Squid Game/Round 6. Você sentiu que deveria experimentar esta série de sobrevivência gráfica, cheia de dívidas, então você assistiu, mas ainda sente que faltou entender alguma coisa? Bem, você não está sozinho.

Quer você ame ou odeie, há muito o que digerir nesta série de nove episódios da Netflix, desde sua narrativa visceral até seu retrato das nuances da vida coreana contemporânea. Apimentadas ao longo da série existem referências a eventos históricos e jargões políticos que colocam ainda mais ônus no público para entender a visão do criador Hwang Dong-hyuk.

Antes de mergulharmos, queremos deixar claro: Este guia vai servir melhor às pessoas que estão descobrindo dramas coreanos através do Squid Game. O público coreano e os fãs de longa data do gênero já entendem o contexto cultural e os “easter eggs” de que estaremos falando aqui.

Você pode até achar que a série é desanimadora e ofuscada por seus horrores distópicos. E tudo bem também! Esta é uma resposta comum também entre os telespectadores sul-coreanos.

E, precisamos enfatizar o seguinte – Squid Game não é e não deve ser considerada uma introdução à cultura e à sociedade sul-coreanas. Mas se você está se aventurando em histórias coreanas pela primeira vez e sentindo que você pode estar perdendo uma coisa ou duas, aqui está um guia rápido para te colocar a par do mais importante.

Quer entender melhor a série? Corre Aqui. [Semana Especial Squid Game/Round 6]
Foto: Netflix

A Coreia do Sul Endividada

Você acabou de assistir a primeira rodada de jogos — e tudo que você se lembra é a voz assombrosa da boneca “Batatinha 1, 2, 3…”. Então aqui está um lembrete gentil: O Squid Game fornece aos coreanos todos os dias, ou melhor, a 456 deles, a chance de ganhar um prêmio em dinheiro de 45,6 bilhões de won (cerca de US$ 38 milhões).

Desde o primeiro episódio, a série parece explorar a natureza universal da desigualdade econômica. Suk-Young Kim, que pesquisa cinema norte-coreano e leciona na UCLA, acredita que essa é a principal razão para o apelo internacional de Squid Game. “Ao longo dos anos, a Coreia do Sul desenvolveu um senso muito forte sobre expor a injustiça, e acho que tem muito a ver com a história do século 20 da Coreia que foi marcada pela luta e pela tragédia. E tendo visto a popularidade e a resposta crítica à Parasita, não me surpreende que este espetáculo, que aborda temas semelhantes de desigualdade social, críticas ao capitalismo e condição terrível da pandemia, tenha sido muito bem abraçado“, diz ela.

O trabalhador autônomo demitido Seong Gi-Hun (Lee Jung-jae) pode aparecer como um pai imperdoável e irresponsável, mas sua história atinge em cheio o coração do público coreano, mesmo aqueles em posições mais privilegiadas, que podem muito provavelmente conhecer alguém como Gi-Hun. “A maioria dos personagens esgotou seus meios de empréstimo, então eles têm que ir para empréstimos privados e, finalmente, para o tipo de empréstimo ilegal através do crime organizado“, explica Michelle Cho, que ensina cultura pop da Ásia Oriental na Universidade de Toronto. É resultado de desigualdades em diferentes cantos da vida, da educação, do emprego à moradia. E é uma questão mais profunda que não pode ser totalmente desembalada aqui — ou em uma série de TV de nove episódios.

Pontuação com um Propósito

A pontuação do Squid Game chama remete a jogos e músicas infantis sul-coreanas clássicas.

A pontuação meticulosa do Squid Game não é apenas tão marcante quanto seu visual, mas também presta homenagem a sons familiares aos ouvintes coreanos. A música clássica que toca ao fundo quando Gi-Hun é acordado na arena do Squid Game – O Concerto de Trompete de Franz Joseph Haydn – é a música tema de um quiz show para estudantes do ensino médio, que coloca os alunos uns contra os outros para uma chance de ganhar uma bolsa de estudos na faculdade. Composta e gravada pelo diretor musical da série Jung Jae-il, a faixa de abertura lúdica, porém crua, foi tocada no gravador, um instrumento ensinado em escolas públicas coreanas, para complementar cenas de jogos infantis.

Pontas Estreladas: Gong Yoo arrebenta em cada papel

O filme de zumbi de sucesso da Coreia do Sul, Train to Busan, que saiu no Brasil com o nome de Invasão Zumbi também é uma crítica contundente da sociedade coreana

Se o primeiro episódio de Squid Game é sua primeira experiência de k-drama, você pode ter se perguntado: “Por que esse vendedor psicopata também é insanamente atraente?” Bem, se você se vê hipnotizado por seu sorriso maligno, você está atrasado para o jogo. Um deleite raro de se ver em uma participação especial, Gong Yoo é um renomado ator coreano, mais conhecido por sua atuação no thriller zumbi Train to Busan. Se você está desejando mais, por favor, assista Goblin (também disponível na Netflix), no qual Gong Yoo interpreta um duende de 939 anos vasculhando a Terra por sua noiva.

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Gong Yoo em Goblin. Foto: Koreaboo

Sang-woo, Ssangmun-dong & SNU

Um pequeno detalhe deixado de fora na tradução, a cena que introduz a mãe do banqueiro de investimentos Cho Sang-woo (Park Hae-so) revela que sua loja se chama Sang-woo’s Fish Store. Nomear empresas depois dos nomes de seus filhos ou familiares é uma prática comum entre os proprietários de lojas de esquina coreanas. O nome reafirma o orgulho que a mãe de Sang-woo tem nele, assim como a pressão que ele deve ter sentido para não decepcioná-la.

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Gi-Hun e Sang-woo conversam sobre o passado. Foto: Netflix

Também vale a pena notar que Gi-Hun e Sang-woo são amigos de infância de Ssangmun-dong, uma das áreas menos desenvolvidas de Seul. O criador de Squid Hame, Hwang também cresceu neste bairro, onde muitas famílias ainda vivem em casas humildes, não reformadas – semelhantes às que você vê em Parasita – em oposição aos apartamentos altos que estão sendo reconstruídos em toda a cidade.

Ser aceito na Universidade Nacional de Seul, muito mais em seu programa de administração de empresas, marca um sucesso significativo para os estudantes coreanos do ensino médio. Como um estudante de destaque de uma pequena e apertada comunidade pobre, Sang-woo provavelmente enfrentou altas expectativas de todos, incluindo Gi-Hun, que ainda fala orgulhosamente do sucesso acadêmico de Sang-woo aos 40 e poucos anos.

O Banho Dramático de Sang-woo

Depois que ele comete fraude financeira e foge da polícia, vemos Sang-woo , ainda completamente vestido, bebendo soju na banheira. Um detalhe chave nesta cena é o briquette de carvão que está queimando no banheiro fechado: Briquetes de carvão já foram amplamente utilizados para aquecer casas coreanas, mas inalar sua fumaça pode resultar em morte por envenenamento por monóxido de carbono. Então, para ser franco: Não, Sang-woo não estava apenas ficando bêbado no banho; a coisa é mais sombria e na verdade, ele estava tentando acabar com a sua vida, antes de ser interrompido pela campainha.

Trabalhadores Estrangeiros na Coreia do Sul e o Sajangnim de Ali

O bondoso Ali Abdul (Anupam Tripathi) do Paquistão representa muitos trabalhadores migrantes de colarinho azul na Coreia do Sul, que experimentam racismo e exploração no local de trabalho. Os funcionários estrangeiros foram autorizados pela primeira vez a entrar na Coreia do Sul em 1993, quando o rápido desenvolvimento do país resultou em uma necessidade terrível de mão-de-obra na agricultura, construção e manufatura. Esses empregados industriais abusados de países do Sul e do Sudeste Asiático muitas vezes ficam sem maneira de retornar aos seus países de origem quando os empregadores apreendem seus passaportes e documentos legais.

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O paquistanês Ali, representa os estrangeiros asiáticos maltratados na Coreia. Foto: Netflix

Em Squid Game, Ali inicialmente se refere a Sang-woo como sajangnim em coreano, o que se traduz para presidente da empresa. Sajangnim hoje é mais comumente usado como um título para um novo conhecido, tipicamente um homem mais velho, como um sinal de respeito – como chamar alguém de “chefe” em inglês. Como alguém que está na parte inferior da escada social, Ali é logo corrigido por Sang-woo, que pede para ser chamado de hyung, um título referindo-se a um irmão biológico mais velho ou um homem mais velho de quem você é amigo (lembrando que a Coreia tem essa cultura de “onoríficos” totalmente presente em seu dia a dia).

O conceito de amizade tem qualificações muito específicas na Coreia do Sul, limitadas às relações entre as pessoas da mesma idade, então Ali chamar Sang-woo de hyung representa a relação mais próxima que ele provavelmente alcançará, com uma figura de irmão mais velho.

Demissões da Ssangyong Motors: O Flashback de Gi-Hun

Em resposta ao violento free-for-all, em que os jogadores se voltam uns contra os outros, Gi-Hun vê flashbacks de brutalidade de sua vida fora dos jogos. Essas visões em transe, de seu colega de trabalho, que permanecem inexplicáveis na tela, são cenas que retratam a greve da Ssangyong Motors em 2009, que resultou em policiais invadindo a fábrica e espancando membros protestantes do sindicato.

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Trabalhadores em greve da Ssangyong Motor Co. ocuparam a fábrica de automóveis em Pyeongtaek, Coreia do Sul em 2009. Foto: Lee Jin-man

A greve de 77 dias foi organizada em resposta à decisão da empresa de demitir mais de 2.500 funcionários, ou quase metade de sua força de trabalho. Como explicado por Michelle Cho, “A história da Ssangyong Motors envolve a mudança de propriedade da empresa de propriedade coreana para chinesa e para a indiana. Nesse tipo de mobilidade do capital global os trabalhadores são considerados como ativos da empresa e são facilmente descartados.”

Os Nomes Sae-byeok e Ji-yeong

Vários jogadores no jogo elogiam o nome da desertora norte-coreana, Sae-byeok, que é a palavra coreana para amanhecer. Outro nome notável é o companheira otimista de Sae-byeok, Ji-yeong (Lee Yoo-mi). Ji-yeong é um dos nomes mais comuns entre as mulheres coreanas na casa dos 20 anos, que remonta à sua história de vida como uma adolescente comum cuja vida foi virada contra ela depois de matar seu pai abusivo.

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Sae-byeok e Ji-yeong. Foto: Netflix

Outra “ponta estrelada”: Lee Byung-hun escondido numa máscara

Você pode vê-lo apenas uma vez, mas o inimitável Lee Byung-hun, que interpreta o gerente do jogo, é reconhecível ao público coreano apenas pela voz. Como uma homenagem para o ator, Ji-yeong cita a linha icônica de Lee no thriller Inside Men de 2015, dizendo “Vamos tomar um mojito nas Maldivas” para Sae-byeok (Jung Ho-yeon) quando esta última admite que sonha em usar o dinheiro do prêmio para viajar para a Ilha de Jeju com sua família.

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Lee Byung-hun. Foto: Screen Rant

Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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