O movimento #MeToo, que estendeu-se à Coreia no ano passado e derrubou várias figuras proeminentes, revelou o lado disfuncional do país, particularmente nas relações entre homens e mulheres.

Ainda assim, existem muitas vítimas que não testemunharam abertamente sobre o que passaram.

Essas mulheres são vítimas de pais, irmãos, tios, primos e namorados abusivos e o confronto pode causar um duro golpe para outros membros da família.

O premiado livro de Shin Joong-sun, “A Maior Mentira: Estou Feliz em Viver como Mulher” (tradução livre), conta histórias de mulheres vítimas de abuso sexual que são forçadas a ficarem caladas.

O livro, escrito em coreano, é composto por sete histórias fictícias, trágicas e infelizes destacando, sempre, as personagens femininas.

No “Tempo de Jung-hee“, a jovem Jung-hee é estuprada por um dos amigos de seu pai. Ela não sabe exatamente quem é o agressor porque o ataque ocorreu à noite, quando ela era muito jovem e nunca contou a ninguém da família, muito menos ao pai. Para Jung-hee, tornar isso público poderia significar a perda dos amigos da família e o isolamento dentro da aldeia.

Nos casos de abuso sexual, os predadores são, principalmente, pessoas próximas“, disse a autora. Essa informação a levou a escrever sobre vítimas como essas. “Aqui, as mulheres estão na pior situação porque são forçadas a ficarem em silêncio. O movimento #MeToo é um sinal de progresso, mas isso não ajuda essas vítimas a se manifestarem“, disse Shin durante uma entrevista por telefone ao Korea Times.

Em “A mulher do karaokê“, a autora descreve a vida de uma mulher de meia idade que vive com sua mãe doente e canta em uma empresa de karaokê por dinheiro.

Ela sabe muito bem que seu corpo não é mais desejado por seus clientes do sexo masculino, mas sente-se aliviada por pelo menos sua voz ainda ser atraente“.

A personagem principal também foi abusada pelo namorado quando era jovem e como resultado, deu à luz em um banheiro público antes de descartar o bebê na lixeira. Assombrada pela culpa, a mulher tira uma boneca de uma lixeira pública e começa a cuidar dela como se fosse seu bebê abandonado.

O livro pode servir como um guia sociocultural sobre como as mulheres foram – e ainda são – tratadas na Coreia.

Embora tenham melhorado significativamente ao longo do século passado, as mulheres na Coreia ainda são degradadas pelos homens, e muitas vezes até por outras mulheres.

Quando a ex-presidente Park Geun-hye foi detida por acusações de corrupção, algumas mulheres mais velhas disseram abertamente: “foi um erro dar uma chance à mulher de liderar. Foi um grande erro“.

Sim, a Coreia é um lugar difícil para ser mulher.

The Biggest Lie” recebeu um prêmio do Arts Council Korea no ano passado. O livro custa cerca de 14.000 Wons e cópias estão disponíveis nas principais livrarias físicas e online.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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