Ser um cantor de K-pop abertamente gay fez com que Holland tivesse todos os olhos sobre ele, mas ele quer provar que é mais do que apenas sexualidade.

Duas semanas atrás, Holland postou no Twitter (@HOLLAND_vvv) um pequeno vídeo acendendo velas em seu bolo de aniversário, enquanto agradecia aos fãs que são conhecidos como “harlings”. Houve uma festa de aniversário nos bastidores?

Foto: Twitter, Holland @HOLLAND_vvvNa verdade não. Ele trabalhou durante todo o dia em seu aniversário e teve uma pequena reunião com sua equipe para discutir principalmente o trabalho, disse na entrevista ao The Korea Herald. Mesmo no caminho até o escritório do Herald, ele filmou e compartilhou um vídeo de si mesmo fazendo um sinal de paz no táxi para os fãs.

Aos 23 anos, ele parece ter jeito com mídias sociais – encontrou fãs em todo o mundo e lançou músicas que são apreciadas globalmente – tudo isso sem a ajuda de uma agência.

Foto: Twitter, Holland @HOLLAND_vvv, no caminho para a entrevista com o The Korea Herald

Desde sua estréia em 2018, muitas coisas aconteceram. Ele agora está se aproximando de seus pais – que o amam como sempre – conseguiu financiar com sucesso seu novo mini álbum auto-intitulado – que será lançado em 31 de março – e planeja embarcar em uma turnê mundial este ano.

Em quase uma hora de entrevista ao The Korea Herald, Holland compartilhou sua vida pessoal, sua experiência como cantor gay navegando através da indústria altamente heteronormativa de K-pop,suas visões sobre os direitos LGBTQ e comentou até sobre o grupo BTS.

Aqui está a transcrição completa da entrevista:

Como surgiu o seu nome “Holland”?

Holland: Bem, ‘Holland’ (Holanda) é outro nome para ‘Países Baixos’, que foi o primeiro país a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Enquanto eu pensava em qual nome combinaria com o meu single de estreia, “Neverland”, pensei no país e decidi que seria Holland.

Você recentemente esteve no Reino Unido. Como foi?

Holland: Eu fui para lá a trabalho. De alguma forma, acabei fazendo parte de uma campanha publicitária de um produto (perfume) com outras celebridades que trabalham com o orgulho (gay) em todo o mundo. Estou muito honrado por ter participado.

Você também conheceu o jogador de futebol Son Heung-min enquanto estava lá?

Holland: Haha Ah bem, eu não o conheci pessoalmente. Eu tinha acabado de fazer compras com a equipe de produção e eles me disseram que trabalharam com Son Heung-min para um anúncio na semana anterior. Então nos conhecemos de forma aleatória. Eu sou seu fã e quando fizemos contato visual, perguntei educadamente se poderíamos tirar uma foto juntos. Foi tudo uma coincidência. Eu amo futebol.

Você ainda está estudando na universidade?

Holland: Eu tirei uma licença da universidade mas agora estou chegando no ponto de repensar a minha escolha. Para ser sincero, acho que estou desistindo, porque não tenho planos de voltar. Tem sido quase impossível fazer as duas coisas (estudar e fazer música).

Foto: cosmopolitan, Holland
Você não tem uma agência representando você. Como é trabalhar de forma independente?

Holland: Eu preparei minha estreia sozinho desde o começo e continuei assim. Agora, as coisas ficaram maiores e estou trabalhando com ótimas pessoas. Há uma empresa de turismo chamada “MyMusicTaste”, através da qual os fãs podem solicitar uma turnê mundial de seus artistas favoritos. Quando eles se ofereceram para fazer minha turnê eu disse, realisticamente – não tenho nada, nem agência nem estúdio. Agora eles estão me ajudando a sair em turnê. 

Eu tive várias reuniões com agências. Mas quando trabalhei sozinho por um ano, aprendi coisas, percebi que tenho talento e um fandom. Eu não sou adequado para o sistema típico de agências de entretenimento. Há desvantagens ao assinar um contrato principalmente por eu ser novato. Mas eu acredito em mim mesmo para fazer as coisas bem sozinho e acho que aprendi muito enquanto fazia isso. Acho que estou em uma situação em que posso conhecer pessoas das quais preciso e trabalhar em conjunto. Eu não sei o quanto devo dizer neste momento, mas como artista, quero criar um novo tipo de agência com as pessoas em quem confio. Será mais parecido com o de uma gravadora nos EUA.

Quando podemos esperar sua turnê mundial?

Holland: Esperamos que aconteça ainda este ano, depois do verão. Estou planejando visitar o maior número de países possível.

Você já foi tratado injustamente ou sofreu discriminação por causa de sua sexualidade?

Holland: As agências com as quais falei antes da minha estreia me disseram para não divulgar. Depois que eu saí e debutei, isso não era mais um problema. Eu não acho que eu estava em desvantagem no que diz respeito às condições do contrato porque eu era gay. Uma coisa que eu acho lamentável são os termos nos quais os contratos com ídolos são assinados na Coreia do Sul. Eles são jovens com seus próprios sonhos, visões e ideias, que são, na minha humilde opinião, muitas vezes ofuscados pelas opiniões de suas agências, que são muito mais poderosas. Eu tive ofertas de agências, mas sabia que iríamos nos confrontar e as pessoas ao meu redor que realmente se importam comigo na indústria do entretenimento me encorajaram a fazer isso sozinho. Eu acho que sou muito diferente para o típico sistema de agências de entretenimento da Coreia.

Você financiou seu single de estreia e o vídeo e eles eram de alta qualidade. Como você conseguiu recursos financeiros para tal?

Holland: Honestamente, eu não acho que meu single de estreia (Neverland) tenha sido de alta qualidade. Eu usei o dinheiro que economizei do trabalho em tempo parcial para financiar o videoclipe para torná-lo o menos barato possível. Eu persuadi a equipe de filmagem para fazer algo novo e a equipe até perdeu dinheiro e investiu em mim.

Acho que acharam o trabalho divertido e interessante. Musicalmente, como sou estudante do Instituto de Artes de Seul, consegui ajuda das pessoas que conheço. Eu não tinha profissionais para me ajudar com canto ou produção, então eu pessoalmente acho que a qualidade poderia ter sido melhor. Mas posso dizer que fiz o meu melhor dentro das minhas capacidades, então não tenho arrependimentos.

Foto: i-d.vice, Holland
Seus vídeos de música estão bem por aí. O que você pode dizer sobre isso?

Holland: Eu percebi que preciso aprender mais sobre questões LGBTQ depois da minha estreia. Mesmo sendo gay eu tive pouca chance de conhecer outras pessoas de minorias sexuais. Pensei muito nisso já que muitos dos meus fãs são de sexualidades e orientações diversas e muitas pessoas se sentiram apoiadas por mim. Em “I’m Not Afraid”, você vê drag queens, pessoas de diferentes raças e diferentes identidades de gênero. Eu queria dar mais exposição a essas pessoas, mostrando que eles podem se misturar livremente.

“I’m Not Afraid” foi mais intenso do que “Neverland” em termos de representação LGBT.

Holland: Claro. Não houve cena de beijo a princípio no vídeo “Neverland”. Mas depois que ouvi que uma cena de beijo (entre dois homens) daria ao vídeo uma nota-R, achei irônico e disse (ao pessoal) que precisaríamos da cena. Em segundo lugar, eu não queria que o tema geral fosse sombrio no começo. Na Coreia, a comunidade LGBTQ é retratada sob uma luz escura e como uma questão social. Mas minhas experiências românticas foram brilhantes, jovens e bonitas, então eu queria mostrar esse lado.

Conte-nos sobre o seu novo álbum e identidade musical daqui para frente.

Holland: Eu já filmei o novo videoclipe no Vietnã. Eu tenho muitas ideias para novas músicas. Por enquanto, eu estou aderindo a sons da moda que eu posso entregar completamente e os fãs podem desfrutar incluindo o novo álbum. Eu sou um cantor de K-pop e será uma mistura de gêneros que eu e meus fãs curtimos. Comparado ao meu trabalho anterior, você verá um conceito mais claro em todo o vídeo, na arte da capa e nas letras. O diretor (do novo vídeo) e eu, concordamos que os ídolos do K-pop estão sempre perfeitos até mesmo quando aparecem acordando. Nós dois queríamos algo mais natural, que combina com a mensagem de amor-próprio da música. Eu só queria mostrar meu lado natural.

O que você acha do rótulo “Primeiro ídolo K-pop abertamente gay”?

Holland: Eu realmente amo o título. Eu sou um artista, mas também um ídolo, o que significa que as pessoas podem me admirar e amar no sentido literal. Enquanto faço música, sei que posso ajudar as pessoas a curar suas cicatrizes, mas também é um processo de mão dupla com meus fãs. Eu posso ser um pouco diferente de outros ídolos, pois sinto que sou mais um amigo do que um ídolo, o que faz com que eu e meus fãs sejamos mais conectados.

Quando você se assumiu pela primeira vez?

Holland: Embora meus amigos mais íntimos soubessem, meus pais não souberam até meu debut. Não foi fácil. Eu ainda acho difícil, embora eu não tenha arrependimentos. Meus fãs me ajudam a superar as mágoas do passado, especialmente quando do tempo de escola. Mesmo eu não tendo tido nenhuma experiência negativa de forma direta, há sempre pessoas em algum lugar, comentários online ou a mídia falando sobre nós (gays) de uma certa forma que pode ser prejudicial.

O que você acha da lacuna entre a estética neutra de gênero do K-pop e sua narrativa heteronormativa?

Holland: Na minha opinião, o amor entre pessoas do mesmo sexo é fantasiado na indústria do K-pop, mas quando se trata de abordar as questões de forma real, pode ser muito sensível e conservador, o que é muito “irônico”. Eu tentei ver essas coisas positivamente.

Foto: Twitter, Holland
O que você achou do discurso da BTS na ONU?

Holland: Eu fiquei pessoalmente grato. Acho que não é fácil para um dos grupos mais representativos da Coreia dizer essas palavras. Eu acho que foi legal, mais do que qualquer coisa, que alguém em sua posição, com sua influência em tal ocasião, decidisse dar esse discurso. Isso me fez um grande fã. Eu acho que eles estão indo bem por causa de sua mensagem geral de positividade, com seus álbuns e discursos. Não me lembro do discurso, palavra por palavra, uma vez que já faz algum tempo, mas tenho a certeza de que existem muitos LGBTQ entre os seus fãs e penso que isso ajudou-os a se sentirem apoiados.

Como é viver como gay na Coreia?

Holland: Atualmente, estou cercado de pessoas nas artes, muitas das quais são de fora da Coreia, pessoas que moram no exterior e pessoas familiarizadas com a comunidade LGBTQ, então não é mais tão difícil hoje em dia. Mas ainda assim, quando encontro pessoas novas, como artista, e acho que as coisas correram bem, ainda duvido de mim mesmo quando vou para casa e penso: “O que eles pensaram de mim?” E fico um pouco estressado, mas acho que isso é um reflexo das dificuldades que experimentei até agora. Espero que as coisas mudem para melhor.

Você disse que seus pais não sabiam que você era gay em uma entrevista no ano passado. Como foi se abrir para eles?

Holland: Meus pais me amam e me apoiam. Eles estão realmente muito orgulhosos de seu filho celebridade (risos). Eles sabem que eu trabalho duro sozinho, então eles confiam em mim. Eles são profundamente apaixonados um pelo outro e vivem juntos e felizes.

Confira o M/V de Neverland, o single de debut do Holland:


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