Treinamento militar e vigilância constante dos fãs criam uma cultura implacável de perfeição na música pop coreana – mas os megastars Monsta X estão tentando retomar o controle

O calor e o caos organizado te atingem como um soco. O camarim sem janelas em um dos principais estúdios de TV de Seul não é muito maior que um quarto duplo, mas está lotado com 11 funcionários e os sete integrantes do grupo de k-pop Monsta X, que estão promovendo seu novo single: o sedutor e dramático ‘Jealousy’. Os vocalistas Shownu, Kihyun, Minhyuk, Hyungwon e Wonho, e os rappers Jooheon e I.M, agora são “ídolos” experientes, como as estrelas do k-pop são chamadas, e não se atentam a essa falta de espaço. Dentro de uma cultura aos mais velhos, ganha-se um camarim; até recentemente, eles estavam em uma sala comunal com outras equipes jovens (conhecidas como “rookies”) com frágeis divisores de privacidade.

Wonho, 25 anos, cuja risada contagiante tem uma intensidade pensada, está praticando movimentos de dança enquanto Shownu de 25 anos, de fala suave, líder do Monsta X, cujo dever é “guia-los na direção certa e mantê-los afiados”, pergunta se nós comemos. Kihyun com cabelos vermelhos, de 24 anos, traz o americano gelado. Eles estão sem dormir de uma viagem para a cidade no sudeste de Ulsan no dia anterior, onde se apresentaram debaixo de uma tempestade em um programa de TV. Filmagens dos fãs mostram Kihyun caindo, mas ele dá de ombros. “Desde nosso debut nós passamos por situações assim. Eu sabia que ia escorregar. Na minha cabeça eu estava: ‘Coreografia! Coreografia!’, e então eu passava para o próximo movimento. Não é algo para se envergonhar.

As canções hiper-produzidas e a perfeição visual do k-pop tiveram um recente boom de interesse global, liderado pela boyband BTS, cujo fenomenal sucesso cruzou os EUA e a Billboard Hot 100, e cujos tweets são compartilhados centenas de milhares de vezes; eles acabaram de reservar duas noites na O2 Arena, em Londres, em outubro. Mas as câmeras dos fãs coreanos, que postam on-line cada minuto da vida pública de um ídolo, revelam uma existência extenuante. O k-pop pode parecer uma fábrica, ídolos desamparados ao invés de artistas, e o estresse e a fadiga são muitas vezes os holofotes: Seo Minwoo, 33 anos, do grupo 100%, morreu de um ataque cardíaco em março, enquanto um integrante do grupo Shinee, Jonghyun, lutando com a depressão, tirou a própria vida em dezembro passado.

Os senhores Suh e Shim, diretores executivos da agência do Monsta X, a Starship, fazem o treinamento de ídolos – quando o talento é aprimorado e novas habilidades são desenvolvidas – entre cinco e sete anos. O objetivo dessas estrelas é ser colocado ao lado de outras em um grupo fabricado, e depois “debutar” como um produto acabado; O Monsta X foi formado em 2015, depois que integrantes em potencial foram escolhidos em um reality show chamado No.Mercy. “O entretenimento coreano é um dos trabalhos mais difíceis por aí”, dizem Suh e Shim. “Os trainees são escolhidos nas ruas e nas audições e aprendem que há diretrizes e coisas das quais precisam abrir mão. Todo mundo está correndo em direção ao mesmo objetivo: estrear”. Nenhum trainee tem a garantia de debutar e Shownu trocou de agência (“foi um pouco doloroso”) para ter uma maior chance de ser escolhido para um grupo.

Da esq. pra dir.: Kihyun, Shownu, Hyungwon, I.M, Wonho, Jooheon e Minhyuk

Cada agência define suas próprias regras, mas telefones celulares ou relacionamentos românticos são proibidos como padrão; o Monsta X diz que eles abandonaram seus telefones quando eram trainees e ainda durante quase dois anos após seu debut. Minhyuk, de 24 anos, viu isso como um “inconveniente”, e Hyungwon, também de 24 anos, um autoproclamado introvertido de cabelo rosa e um senso de humor irônico, diz que só agora ele entende as intenções da Starship em remover distrações externas. Mas Jooheon, de 23 anos, lembra que se sentiu “enjaulado durante o treinamento. Não houve liberdade. Pelo menos quando você debuta, você experimenta coisas novas”.

Seus primeiros singles, ‘Trespass’ e ‘Rush’, trouxeram uma sólida base de fãs, conhecida como Monbebe. Eles regam o Monsta X com roupas, brinquedos, lanches e cartas antes dos shows e nas sessões de autógrafos, onde os fãs conversam com cada integrante, muitas vezes de mãos dadas com o seu favorito. Para o cínico, pode ser um truque de marketing genial, mas essas reuniões desenvolvem um vínculo emocionalmente simbiótico exclusivo ao k-pop – em uma indústria difícil, os fãs são, diz I.M, uma “fonte de força”.

I.M: “Eu me preocupo em cometer erros, mas sinto que ser um ídolo é natural para mim.”

O mais novo aos 22 anos, I.M, tem a cautela de um adulto por passar seus anos de formação na frente de câmeras, onde o menor erro pode trazer críticas públicas prejudiciais à carreira. “Eu me preocupo em cometer erros, mas sinto que ser um ídolo é natural para mim”, diz ele. “Eu gosto de ter regras? Às vezes sim, às vezes não, mas isso é a vida real e eu estou bem com isso.

A Starship inegavelmente governa o Monsta X. Os grupos ídolos, com poucas exceções, têm pouco poder, mas nos últimos anos um número começou a exercer algum controle criativo. O Monsta X também está se esforçando para alcançar um nível de autonomia. I.M canaliza material solo e os raps em suas faixas, assim como Jooheon, e várias das músicas pop emotivas do Wonho vão para os álbuns do Monsta X.

Wonho de arrumando

Jooheon revela dúzias de frases inspiradoras em seu telefone e diz que ele freqüentemente pasa o dia com três horas de sono. “Eu me sinto desconfortável se não faço uma música todos os dias“, diz ele, mas ele e I.M foram capazes de lançar apenas alguns singles solos. O grupo mora junto em um apartamento desordenado, mas cada um tem um pequeno estúdio onde eles podem criar. “Eu faço tudo lá – comer, gritar, chorar, rir, assistir filmes. É meu playground”, Jooheon sorri.

Esse intervalo é crucial; a agenda de um ídolo é destruidora. Entrevistas, rádio, show de variedades, fanmeetings e shows de música tomam fácil 18 horas por dia. Não há nenhum interruptor quando eles estão além da segurança de seu camarim, mas há uma atmosfera familiar dentro desses limites; eles comem alegremente juntos, brincam ruidosamente e descansam quando possível – Wonho cochila apesar dos secadores de cabelo ao redor dele, Minhyuk dorme tão profundamente que leva cinco minutos para acordá-lo. “A carga de trabalho pode às vezes ser demais, mas precisamos crescer. É bom estar ocupado”, diz Wonho. Kihyun, rindo, diz: “É o nosso terceiro ano. Isso está no meu sangue”. Os fãs o chamam de “mãe” do Monsta X, embora ele se refira a si mesmo como a “polícia, mantendo o Monsta X na linha”. Mas ele é feliz. “Estou fazendo algo que amo, estou ganhando dinheiro e não sinto que tenha sacrificado muito.”

‘Uma fonte de força’: Monsta X encontrando os fãs.

Para outros, a vida de ídolos é desafiadora. “Eu costumava gostar de estar perto de pessoas, mas agora eu preciso de espaço“, diz Hyungwon. Minhyuk é uma bola de energia, mas debaixo disso há uma pungência. “Eu não sou um ídolo pela fama, apenas gosto de me apresentar“, diz ele. “Eu não gosto de sair porque não gosto de gerar fofocas, então já faz quase dois anos que eu não bebo com meus amigos. Às vezes eu me sinto sozinho.”

Mesmo com o alarmante suicídio de Jonghyun, problemas de saúde mental na Coreia do Sul nem sempre são tratados corretamente, nem compreendidos pela indústria ou pelo público, mas Kihyun diz que está melhor do que era. “Quando os artistas dizem que vão descansar, a reação é: ‘Por favor, descanse antes que piore‘”. Shim, da Starship, diz que eles “monitoram a saúde mental de todos os trainees e ídolos. Se sentimos que estão emocionalmente em dificuldades, sugerimos que consultem um terapeuta e trabalhem com eles para descobrir como melhorar.”

Shownu, líder do Monsta X

Os grupos de k-pop mais bem sucedidos existirão de cinco a sete anos, e os ídolos costumam migrar para apresentar programas ou atuar em dramas, com alguns encontrando sucesso solo. Mas grupos masculinos enfrentam o serviço militar compulsório de dois anos da Coreia do Sul e a ameaça de declínio da carreira ao retornar a vida civil. Como resultado, Shownu adotou uma abordagem diária para o Monsta X. “Eu costumava pensar: eu sou capaz de ganhar a vida com isso?” Ele diz. “Havia grupos que debutaram ao mesmo tempo que nós, mas não estávamos no mesmo ritmo. Agora eu sinto que não devo ser pressionado – é mais sobre a longevidade como um grupo.

Após a sua turnê mundial, o Monsta X pode ter outro lançamento antes do final de 2018. Se eles tivessem controle total, o que eles criariam? Minhyuk responde rapidamente com “algo como Trespass, um banger“. Hyungwon manteria a sensualidade de ‘Jealousy’, mas “eu adoraria misturar isso com um visual mais casual“, mas é Shownu quem os ancora e reforça simultaneamente. “Não importa qual música nós façamos“, diz ele do outro lado da sala, onde está observando em silêncio. “Sexy, suave ou forte – se o Monsta X estiver fazendo isso, será o nosso estilo.

Adendo: Aqui no Brasil, o Monsta X se apresenta no dia 12 de Agosto. É a primeira vez do grupo no país! Fique ligado no Koreapost para saber mais detalhes!!


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