiers

신동혁 (Shin Dong-hyuk) é a única pessoa conhecida que escapou, com vida, dos campos norte-coreanos.

Shin nasceu no Campo 14, em 1982, e passou 23 anos sem conhecer outro tipo de vida. Aos 4 anos presenciou sua primeira execução; aos 7 anos viu sua colega de classe ser espancada até a morte porque tinha 5 grãos de milho escondidos no bolso; aos 14 foi torturado e obrigado a assistir à execução de sua mãe e seu irmão mais velho.

A vida no Campo 14 não era fácil – os prisioneiros recebiam um conjunto de roupas duas vezes por ano e isso não incluía meias, luvas e nem roupas intimas (as temperaturas na Coreia do Norte podem chegar à -20°C).

“Não existem camas, cadeiras ou mesas. Nenhum banheiro ou chuveiro. […] Cerca de trinta famílias se serviam do mesmo poço de água potável. Compartilhavam também uma latrina, dividida ao meio para homens e mulheres” (Blaine Harden).

A alimentação era também muito restrita: pequenas porções de mingau de milho, repolho na salmoura e sopa de repolho.

Todos esses fatores contribuem para a má formação do corpo humano e suas consequências – indigestão crônica, hepatite B, infecções ginecológicas e cistos. Além da paranoia e estresse pós-traumático.

Foi apenas em 2004 que Shin considerou a fuga.

Na fábrica têxtil, em que trabalhava, ficou conhecendo Park – um servidor público que conseguiu sair do país, mas retornou com medo de represália do governo. Park compartilhou com Shin tudo o que viu na China, todas as belezas e facilidades que tinha por lá.

Em 2005 os dois planejaram a fuga. Apenas Shin saiu com vida.

Depois de 2 anos fugindo, Shin chegou na Coreia do Sul e foi encaminhado para Hanawon (하나원), um centro de readaptação que abriga os desertores norte-coreanos.

Shin foi diagnosticado com paranoia e ainda sofre com pesadelos sobre sua vida no Campo.

Realidade x Ficção

Imagem: Youtube

O relato de Shin já foi alterado algumas vezes – acontecimento que foram modificados ou omitidos, datas alteradas…

É normal que o leitor se sinta desconfiado em relação a história, mas é importante ressaltar o depoimento dos outros desertores que corroboram as barbaridades que acontecem nesses campos.

No documentário CAMPO 14 – Zona de controle total aparecem dois ex-servidores públicos – Oh-young-Nam (ex-oficial de polícia do serviço secreto do Ministério de Segurança Interna da Coreia do Norte) e Kwon Hyuk (ex-comandante dos guardas do Campo 22 na Coreia do Norte) elucidando um pouco mais sobre o tempo que passaram no país e o que acontecia por lá.

Toda a história de Shin você encontra nos livros Escape to the Outside World (Fuga para o mundo exterior) publicado pelo Centro de Dados para os Direitos Humanos na Coreia do Norte; e no livro Fuga do Campo 14 – A dramática jornada de um prisioneiro da Coreia do Norte ruma à liberdade no ocidente (Blaine Harden) publicado pela Editora Intrínseca.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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