Foto: koreanliteraturenow

“Quando eu era universitário, em 1988, houve a Olimpíada de Seul. Antes dos jogos, o governo removeu à força as favelas de toda a cidade. Os desabrigados não tinham para onde ir. Então, eles esticaram tendas para se abrigarem, e o governo tentou tirá-los do lugar de novo, porque estariam na possível rota da Tocha Olímpica, e, se os pobres fossem vistos (ou capturados por câmeras), seria uma vergonha para o mundo inteiro. Eles resistiram, colocando suas vidas em risco. Apanharam dos funcionários contratados pela Administração Pública, mas suportaram.

Ao final, disseram que iriam cavar a terra e se cobririam com os sacos plásticos para não serem fotografados… Começaram os jogos, e finalmente a Tocha passou em frente ao local. Os desabrigados penaram ali por seis meses… e o tempo gasto pela passagem da Tocha foi de 15 segundos…”, nestas palavras Park Min Gyu, escritor premiado sul-coreano explica as motivações que o levam a escrever.

Nascido em Ulsan, em uma pequena cidade na região sudeste da Coreia do Sul, em 1968, é bacharel pela Universidade Jung-Ang. Seu primeiro romance, “A lenda dos super-heróis do mundo”, rendeu-lhe em 2003 o Prêmio Munhak Dongne de autor estreante; no mesmo ano, ganhou o Prêmio Literário Hangyeore pelo livro “O último fã-clube da Sammi Superstars”. Recebeu, ainda, os importantes Prêmios Literários Yi Hyoseok (2007), Hwang Sunwon (2009) e Yi Sang (2010). Um de seus contos, “O mundo do Guaxinim”, foi incluído na coletânea de obras do Prêmio Literário Yi Sang de 2005, e outro, intitulado “Um cochilo”, foi adaptado para o teatro em 2010. Ele ainda é autor também dos romances “Ping-Pong” (2006), “Pavana para a princesa morta” (2009) e “A porta da manhã” (2010).

O autor esteve no Brasil este ano para a comemoração dos 60 anos do estabelecimento de relações diplomáticas com a Coreia do Sul, em uma iniciativa promovida pela Literature Translation Institute of Korea (LTI Korea), entidade governamental, ligada ao Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul, responsável por promover a literatura e a cultura coreana em todo o mundo. Junto com os autores Kim Ki Taek e Kang Byoung Yoong ele visitou o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Teve encontros com estudantes, colegas escritores, com jornalistas, críticos literários, blogueiros e outros profissionais especializados em literatura. O autor, com exceção do conto “Ah, Sim? Sou Girafa”, ainda não tem suas obras traduzidas para o português.

Foto: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Porém, neste curto texto literário já é possível observar características de sua escrita que a grande imprensa europeia destaca há certo tempo. Um estilo livre, que não se preocupa com regras gramaticais; um tom irônico, até sarcástico, mas sem ser agressivo; a presença de elementos surrealistas; e, acima de tudo, uma imensa preocupação em retratar, falar dos marginalizados pelo sistema econômico, ou melhor de como as relações sociais e os serem humanos transformam-se em puras mercadorias, ou tem menor valor que elas para a sociedade.

Neste conto, “Ah, Sim? Sou Girafa”, traduzido pela docente da Universidade de São Paulo, Yun Jung Im, a crítica a um modelo desenvolvimentista sul-coreano está presente na figura de um empurrador de pessoas que trabalha no metrô da cidade de Seul. Hoje uma profissão que não existe mais, o empurrador auxiliava a multidão a espremer-se nos vagões do trem. O protagonista é um jovem estudante do colégio técnico-comercial e nas férias divide o seu tempo entre dois a três empregos: em um posto de gasolina, uma loja de conveniência e posteriormente no metrô.

A sensação de sufocamento do personagem que acredita ser a vida em outros planetas, ou em outras galáxias, melhor que a da Terra. Afinal, ele está preso a um sistema que o utiliza como parte de uma engrenagem, sugando todo o seu potencial para lucrar, ou simplesmente garantir que a máquina do mercado continue funcionando. Com a crise econômica, a situação de sua família complica-se, fazendo com que seus integrantes tenham que focar suas atenções a pura sobrevivência.

Enquanto o jovem de família humilde sobrevive, seu futuro já está praticamente decidido e lhe parece bastante sombrio. Esta percepção ele tem ao observar a figura de seu pai. Um homem que vai definhando com a pesada carga horária de trabalho e com as responsabilidades que surgem, à medida que os problemas vão surgindo. Por fim, vê-se o desmantelamento do núcleo familiar em razão destas complicações econômicas.

Foto: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Ao invés de perseguir os seus sonhos, o jovem protagonista acaba mais interessado em resgatar sua família e manter-se vivo. A ironia crítica que expões a crueldade desta situação é simbolicamente representada por um planeta Terra que continua a rodar, um universo que continua a existir sem limites, ou regras. Neste contexto, qual seria a razão que leva os humanos a criarem um modelo tão explorador e a continuarem a viver nele, a o idolatrarem e acharem que nada melhor é possível?

São contestações que o próprio autor deixa claro como ocorreu em entrevista a autora deste texto. na ocasião ele salientou “a Coreia experimentou este crescimento estrondoso. Aquilo que um país em tempos normais levaria 200 anos para construir, a Coreia fez em 30 anos. Então este crescimento galopante também acabou por destruir muita coisa pelo caminho. Se em termos digamos externos alcançamos tantos feitos, internamente e individualmente muito foi retirado do cidadão para que isso possa ter ocorrido. E a minha vontade é de escrever sobre pessoas que foram excluídas e marginalizadas deste crescimento galopante”.


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