Com suas letras de desabafo, produção extensiva, crédito nas composições e ética no trabalho, Suga é uma peça chave na alma artística e coletiva do BTS. Em abril, ele deu uma entrevista na sede da agência HYBE, vestindo uma touca cinza, máscara branca e uma jaqueta preta. Falou sobre sua batalha contra a depressão, o processo de composição e de como se mantem motivado mesmo depois de conquistar o mundo.

Você operou o ombro no fim do ano passado. Acredito que seja uma lesão da época em que era trainee. Como você está se sentindo?

Muito melhor. Ainda estou fazendo fisioterapia, mas está muito melhor. E sim, eu tive essa lesão num acidente quando eu tinha 20 anos e foi piorando ao longo do tempo, então a recomendação médica era de fazer uma cirurgia. Felizmente, teve uma brecha na agenda e assim, eu pude fazer esse procedimento.

Impressionante como você esteve fazendo as coreografias por todos esses anos mesmo com o ombro lesionado. Como você administrou isso?

Um ano antes da cirurgia, eu estava me tratando, tomando injeções quase que mensalmente. Mas tinha época em que eu não conseguia levantar meus braços ou me movimentar no meio do show. Então, o problema não era a dor. Era mais se eu seria capaz de continuar fazendo as coreografias. Quando você está no palco, por causa da adrenalina e tal, você não sente dor. Você sente no dia seguinte, que é quando você sente dor ou desconforto e não consegue mais levantar seus braços.

Suga Abre O Coração Para A Rolling Stones
Suga na sessão de fotos para a revista rolling stones. Fonte: rolling stones

Eu amo a música “First Love”, que fala sobre sua paixão pelo piano e pela música. A letra sugere que seu amor pela música é também uma fonte de tormento. Como que isso acontece?

Quando eu estava trabalhando na música “First Love”, eu queria expressar diferentes emoções, porque o primeiro amor não traz só coisas boas. Há as coisas amargas também. Então eu estava falando com o Mr. Bang sobre juntar a metáfora do primeiro amor com o primeiro momento em que eu tive contato com a música. O alvo do amor é o piano, mas poderia ser qualquer coisa – uma amiga, ou qualquer outra entidade. Então, eu queria mostrar as emoções.

Você é bem aberto nas letras sobre depressão e outras dificuldades. Como você está agora?

Eu estou confortável agora e me sentindo bem, mas esses tipos de emoções negativas vão e voltam. É como o tempo frio. Ele volta num ciclo ao longo de um ano, um ano e meio. Mas quando eu ouço as pessoas dizerem que quando ouvem minha música, se sentem confortáveis e consoladas por aquelas letras que expressam essas emoções, isso me faz sentir bem. É muito encorajador. Eu acho que, para qualquer um, essas emoções não são algo que precisa ser escondido. Elas precisam ser discutidas e expressadas. Qualquer emoção que eu possa estar sentindo, eu estou sempre disposto a expressá-las, tanto agora quanto antes.

Você escreveu muitas músicas para o BTS, muitas músicas sobre você, e muitas músicas para outras pessoas. Qual é o seu processo de escrever letras?

O processo é realmente diferente para cada música. Às vezes pode ser uma palavra que aparece e eu acabo trabalhando nela, ou alguém que faz um pedido explicando como gostariam que a música fosse desenvolvida. Frequentemente, decidimos um tema e então trabalhamos livremente a partir de um tema mais amplo. Mas geralmente, quando trabalhamos numa música, eu crio a batida primeiro e então a melodia e o rap, e por último na letra. Eu geralmente trabalho assim.

Suga Abre O Coração Para A Rolling Stones
Bastidores da sessão de fotos. Fonte: rolling stones

Como estão seus treinos no violão?

Agora que meu ombro está melhor, eu voltei a tocar violão. Eu tenho tocado músicas de outras pessoas para treinar, e estou ansioso para, no futuro, ser capaz de cantar e tocar violão ao mesmo tempo. É nisso que estou trabalhando.

Na música “Dope”, o seu refrão fala sobre sua juventude estar apodrecendo no estúdio. Você se arrepende disso?

Eu não tenho nenhum arrependimento em trabalhar no estúdio. Aqueles dias e aquele tempo me permitiu ter as oportunidades que eu tenho agora e hoje. Então não tenho nenhum arrependimento. Mas às vezes eu penso, “Por que eu tenho que ficar tanto tempo no estúdio?” (risos) Por que eu não faço as coisas mais rápido? Eu tenho aquele pensamento de trabalhar duro e focado. Por que eu não me permito descansar ou refrescar a mente um pouco? Eu penso sobre isso.

Você, RM e o J-Hope tem papos de duplos e triplos sentidos e também outros jogos que pessoas que não falam coreano não entendem – as traduções não ficam boas. Não é frustrante que alguns de seus fãs estrangeiros não entendam?

Cresci ouvindo hip hop e pop americano e meu inglês não era muito bom. Então eu lia as letras e traduzia as letras. E obviamente, o que nativos em inglês podem considerar palavras chaves, versos chaves e piadas, eu não entendia porque era intrínseco da língua.

E eu acho que é uma parte inevitável da barreira linguística. Eu acho importante tentar achar um equilíbrio para que pessoas de ambas as línguas e culturas possam entender. Então, tentamos escrever letras para achar esse equilíbrio, que possa ser entendido por pessoas que falam outras línguas.

E também, como eu estou estudando inglês, estou tentando me familiarizar com isso. Então se conseguirmos fazer com que tanto os que falam coreano quanto os que falam inglês consigam entender a letra, será ótimo. Mas de novo, isso de não entender duplo sentido é algo que eu também vivencio.

Suga Abre O Coração Para A Rolling Stones
Capa da rolling stones, edição de junho de 2021. Fonte: rolling stones

Há uma história que seus pais não gostavam que você fizesse rap e que eles até rasgaram suas letras. Como isso afetou você?

Meus pais não entendiam o rap. Eles são de uma geração diferente da minha, e eles nunca ouviram rap. Não fazia parte das músicas que eles ouviam. Então, é natural que eles fossem contra o que eu estava fazendo. E, claro, ser músico é uma profissão muito instável também. Então eu entendo perfeitamente o porquê meus pais eram contra. Mas eu acho que me motivou e me ajudou a trabalhar mais, porque havia algo que eu tinha que provar. Eu tinha que mostrar pros meus pais que era possível. Então isso me motivou a trabalhar ainda mais.

Depois de tudo o que o BTS alcançou, como você se mantém motivado?

Eu sou daquelas pessoas que acredita que não só as pessoas mudam, mas que as pessoas devem mudar. Mas eu também acho importante manter esse desejo de melhorar sempre. Lembro que quando estávamos em busca do sucesso, costumávamos definir rotinas para nós mesmos, e isso acaba sendo incorporado, mesmo se você muda como pessoa.

Eu acho que ainda podemos sonhar com as coisas que costumávamos falar quando ainda estávamos no processo de busca, para mantermos aquela ética ao trabalho e estar sempre motivados, mesmo que tenhamos mudado e desenvolvido como pessoa. Agora, ao invés de motivados, eu acho que estamos super motivados. Furiosos e famintos. (risos). [Aqui, ele fez uma jogada de palavras em inglês, comparando a palavra Angry com Hungry, pois foneticamente soam parecidos].


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