Um medo obscuro recobre a moderna Coreia do Sul, e não são as atrocidades cometidas pela Coreia do Norte, por incrível que pareça. Esse terror obscuro é muito mais consumista e muito mais industrial do que os horrores ocorrendo ao norte do Paralelo 38.

Esse terror é o vazio sem alma que surgiu pela perda de fé no Sonho Sul Coreano.  Surgiu da desconfiança na geração nascida nas décadas de 1940 e 1950, e no que foi construído por eles. Desconfiança na riqueza gerada por eles.  Essa onda de mal-estar é representada ao redor da atual e moderna Coreia do Sul, por meio de suas formas de artes mais representativas: música Indie, animação e quadrinhos online, roteiros de novelas de televisão e, mais importante, a literatura.

A onda de jovens autores sul coreanos que nasceram por volta de década de 1960, e atingiram a maioridade na década de 1990, são exemplos da obscura onda de depressão e desconfiança que assola o país.  Contudo, esse movimento está formando alguns dos melhores autores-psico-analistas da literatura.

Em 2012 o comediante e astro pop Psy fez com que o mundo se dobrasse à sua popularidade. Ele estourou com sua música sensação Gangnam Style, que obteve milhões de visualizações no Youtube e fez com que os engenheiros do Google no Youtube tivessem que reescrever seus códigos para suportar a Macarena moderna que era Gangnam Style.

Agora vimos esse fenômeno na literatura mundial, com a escritora Kang Han, assim como Psy, ela está arrastado milhões, só que no mundo dos livros. Aos olhos dos mais leigos ela representa a Coreia. Aos olhos dos romancistas, no entanto, ela é apenas uma escritora excelente.  Ela vê. Ela sente. Ela escreve. No vasto, vasto mundo literário não-coreano, ninguém lê Kang Han porque ela é sul coreana ou porque ela escreve em coreano.  As pessoas leem suas obras porque ela é boa.

Kang Han, nascida em 1970, cresceu em Gwangju e lembra em primeira-mão do massacre de ativistas democráticos em maio de 1980. Em sua obra de 2014, 'Human Acts' pode ser entendida como uma forma de cura nacional para a sociedade, já que lida com os traumas do passado.
Kang Han, nascida em 1970, cresceu em Gwangju e lembra em primeira-mão do massacre de ativistas democráticos em maio de 1980. Em sua obra de 2014, ‘Human Acts’ pode ser entendida como uma forma de cura nacional para a sociedade, já que lida com os traumas do passado.

Em “Human Acts“, publicado em coreano em 2014, e traduzido de modo cuidadoso para o inglês por Deborah Smith em 2016, Kang Han nos leva de volta ao massacre de ativistas democráticos pela ditadura em maio de 1980. É um romance terrível e de partir o coração sobre tristeza, insanidade, arrependimento e remorso.  A dor de uma sociedade – as dores de um povo ao lutar por sua democracia – são expostas abertamente nas páginas da autora.  Os leitores de recentes democracias, como Indonésia e Filipinas até o Leste Europeu e America Latina, teriam um entendimento maior sobre isso que ela escreve se comparado com leitores norte americanos, por exemplo.

Seu segundo romance em inglês foi lançado no mesmo momento em que sua primeira obra em inglês, The Vegetarian, traduzida em 2015 também por Deborah Smith, recebia o Prêmio Man Booker International em 2016. Esse golpe duplo – ganhar um prêmio internacional quando sua segunda obra é lançada – é o suficiente para garantir à Kang Han, fãs para o resto de sua carreira e, de fato, de sua vida.  Sua escrita é realmente boa.

Kang Han, filha de dois escritores bem-sucedidos e nascida no final da década de 1970, vivenciou o massacre de ativistas democráticos pela ditadura em maio de 1980. Ela foi criada em Gwangju. “Human Acts” começa com a cena aterrorizante sobre o custo da democracia: caixões para os ativistas em prol da democracia alinhados de modo cuidadoso e um grupo familiar em luto para cada corpo.

Usando uma cronologia flexível e criando seções que se passam em maio de 1980 e memórias de anos futuros, Kang Han escreve sobre o legado do massacre em diversas camadas e níveis da sociedade: um jovem voluntario, que é o sujeito do título coreano do livro “A Boy Comes” ou “The Boy’s Coming” (소년이 온다), acadêmicos, prisioneiros políticos e adolescentes. Seu estilo de escrita é, e deve ser considerado, único. Por “único“, queremos dizer chocante as vezes, pulando entre primeira, segunda e terceira pessoa. A tradutora fez um ótimo trabalho neste caso, já que é uma obra por inteiro. Não é um estilo tão agonizante depois de alguns capitulos, e os leitores aprendem a aceitar o padrão. Como a crítica literária, Pasha Malla, disse para o Globe and Mail, “… O livro é vívido e problemático, mas, como outras novidades que ganham fama, esses problemas técnicos não comprometem sua comoção…

"Humans Acts" foi lançado na Coreia em 2014 e traduzido para o inglês por Deborah Smith em 2016. Deborah também trabalhou com a obra anterior de Kang Han, "A Vegetariana", que ganhou o Prêmio Man Booker International quando seu segundo romance era lançado em inglês.
“Humans Acts” foi lançado na Coreia em 2014 e traduzido para o inglês por Deborah Smith em 2016. Deborah também trabalhou com a obra anterior de Kang Han, “A Vegetariana”, que ganhou o Prêmio Man Booker International quando seu segundo romance era lançado em inglês.

Na página 202, a autora inicia o último capítulo da história: “Epilogo: “A Escritora, 2013“. Ela explica as 200 estranhas páginas anteriores como um processo de reconciliação.  Ela tinha 10 anos de idade quando o massacre de ativistas pela ditadura ocorreu, em maio de 1980. O livro a descreve lidando com o evento. O livro a descreve lidando com o horror obscuro e aterrorizante que recobre a Coreia do Sul moderna, e no final, os que passaram por isso, sentem-se curados.

Em resumo, “Human Acts” de Kang Han parece estar mais do que aprovado. É um romance policial como os romances escandinavos Noir, é existencialista como Kafka ou Camus, é perturbador como Gabriel Garcia Marquez ou como Haruki Murakami. Não a leiam porque ela é sul coreana ou porque ela escreve sobre a Coreia.  De fato, isso nunca é uma razão para se ler um autor. Leiam suas obras porque ela é boa.

Excerto da Resenha do Livro Human Acts, feita por Gregory C. Eaves para o Site Korea.net


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