No dia 10 de fevereiro último, uma segunda-feira, perto de uma da tarde (horário de Seul), a atriz Jane Fonda subia ao palco do Teatro Dolby, em Los Angeles, abria o envelope e anunciava: “And the Oscar goes to…”.

Ao tomar conhecimento da vitória do filme “Parasita”, do diretor Bong Joon-ho, dois jovens brasileiros ligados à área de cinema que moram na Coreia do Sul vibraram com o fato de que o país em que tinham escolhido estudar e trabalhar havia sido o primeiro a produzir uma película em língua não-inglesa que, após 92 anos de premiação da Academia, levou a máxima estatueta.

Gilson Fagundes Júnior, 28, que atualmente faz mestrado em produção de filme na Universidade de Chung-Ang, em Seul, conta: “eu me encontrei com três colegas de curso para assistir à cerimônia no restaurante de frango frito Ongoljin Chicken, perto da faculdade. O clima foi de final de Copa do Mundo, cada Oscar ganho pelo ‘Parasita’ era uma comemoração sem tamanho. O dono do lugar até nos ofereceu uma rodada de cerveja de cortesia. Foi divertido, bem bacana presenciar e participar disso”. Ele e seus amigos puderam festejar quatro vezes, já que a obra sul-coreana venceu nas categorias “filme”, “direção”, “roteiro original” e “filme internacional”.

Gilson Fagundes Junior. Foto: Arquivo Pessoal

O estudante afirma que, no grupo no KakaoTalk – aplicativo coreano parecido com o Whatsapp – do qual participa, que reúne alunos e professores do departamento de cinema da faculdade, houve muita euforia e festa. Para ele, foi uma experiência interessante ter vivido o ambiente contagiante da expectativa à celebração que tomou conta do país antes e depois do Oscar. O diretor Bong Joon-Ho, ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Incheon, da Coreia do Sul, no domingo seguinte à premiação, foi ovacionado por cerca de 300 repórteres e fãs.

Já o carioca Rodrigo Braune, 31, que concluiu o mestrado em cinema pela mesma universidade em 2015 e exerce, desde 2019, o cargo de Assessor de Assuntos Agrícolas na embaixada do Brasil em Seul, não saiu com os amigos no horário do almoço para acompanhar as escolhas da Academia, mas, tendo sido um momento histórico para o país, percebeu uma movimentação intensa e grande número de comentários nas redes sociais e no Naver, o maior portal de buscas da Coreia do Sul.

Rodrigo Braune. Foto: Arquivo Pessoal

No grupo do KakaoTalk formado por cerca de 170 pessoas que conheceu no mestrado, a repercussão do Oscar foi menos intensa do que no círculo social de seu colega Fagundes Jr. Para ele, o horário local em que ocorreu a cerimônia e a crescente preocupação com o Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, que, na época, já havia infectado 27 pessoas no país e colocado outras 800 sob quarentena, foram fatores cruciais para a discreta comemoração.

Por que estudar cinema na Coreia do Sul?

Braune já gostava de cinema sul-coreano antes mesmo de se formar em Comunicação Social pela PUC-Rio com um trabalho de conclusão de curso sobre a indústria de entretenimento daquele país. “Assisti a um filme, por volta de 2001 ou 2002, chamado ‘Zona de Risco’ (2000), do diretor Park Chan-wook, e, a partir daí, surgiu meu interesse. Eu comprava DVD’s pela internet vendidos fora do Brasil de filmes de diretores sul-coreanos, e até curtas universitários”, conta.

Ele partiu para Busan, em 2012, para estudar a língua nativa na Universidade Silla, recebendo uma bolsa de estudos do NIIED (Instituto Nacional para Educação Internacional), órgão do governo daquele país que patrocina o intercâmbio de alunos estrangeiros por três anos. Realizou seu mestrado, entre 2013 e 2015, em Seul, na área de Direção, e acabou ficando no país devido às oportunidades que surgiram de trabalhar na embaixada e em empresas locais nas áreas de marketing e comunicação.

Já Fagundes Jr., nascido em São Bernardo do Campo (São Paulo), passou a conhecer e a gostar de filmes asiáticos em geral quando cursava Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, entre 2010 e 2014, mas interessou-se particularmente pelas produções sul-coreanas quando, na metade da graduação, viu o drama “Sol secreto” (2007), de Lee Chang-dong, e se apaixonou pela obra. “Ela me impactou de uma forma profunda. Desde então, tenho assistido a muitos filmes coreanos de diferentes épocas, dirigidos pelo próprio Bong Joon-ho, Chang-dong, Park Chang-wook, Kim Ki-duk, Im Sang-soo, Hong Sang-soo, Kim Ki-young, Lee Man-hee e muitos outros”.

Também com uma bolsa de estudos concedida pelo NIIED, ele foi aprender coreano na Universidade Pai Chai, em Daejon, em 2016, até começar, no ano seguinte, o mestrado em cinema em Seul, com especialidade em Direção de Fotografia. Ele conta que, “antes desse fenômeno do ‘Parasita’, as pessoas sempre me indagavam por que decidi estudar cinema na Coreia do Sul, afinal o senso comum de cinema ‘bom’ são os filmes produzidos nos Estados Unidos e na Europa. Agora terei que explicar menos os meus motivos”.

Realidade Sul-Coreana x Brasileira

O filme “Parasita” mostra um cenário de desigualdade social, miséria e incompetência do Estado em resolver problemas sociais, em que a família pobre utiliza até um recurso ao estilo do “jeitinho brasileiro” para conseguir trabalho na mansão dos ricos, inventando qualificações profissionais e arrumando meios criativos para se livrar dos antigos funcionários. Cabe perguntar: a realidade sul-coreana é condizente com essa representação, e o Brasil, assim como outros países emergentes, pode se identificar com ela?

Fagundes Jr. responde positivamente. Ele analisa a questão social do país asiático a partir do próprio título do filme: “num primeiro momento, ‘Parasita’ pode se referir a família pobre que, aos poucos, vai ocupando e ‘parasitando’ às custas da família rica. Contudo, ao longo do filme, percebemos que a família rica é, de certa forma, ‘parasita’ também, por explorar a família pobre para suprir suas mesquinharias. O filme é uma metáfora do mundo em que vivemos. Para termos comodidade – independente da classe social a que pertencemos –, sempre exploramos alguém ou algo, e muitas vezes somos cegos a esses aspectos permanentes de nosso dia-a-dia”.

Para o estudante, a fotografia e a direção de arte do filme ajudam a contrapor ambas as realidades sociais, o que engrandece a narrativa. O significado está nos detalhes. Ele observa, por exemplo, que a janela que dá para a rua na casa da família pobre e a janela para o jardim na mansão da família rica têm, ironicamente, a mesma proporção.

Fagundes Jr. afirma ter percebido que seus amigos brasileiros que vivem em zonas de enchentes se sentiram mais impactados pelo filme, em razão de uma das cenas mais emblemáticas do filme, em que a família pobre vê sua casa no subsolo ser arruinada pelas águas. Segundo ele, os sul-coreanos, ao mesmo tempo em que acharam o filme relevante e bem-feito, sentiram vergonha por expor essa realidade que afeta muitas pessoas no país.

Já Braune defende uma visão oposta à de Fagundes Jr. ao afirmar que o filme mostra um cenário social de talvez 30 anos atrás, mas que não se aplica com precisão nos dias de hoje. Para ele, a realidade dos “parasitas”, “a família rica ‘sugando’ as vidas e o trabalho ‘braçal’ das famílias menos favorecidas, de classe média baixa, entre outras, para ganho próprio”, embora exista, foi retratada de forma exagerada pelo diretor, caindo no estereótipo.

Isso porque, para ele, a sociedade sul-coreana tem outra dinâmica de funcionamento: “o filme é muito caricato. Aqui, a realidade é bem diferente, pois há muita competitividade, começando na escola até a universidade. Mesmo após se formar, e se especializar, em qualquer área, conseguir um emprego é uma odisseia de entrevistas, processos seletivos, provas, e, mesmo após conseguir um emprego, dentro das empresas, seja pequena ou grande, há a competição interna”.

Cinema Sul-Coreano x Brasileiro

Braune, que participou da produção de curtas-metragens durante sua passagem pela faculdade, tanto no Brasil como na Coreia do Sul, e já trabalhou como ator em longas-metragens, afirma que a diferença entre os dois países em relação à produção cinematográfica passa em grande medida pelas expectativas em relação aos filmes criados no ambiente universitário: “notei a diferença na cobrança dos professores, que, na Coreia do Sul, já esperam que filmes de seus alunos sejam selecionados para pelo menos um festival grande”.

Para ele, o estilo de vida na Coreia do Sul favorece o mercado profissional como um todo, incluindo, assim, a indústria cinematográfica: “é extremamente conveniente morar aqui. O país é muito seguro, tem a internet mais rápida do mundo, e um sistema de entregas muito eficiente. Sabendo falar coreano, é um país ótimo para se viver, porém com mercado de trabalho muito competitivo, que ocasiona diversos problemas sociais. Por isso, os jovens daqui chamam a Coreia de ‘Hell Joseon’, ou seja, a Coreia Infernal [a expressão, popularizada nos anos 2010, é utilizada para criticar a situação socioeconômica no país]”.

Já Fagundes Jr., que integrou equipes de produção de filmes – entre os quais “O tempo e o vento” (2013), de Jayme Monjardin – , curtas-metragens e projetos de televisão, dentro e fora da faculdade, nos dois países, percebe uma grande diferença na maneira como os sul-coreanos lidam com os projetos: “no Brasil, por falta de estrutura, se pensa o filme de uma forma muito mais colaborativa, tem que improvisar muito, às vezes não se consegue a locação desejada ou as condições ideais para filmar; no caso da Coreia do Sul, tem muito mais planejamento do filme como um todo, uma imensa minúcia, os curtas-metragens são bancados inteiramente pelos diretores, diferentemente do Brasil, em que muitas vezes eu dividia os custos dos projetos”.

Ele acrescenta que, no país asiático, é possível alugar equipamentos de altíssima qualidade sem gastar muito dinheiro e que, mesmo em sua faculdade, teve acesso a câmeras de cinema sofisticadas que nunca tinha visto em sua graduação no Brasil.

Para o estudante, “a conquista do filme ‘Parasita’ deve-se muito a investimentos pesados dos setores público e privado no cinema durante 30 anos, desde os anos 1990, como uma grande prioridade. Eles entendem muito bem que o cinema é um produto cultural de extrema importância. Durante esse meio-tempo, muitos diretores e técnicos do cinema foram se especializar no exterior, inúmeros blockbusters foram feitos, e filmes de arte também. A Coreia do Sul consegue equilibrar bem esses fatores, arte-mercado”.

O Koreapost agradece à Leonardo Feder e Bernardo Borges, jornalistas freelancers formados respectivamente pela USP e PUC-RJ, que muito gentilmente enviaram seu texto para ser publicado em nosso site.

Leonardo Feder e Bernardo Borges. Foto: Arquivo Pessoal

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