Imagem Pública do Exército. Meramente ilustrativa. Fonte: CNN

O Koreapost entrevistou um coreano residente no Brasil, que precisou voltar para a Coreia para prestar o serviço militar obrigatório. Numa época em que tanto se fala sobre o desejo de mudança no sistema militar, na sua obrigatoriedade apenas para homens e na isenção do mesmo para atletas e artistas, vamos ouvir a experiência de um cidadão comum, nas Forças Armadas Coreanas.

A Experiência De Um Coreano Do Brasil No Exército Da Coreia
Luiz kim, já de volta à são paulo. Foto: arquivo pessoal

Coreano de nascimento Kim Yoon Kyu (conhecido no Brasil como Luiz Kim), reside no Brasil há 11 anos. Em decorrência da obrigatoriedade do serviço militar coreano ele teve que passar um tempo no país natal. Vejam o que Luiz conta, sobre sua experiência:

1. Por favor, primeiramente, fale um pouco da sua história, de sua família, sobre quando vieram para o Brasil, etc.

Resposta: “Vim para o Brasil com a minha família em 2010 quando ainda era uma criança. Morávamos em Seul, eu nunca havia saído de lá! Viemos para o Brasil, porque um amigo do meu pai morava aqui há anos, ele trabalhava no ramo da moda, então minha família também começou a trabalhar com isso. Tivemos lojas de roupas no Bom Retino e no Brás. Quando chegamos aqui, eu não falava nada de português, então sofri bastante xenofobia. Mas comecei a pensar que quem perdia com essas atitudes eram eles, não eu. E foi exatamente nessa época que conheci meus amigos, que me ajudaram muito e fazem parte da minha vida até hoje. Atualmente moramos apenas eu e minha mãe aqui no Brasil, meu pai e minha irmã estão morando na Coreia. Minha irmã é advogada e trabalha em um órgão público coreano, e meu pai está abrindo um novo negócio”.

2. Você pode explicar para os leitores, o por que você, tendo morado boa parte da sua vida no Brasil, ainda assim teve que ir servir o exército na Coreia?

Resposta: “Porque a lei da Coreia definiu assim, todo homem coreano que completa 18 anos recebe uma carta para o alistamento. E mesmo que você seja mestiço, mas tenha nacionalidade coreana tem que ir para o exército. Digamos que um brasileiro por exemplo, naturalizou-se coreano, ele não pode servir o exército coreano, porque a lei não permite. Agora se essa mesma pessoa for filho de coreano, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, ou dos dois, pode ser feita a recuperação de nacionalidade e quem recupera a nacionalidade aí sim precisa se alistar e servir ao exército da Coreia do Sul.”

3. Como a “obrigação” de servir o exército é vista pelos coreanos? E qual a sua opinião pessoal a respeito?

Resposta: “Bem, quase 99% dos coreanos que conheço lá na Coreia pensa da seguinte maneira – Nossa vou perder 2 anos da minha juventude, podia ter aproveitado muito a minha fase dos 20 anos. Sim, a maioria das pessoas pensa dessa maneira, pensam que estão perdendo! Mas pra mim não foi perda. Gosto de fazer novas coisas! Quando que pessoas normais, vão poder fazer treinamentos de exército? A maioria das pessoas ao redor do mundo não vai ter essa experiência na vida! E o exército tem muita coisa a ensinar. As pessoas pensam que é perda de tempo, mas o exército é uma das organizações mais disciplinadas que existe! Durante a estadia no exército é possível investir o tempo nas coisas certas, além de fazer boas amizades. Falo sempre para os meus amigos, que estão se alistando, que essa é sem dúvida, uma grande experiência e vale muito a pena”.

4. Para coreanos que moram fora da Coreia o processo para o alistamento é o mesmo? Aliás, você ainda tinha algum tempo, mas optou por se alistar agora. Você teve alguma razão específica que te motivou a tomar essa decisão?

Resposta: “Bem, para os coreanos que moram no exterior existem outras formas de alistamento. Eu por exemplo fui até o consulado da Coreia, e informei meu desejo de me alistar. O profissional do consulado me explicou como funcionava o processo de alistamento. Assim que completa 18 anos, todo jovem coreano recebe uma identidade, como se fosse o RG aqui do Brasil. E após receber esse documento, é necessário realizar exames médicos para o exército.

Depois disso o próprio exército envia um SMS para o jovem coreano com instruções referentes ao alistamento. E aí a pessoa indica a região que pretende entrar, essa é apenas uma indicação, ninguém consegue escolher diretamente o local da base! Mas no final essa indicação pouco importa, porque acaba sendo uma escolha bem aleatória mesmo dos superiores. Também é possível indicar o cargo de interesse, mas de novo é uma decisão tomada aleatoriamente.

Quando me alistei, ainda estava aqui no Brasil e pude escolher a data da realização do exame médico, e pude escolher também a data que queria ir para o exército. Essa foi minha vantagem, por morar no exterior! A outra curiosidade, geralmente os coreanos que vem do exterior para cumprir o serviço militar, precisam começar o treinamento básico 1 semana antes, para ir se adaptando ao idioma a cultura. E por morar fora, a desvantagem é que não podemos concorrer a cargos nem da Marinha nem na Aeronáutica da Coreia, apenas serviços militares terrestres.

Eu podia ter adiado meu alistamento por morar fora e ter RNE permanente, mas queria ir e meus pais também apoiavam essa decisão. Eu acredito ter muitas vantagens por ser coreano, então realmente sentia vontade de defender a Coreia e essa experiência de servir ao exército foi incrível!”

5. Quando se deu sua ida para a Coreia e qual era o período planejado para você ficar no exército?

Resposta: “Bom decidi ir para a Coreia 1 mês antes do meu alistamento, encontrei com meus amigos e familiares. Fiz todo os exames médicos, e em maio de 2019 me alistei, cumprindo todos os protocolos necessários, inclusive o de raspar o cabelo.

6. Você podia receber visitas? Você tinha algum membro da sua família na Coreia? Eles iam te visitar? E sua família daqui eles chegaram a ir pra Coreia te visitar durante este período?

Resposta: “As visitas podem ser feitas todos os dias, porém durante o horário livre. Então é recomendado ir aos finais de semana! Quando as visitas são feitas durante a semana, é necessário avisar ao superior antes. Normalmente quando recebia visitas, podíamos confraternizar!

É comum por exemplo que a pessoa que está indo fazer a visita leve comida, ou que de lá mesmo peçamos algo, mas essas refeições não podem ser levadas para dentro da base. Uma das boas memórias que construí durante esse período, foi quando era minha primeira folga do exército e minha mãe chegou de surpresa na Coreia, saímos para passear e comer comidas boas.”

7. Como é a vida no exército, como era um dia típico seu lá? Hora de acordar/dormir, atividades em geral, folgas…

Resposta: “Assim vou falar de maneira geral, porque cada cargo tem suas especificidades, mas normalmente acordávamos às 06:30 da manhã, já vestíamos a farda e às 07:00 da manhã todos se reuniam para fazer uma contagem geral de todos os saldados e verificar se havia algo de errado. Fazíamos alongamentos, cantávamos o hino da Coreia, corridas de 1km a 3km, tudo isso logo pela manhã.

Depois tomávamos o café da manhã, e nos reuníamos novamente para definir as atividades a serem realizadas ao longo do dia. Em relação as folgas, era necessário avisar com um mês de antecedência! Essa informação tinha que ser passada ao soldado do escritório, ele era o responsável por organizar as folgas de cada soldado do quartel.”

8. Os quartéis coreanos são de fácil acesso, próximo as cidades?

Resposta: “Olha, isso depende muito! Mas normalmente não são de fácil acesso não. É bem difícil de achar, porque a base precisa estar bem escondida. Não pode ficar em um lugar muito exposto, muito menos perto das cidades, porque é bem perigoso! Digamos que a Coreia seja atacada, esse atentado será feito a base num primeiro momento, então isso colocaria as cidades em perigo. Então as bases ficam em lugares afastados.”

9. Os estrangeiros podem visitar alguém no exército sul-coreano?
Resposta: “Podem visitar sim, é necessário avisar ao superior da base. Suponhamos que essa pessoa seja de um país que tem algum conflito com a Coreia, ou venha de países socialistas, a visita pode ser recusada. Durante meu período no exército foi bem tranquilo, vi outros soldados que também moravam fora da Coreia, receberem visitas de amigos estrangeiros. Geralmente o soldado que vai receber tal visita, precisa passar todas as informações referente a pessoa, uma vez que o superior da base autoriza, tá tudo certo.”

10. Existem campeonatos e competições durante o período de serviço militar? E quais eram os prêmios dos soldados?
Resposta: “Olha tem muitos campeonatos diferentes, antes da pandemia participávamos de eventos grandes. As modalidades eram as mais diversas possíveis, tinha até uma competição de inteligência, sobre os conhecimentos referente ao exército, aí quem acertava mais ganhava, e geralmente o prêmio era uma folga.

Já os soldados que participavam de competições de tiros e obtinham bons resultados, recebiam prêmio de melhor atirador. Também fazíamos exposições, alugávamos por exemplo estádios de futebol, levávamos os equipamentos militares e abríamos para que os civis conhecessem um pouco sobre o armamento do exército. Tínhamos também, exercícios de treinamento de prestação de socorro, então era tudo bem intenso.

A Experiência De Um Coreano Do Brasil No Exército Da Coreia
Uma foto do luiz, da época do exército, na coreia, porém, em um momento de folga. Foto: arquivo pessoal

11. Durante o cumprimento do serviço militar obrigatório vocês podem ter e mexer em celular normalmente, ou existem algumas restrições?
Resposta: “Sim tinham restrições, os celulares ficavam guardados! Quando entramos no exército, assinamos alguns documentos, só podemos usar o celular em casos bem específicos ou depois das 17:30hrs que era nosso horário livre. E nos finais de semana, recebíamos nossos celulares, após o café da manhã, sempre devolvíamos antes do nosso horário de assistir as notícias às 21:00hrs.

Todos os soldados tinham que baixar um aplicativo de segurança, esse aplicativo não permitia que fossem feitas nenhum tipo de gravação, não permitia sequer abrir a câmera do aparelho. Todas essas medidas eram impostas, para evitar qualquer tipo de espionagem. Também não podíamos sair curtindo qualquer publicação, os soldados do exército têm que ser imparciais nunca demonstrar preferências políticas“.

Nota do Koreapost: Por esta razão, o Luis não pôde fornecer para o Koreapost, fotos de quando estava dentro das instalações do exército ou de farda. 

12. As mulheres também são obrigadas a cumprir o serviço militar sul-coreano?
Resposta: “Não, as mulheres não são obrigadas a entrar para o exército. Mas, elas podem ingressar no exército como profissão e não como uma obrigação! Todas as mulheres que entram para o exército, se alistam também e recebem um treinamento básico durante 1 ano aí depois dependendo do cargo elas são designadas para diferentes lugares para receber mais treinamento e depois escolherem suas bases.”

13. Luiz, como foi para você a experiência de servir o exército sul-coreano? Algo durante esse período te marcou muito de maneira positiva ou/e negativa?
Resposta: “Olha não consigo falar sobre a minha experiência no exército em apenas uma palavra, essa com certeza foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Pude conhecer muitas pessoas, fiz boas amizades, aprendi muita coisa! Eu fui capitão do exército, então aprendi a lidar com meus soldados, e ainda mantenho contato com todos eles. Além de ter aprendido a lidar com pessoas que não gostava muito, a experiência de aprender atirar, dormir em cima do tanque… Olha pra mim foi tudo muito positivo, realmente amadureci muito depois dessa experiência, foi incrível.”

14- Por último, qual conselho você daria aos jovens coreanos que vivem no Brasil e ainda vão servir no exército?

Resposta: “Sério, você nunca vai ter uma chance de dirigir um tanque, jogar uma granada, manusear armamentos específicos se não vivenciar essa experiência no exército. Além disso o mais importante, pode parecer perda de tempo, mas não é! O exército é como se fosse uma sociedade simplificada da Coreia. Se você é um coreano que mora no Brasil, se você não sabe tanto sobre a cultura coreana ou não tem tanto domínio sobre o idioma e por isso tem medo de entrar, mesmo assim só vai!

Porque eu vi pessoas lá que não falavam quase nada de coreano, e se saíram super bem, saíram de lá com conhecimento para a vida. Esse tempo que você ficará no exército, é o tempo que você vai se dedicar para deixar sua família, seus amigos, seu país seguros. É uma experiência inesquecível! Então se você está duvidando se vai ou não, eu recomendo que vá pois além de aprender e amadurecer muito, é uma oportunidade única na vida. Minha vontade é falar muito bem do exército, porque não é uma experiência de sofrimento e perda, pelo contrário é de alto desenvolvimento.”

A Experiência De Um Coreano Do Brasil No Exército Da Coreia
Tanque do exército sul coreano. Imagem pública. Meramente ilustrativa. Fonte: pinterest

Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

1 COMENTÁRIO

  1. Amei a reportagem. O Brasil perde muito em não obrigar os jovens servirem o exercito. Como o Luiz Kim disse, o exercito disciplina para a vida.
    Parabéns sos coreanos que servem o exercito por amor a Aguida Carvalho pela excelente reportagempátria.Parabéns

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