É possível que o contato com culturas de outros países seja apenas algo passageiro para a maioria das pessoas, ao redor do mundo. Contudo, existem casos em que a vida de alguns indivíduos é realmente transformada. Jun-Seok Lee, o “Latino Coreano”, como é conhecido no Instagram e no YouTube, após conhecer o Jiu-Jitsu brasileiro, apaixonou-se pelo país. Hoje além de ter uma noiva no Brasil, ele pretende realizar projetos que criem pontes entre nosso país e a Coreia do Sul. Nesta entrevista, concedida ao Koreapost, ele contou um pouco sobre a sua trajetória de vida, problemas que considera graves na Coreia e sobre o amor pelo Brasil.

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Qual foi o seu primeiro contato com a cultura brasileira?

Nasci na ilha de Jeju, na Coreia do Sul. É um local lindo e tem uma natureza maravilhosa. Eu era uma criança comum que gostava de jogar futebol com meus amigos, em meu bairro. Meu primeiro interesse no Brasil foi durante a Copa do Mundo Coreia-Japão, em 2002. O time de futebol brasileiro esteve na Ilha de Jeju quando jogou na fase de grupos contra a China. Lembro-me da forma de jogar futebol deles, parecia arte na época.

E como surgiu este interesse pelo Jiu-Jitsu brasileiro?

Infelizmente, minha vida na escola, durante o ensino médio, foi muito difícil. Eu morava longe e sofri, juntamente com outros estudantes, a violência de alguns alunos. Desta forma, eu busquei ajuda com o objetivo de permanecer forte e me proteger destas pessoas. Neste período, resolvi aprender diversas artes marciais. Foi quando conheci Banda Ray Silva, Antonio Rodrigo Nogueira, Ricardo Arona, praticantes brasileiros de Jiu Jitsu, o que aguçou o meu interesse pelo Brasil. Aprendi a não ter medo, fiquei mais forte e os garotos violentos já não procuravam mais briga comigo. Em vez disso, eles me pediram para ensiná-los. É por esta e outras razões que sou muito grato ao Jiu Jitsu brasileiro. Eu consegui superar esta situação e ser respeitado, mas, infelizmente, a violência escolar é ainda uma questão muito grave na sociedade coreana.

A partir do Jiu-Jitsu seu interesse pela cultura brasileira cresceu ainda mais, então?

Sim, passei a ter muita curiosidade sobre o Brasil. Pesquisei sobre a cultura, a culinária e o idioma. Comprei livros sobre o país e aprendi o básico da língua portuguesa. Nesta época, eu estava cursando biologia e química na Universidade Nacional de Jeju. Contudo, lembro que foi difícil manter o foco, porque eu lia mais sobre o Brasil, do que sobre as disciplinas que estava matriculado na universidade.

Jusco entrevista Raul Iago, brasileiro do Canal É Nada é Treta e estudante da Universidade Yonsei, na Coreia.
Jusco entrevista Raul Iago, brasileiro do Canal É Nada é Treta e estudante da Universidade Yonsei, na Coreia.

Você afirmou em um momento que o seu interesse pelo Brasil o fez tomar decisões importantes na sua vida, correto?

Sim, é verdade. Vou contar um pouco da minha história pessoal para você poder entender melhor o que quero dizer. Todo homem coreano precisa comparecer ao serviço militar durante dois anos. Servi em Seul. Nesta época, meu pai faleceu. Ele já estava mal, mas sua saúde piorou desde a minha ida ao exército. Após prestar serviço militar, não consegui retornar a faculdade, porque era economicamente inviável.

Jusco, em seu período no exército.

Então eu abandonei a Universidade de Jeju e comecei a trabalhar em Seul, em vários empregos temporários: fiz coquetéis, cozinhei e trabalhei em uma empresa de vestuário em Dongdaemun. Com o tempo, minha saúde deteriorou-se. Eu consumia muito álcool e cigarro. Perdi muito peso, tive anemia. Resolvi cortar tudo isso e voltar para Jeju. Lá passei a ter uma rotina mais saudável e também refleti sobre o que realmente queria fazer com a minha vida. Assim, minha mente voltou-se novamente para o Brasil. Percebi que tinha grande carinho pelo país e que ia tentar de alguma forma buscar uma aproximação maior, trabalhando em alguma coisa que ajudasse a estar em maior conexão com os brasileiros.

Assim, voltei para a faculdade, através de um programa de bolsas para alunos com dificuldades financeiras do governo coreano, em especial para os que veem de família monoparental. Desta forma, entrei na Universidade de Busan, em Estudos Estrangeiros, onde comecei a aprender o português. Também, com a ajuda do Estado, fiz a matricula em um segundo curso: engenharia da computação.

Jusco, em seu programa de intercãmbio, em Ouro Preto.
Jusco, em seu programa de intercâmbio, em Ouro Preto.

Em janeiro de 2017, tive a oportunidade de ir ao Brasil, em um projeto financiado pela universidade. Fui à cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, para filmar um documentário sobre o Barroco no Brasil. Depois fui para São Paulo e conheci pessoalmente minha namorada brasileira. Nós já estávamos em contato há três anos por internet. Fiquei na casa dela e sua família me recebeu muito bem. Fui bem alimentado por eles. Preparam pratos deliciosos. Depois viajamos Rio de Janeiro, fomos ao Cristo Redentor, que eu sonhava conhecer e andamos pela bela praia de Copacabana. Na última noite, eu a pedi em casamento. Estamos juntos até hoje, esperando o momento para vivermos juntos definitivamente.

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E isso fez com que começasse o seu canal no YouTube também?

Isso, em 2014, resolvi abrir um canal em português para falar sobre o Brasil através da perspectiva de um sul-coreano. Foi surpreendente, pois os brasileiros passaram a assistir, comentar e muitos se inscreveram. Hoje tenho em torno de 35 mil inscritos. Foi realmente incrível. Desta forma, percebi que o YouTube está conectado ao mundo, o que me fez ficar interessado em conteúdo de mídia. Com isso, posso me comunicar com os brasileiros e compartilhar meus vídeos. Atualmente muitos deles estão interessados na Coreia, e os coreanos estão cada vez mais interessados no Brasil. Quero mostrar a diversidade da Coreia através dos vídeos. E continuaremos a promover o Brasil para a Coreia. Os coreanos ainda não conhecem o país muito bem. Gostaria de apresenta-lo ao povo coreano.

Finalizando, como você descreveria a Coreia do Sul para os brasileiros?

A Coreia é como uma rosa. Ela tem suas pétalas e seus espinhos. Eu considero que o preconceito e o racismo hoje em meu país, um dos problemas mais graves. E especial com os negros e com os imigrantes de outros países da Ásia. Eu quero fazer o que estiver ao meu alcance para mudar esta situação. A pressão também é muito grande da sociedade coreana sobre nós, cidadãos coreanos. Isso traz problemas graves como alto índices de suicídio também.

Ao mesmo tempo, eu agradeço em muito o apoio que tive do governo coreano em diversos momentos da minha vida, que me possibilitou estudar e poder ter uma vida melhor. Amo a Coreia, amo minha cultura e quero poder ajudá-la a melhorar e superar os seus problemas.

Um dos videos mais famosos do Latino Coreano, é o que ele entrevista coreanos perguntando se namorariam brasileiros.
Um dos videos mais famosos do Latino Coreano, é o que ele entrevista coreanos perguntando se namorariam brasileiros.

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