Recentemente, o Koreapost teve a honra de entrevistar o escritor Kang Byoung Yoong, autor do livro Pepino de Alumínio, pubicado no Brasil, em 2018, pela editora TopBooks.

Nascido em Seul em 1975, Kang Byoung Yoong se formou na Universidade Myongji com um B.A. e M.A. em redação criativa, também concluindo o curso de doutorado na mesma disciplina. Também recebeu um PhD em literatura russa da Moscow State University.

Ele estreou como escritor de ficção quando seu conto The Winning Bid foi selecionado no concurso Spirit and Expression para novos escritores em 2002. Byoung Yoong publicou o ciclo de contos Tales of Imaginary People (2005), a coleção de contos Inexhaustible (2006), um estudo em russo do romance We, de Yevgeny Zamyatin (2010), o romance Assorted Records of the Castration of Mr. Y (2012) e o romance Aluminum Cucumber/Pepino de Alumínio (2013), além de contribuir com um conto para a coleção temática Kisses and Bananas (2014).

Kang recebeu um prêmio no 8º concurso para novos tradutores de literatura coreana em 2009, organizado pelo Instituto de Tradução de Literatura da Coreia. Até agora ele publicou mais de 10 livros.

Desde 2013, Kang Byoung Yoong trabalha na Universidade de Liubliana, na Eslovênia, como professor assistente de estudos asiáticos. Para o ano acadêmico 2016/17, ele foi premiado pela Faculdade de Artes da Universidade de Liubliana, com um Reconhecimento Especial por Realização Única (pela aplicação dos Estudos Coreanos na Eslovênia).

Atualmente, ele é o Chefe de Estudos Coreanos no Departamento de Estudos Asiáticos da mesma universidade.

Ele gentilmente nos concedeu esta entrevista, via e-mail, onde conta muitas coisas sobre sua vida e suas conquistas, além de nos dizer porque é tão apaixonado pelo Brasil.

1. De acordo com sua biografia, você viveu e estudou a maior parte de sua vida na Coreia do Sul. O que o motivou a continuar seus estudos no exterior? E como você acabou decidindo viver no exterior? Você já morou em outros lugares antes da Eslovênia? Pode nos contar um pouco sobre suas experiências no exterior?

Do meu ponto de vista, não é importante onde eu moro, para mim, o mais importante é como eu vivo. Então, onde quer que eu esteja, eu sou Kang Byoung Yoong. Eu sei como viver como Kang Byoung Yoong (hahaha). Quando se vive no exterior, é possível ver o mundo de forma mais ampla e objetiva. Para um escritor, também vale muito a pena.

Como você mencionou, eu nasci em Seul, e por 30 anos eu vivi em Seul. Depois disso fui para Moscow, Rússia, a fim de aprender literatura russa que eu amo – como Gogol, Dostoievsky, Bulgakov e Zamiatin. Na Rússia aprendi muito, não só sobre literatura, mas também sobre a vida! Depois de tirar o PhD na Universidade Estadual de Moscou voltei para Seul. E há sete anos saí de Seul. Agora, eu moro em Liubliana, Eslovênia, Europa, com a minha família. Nós adoramos estar aqui. Liubliana é pequena e aconchegante para nós. Então, publiquei um livro sobre Liubliana, “Liubliana: A City Reminds of my Better Half” e no ano passado publiquei um livro sobre minha viagem e leitura na Europa “Sentences Walking through the Cities”. Eu amo estar aqui porque aqui estou.

Kang Byoung Yoong, O Escritor Apaixonado Pelo Brasil [Entrevista]
A cidade de liubliana. Foto: kang byoung yoong
Kang Byoung Yoong, O Escritor Apaixonado Pelo Brasil [Entrevista]
A cidade de liubliana. Foto: kang byoung yoong

2. Sua primeira obra literária, The Winning Bid, foi escrita ainda na Coreia do Sul ou já quando você estava no exterior? The Winning Bid foi publicado quando você tinha 27 anos. Este também foi o ano que você escreveu? Você sempre pensou em escrever ou foi algo que veio com a maturidade?

Enquanto eu fazia doutorado em Seul, eu me tornei um escritor. “The Winning Bid” é meu primeiro trabalho como escritor profissional. Naquela época eu estava cursando “Escrita Criativa”. Claro, eu queria ser um escritor, mais precisamente, um romancista. Mas para se tornar um escritor na Coreia você precisa ganhar alguma competição literária. Com este trabalho ganhei esta competição literária (felizmente).

Naquele ano, ganhei duas vezes em competições literárias (e o Brasil ganhou a Copa do Mundo!). Na verdade, quando eu era jovem, eu queria ser um cineasta como Quentin Tarantino, mas eu percebi que eu não poderia ser, porque eu sou uma pessoa que não gosta de trabalhar com muita gente. Adoro fazer coisas sozinho. Quando crio, preciso estar sozinho. Então, depois de entender este meu jeito de ser (quando eu era estudante universitário), decidi ser um escritor que pode criar qualquer coisa (quase) sozinho. E em 5 anos eu me tornei um escritor, felizmente. Desde que decidi ser escritor, sempre penso em uma nova história e um novo enredo. É meu trabalho, hobby e motivo de felicidade.

3. Neste momento, você fala coreano, inglês, russo e esloveno. Você se sente confortável escrevendo em todas essas línguas? Você sente que escrever em sua língua materna traz mais emoção para você ou não está necessariamente relacionado?

Eu me sinto confortável quando falo e escrevo em qualquer língua porque eu não tenho medo de cometer erros ao escrever ou falar. Mas eu posso/devo escrever romances (em) coreano. Escrevi trabalhos acadêmicos nas outras línguas. Mas escrevo obras literárias apenas na Coreia. Talvez, eu tenha frases coreanas loucas e incomuns em minhas obras literárias, porque meu pensamento é baseado em várias línguas.

Mas eu poderia dizer que mesmo que essas frases sejam estranhas ou diferentes de outros escritores coreanos, elas são originais e gramaticalmente perfeitas. Como você sabe, mais linguagem dá/faz mais emoções. Existem alguns sentimentos que só podem ser explicados em linguagem específica no hangul coreano. Então, tenho certeza que o conhecimento de várias línguas ajuda muito enquanto escrevo um trabalho em coreano.

4. Em sua biografia vê-se que você tem um prêmio num concurso de tradução. Estava traduzindo do coreano para outras línguas? Seus próprios livros ou de outros autores?

Quando eu estava em Moscou, eu queria escrever um trabalho em russo. Então, no começo eu tentei traduzir um conto coreano, de coreano para russo. Eu completei a tradução do trabalho para o russo e, como você disse, (muito) felizmente eu ganhei um prêmio no concurso organizado pelo Instituto de Tradução de Literatura da Coreia na categoria Novos Tradutores. Naquela época, percebi que seria impossível me tornar um bom tradutor, na minha opinião, porque o processo de trabalho de tradução é totalmente diferente de escrever uma história.

E para fazer uma boa tradução eu teria que trabalhar mais regularmente e é mais difícil do que eu esperava. Significa que eu deveria ser mais diligente. E eu não poderia adicionar qualquer emoção minha no trabalho original. Não posso usar minha criatividade enquanto traduzo. Isso me deixou louco! Mas alguns anos atrás eu tive que traduzir Ko Un, um famoso poeta coreano, para esloveno, infelizmente. Porque não havia ninguém que pudesse fazer isso para que fosse possível introduzir literatura coreana na Eslovênia naquele momento.

Agora meus trabalhos estão sendo traduzidos para o inglês e romeno. Então, de vez em quando como escritor, tenho que dar alguns conselhos para meus tradutores, mas não quero ser tradutor (novamente). Eu sei, esse não é o meu trabalho. Eu tenho consciência no que sou melhor.

5. Neste momento você é Chefe de Estudos Coreanos no Departamento de Estudos Asiáticos da Universidade de Liubliana, na Eslovênia. O que você acha que traz o interesse de estudantes eslovenos, ou, de fato, de muitos outros estudantes em diferentes países do mundo para a cultura sul coreana?

Sim, sou chefe de estudos coreanos na Universidade de Liubliana, Eslovênia. Como você pode imaginar, o curso de Estudos Coreanos é o mais popular na Faculdade de Artes da Universidade de Liubliana, atualmente. Isso se deve ao fato da cultura coreana ser muito popular na Europa atualmente pelo que eu chamo de DD (Diversidade Dinâmica). Os europeus há muito tempo não viam uma cultura tão dinâmica e variada. Mas, como em todos os lugares, os jovens estão ansiosos para ver e conhecer várias coisas. Então, nada mais propício que o DD da Coreia.

Eu mesmo que inventei esta expressão – DD. Como você deve saber, a expressão mais famosa da Coreia é “Ppalli-ppalli (rápido-rápido)”. Quando eu era jovem, as pessoas falavam sobre “Ppalli-ppalli” negativamente. Mas agora funciona positivamente. A cultura coreana contém quase todas as culturas, incluindo a cultura brasileira. E isso muda muito rapidamente na cultura pop, haja visto o desenvolvimento do K-Pop ou dos K-Dramas. Mas por trás ou sob a cultura pop você também aprende muito, por exemplo, filosofia coreana ou literatura coreana se você quiser se aprofundar.

6. Você teve seu livro, Pepino de Alumínio, traduzido para o português. Quando começou a se interessar pelo Brasil?

Eu tenho quatro países que realmente amo! Coreia, Eslovênia, Rússia e Brasil. É difícil dizer desde quando eu amo o Brasil. Talvez, desde quando escutei a música de Antônio Carlos Jobim, desde quando vi Sócrates jogar, desde que li a literatura de Jorge Amado, desde que assisti aos dribles de Mané Garrincha, me apaixonei por esse grande país. Tenho certeza de que o Brasil é um país de potencial, um país de possibilidades, o país do futuro. Espero que vocês, brasileiros, superem esta “estranha ditadura” e a crise do Coronavírus o mais rápido possível. O Brasil é tão bonito, eu já estive aí duas vezes. Vai ficar mais bonito e eu irei aí muito mais de duas vezes (a propósito, meu jogador de futebol favorito é Willian Borges da Silva!)

7. Você participou de um evento, em setembro/19, realizado pelo Instituto de Tradução de Literatura da Coreia, no Brasil. Foi sua primeira vez no país? Você teve alguma pré-concepção do Brasil antes de vir para cá? Pode nos descrever como foi sua experiência durante esse tempo? [Leia a matéria completa sobre o evento, clicando aqui]

Na verdade, essa não foi a minha primeira vez no Brasil. Quatro anos atrás, em 2016 eu fiz uma viagem por países da América do Sul com um amigo meu por dois meses. Naquela época, passei pelo Brasil e não tive tempo de vivenciar muita coisa, então decidi visitar o Brasil novamente. E no ano passado eu tive a chance de estar aí novamente da forma como eu sonhei. E vivenciei mais o Brasil.

Para ser honesto, eu tinha um pré-conceito muito positivo do Brasil antes de ir para aí, mas o Brasil foi muito melhor do que eu esperava. No Rio, vi uma natureza incrível e conheci pessoas da área literária e do ensino com muita experiência, como editores, escritores e jornalistas. Eles não são apenas profissionais, mas também tem um coração quente. Em Brasília, eu tive oportunidade de me comunicar com jovens brasileiros que amam a cultura pop coreana e querem ler meu romance. A energia deles me fez ficar mais enérgico. Então, mesmo que Brasília tenha uma aparência de desolação, na minha mente eu me recordo dela como uma cidade vívida e vigorosa.

São Paulo me lembrou Seul, minha cidade natal. Portanto, quando eu estive lá, eu me senti muito confortável. Eu chamo de “o conforto de uma cidade grande”. Para mim, o Brasil também é o país da DD (Diversidade Dinâmica)! Não apenas de DD, na verdade, mas DD com toques da humanidade. Gostaria de agradecer aos brasileiros por sua profunda consideração e hospitalidade, mais uma vez.

Kang Byoung Yoong, O Escritor Apaixonado Pelo Brasil [Entrevista]
Kang byoung yoong no evento em são paulo. Foto: mariana s. Brites/revista intertelas.

8. No Koreapost publicamos muitas matérias traduzidas de jornais coreanos e temos visto ultimamente, um grande aumento na literatura coreana sendo espalhada para o mundo. A que isso se deve, na sua opinião?

Sim, temos visto este grande aumento. Há três razões pelas quais a literatura coreana está se tornando popular. No início, era o interesse crescente pela cultura coreana. Fãs de K-Pop começaram a se interessar por outras áreas da cultura, como a literatura. E segundo, o esforço do governo coreano. O governo sabe que a caneta (conteúdo cultural) é mais poderosa que a espada (poder militar).

Assim, a LTI Korea (Literature Translation Institute of Korea) e a ARKO (Arts Council Korea) oferecem várias promoções culturais a fim de difundir a literatura e a cultura coreanas para o mundo. E, claro, em terceiro lugar, a Internet se tornou o divisor de águas.

Mas, pensando bem, não é suficiente. Ainda temos mais obras que são mais interessantes, que devem ser mais exportadas. Acho que a literatura coreana é ainda mais atraente que o K-Pop e/ou K-Drama e/ou K-Cinema.

Kang Byoung Yoong, O Escritor Apaixonado Pelo Brasil [Entrevista]
Kang byoung yoong. Foto: arquivo pessoal

9. Você acredita que há mercado para tradutores estrangeiros traduzirem livros coreanos para outras línguas? Você acredita que uma pessoa estrangeira pode aprender coreano o suficiente para fazê-lo?

Com certeza! Como mencionei anteriormente, temos muito conteúdo interessante, que deve ser mais exportado. Estou confiante de que para os leitores brasileiros a literatura coreana deve ser traduzida por tradutores brasileiros que entendam bem a literatura coreana. Penso que um conteúdo cultural, especialmente a cultura popular, deve ser produzido na mente orientada ao consumidor.

Eu acredito que os estrangeiros podem (e devem) aprender a língua coreana a fim de apresentar a pessoas que não sabem como a cultura coreana é incrível. Estou certo de que o governo coreano estará sempre pronto para ajudá-los e apoiá-los.

10. Que conselho você daria a um jovem estudante que está pensando em seguir seus passos como escritor ou que deseje ser tradutor?

A seriedade não ajuda em nada. Faça o que você ama. Quem tem sucesso na vida não é aquele tenta fazer algo para ser bem sucedido, mas aquele que faz o que gosta. O mundo é amplo e há muitas coisas interessantes. Por isso, encontre a coisa que seja mais interessante para você mesmo e curta fazer isso! É o meu conselho.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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