Algum tempo atrás, lembro de uma amiga, designer de moda, dizer umas palavras que me fizeram refletir: “há muito mais em uma modelo, do que a mera aparência física”. E hoje relembro a fala dela ao entrevistar a jovem modelo, filósofa, designer de moda e futura atriz, Jane de Aquino, de 29 anos, natural de Fortaleza, Ceará, que vem conquistando o seu espaço na indústria do entretenimento sul-coreana.

Jane já realizou trabalhos em conjunto com celebridades como o ator Gong Yoo e o cantor do grupo Exo, Park Chan-yeol. Em um mundo que pouco liga para opinião daqueles que emprestam seus corpos e imagem para serem fotografados e exibirem marcas e produtos, encontram-se ainda pessoas como ela, resistentes em não serem apenas um rosto bonito e preocupados em pensar e contribuir para o coletivo social.

Jane no backstage para comercial de cosméticos. Seoul. Abril 2018. Foto: Arquivo Pessoal
Jane no backstage para comercial de cosméticos. Seoul, Abril 2018. Foto: Arquivo Pessoal

Longe daquela imagem célebre esnobe e distante do mundo real que todos temos das modelos, Jane mostra que nos bastidores de tudo isso, existem seres humanos com tarefas diárias como de qualquer cidadão, como lavar pratos e limpar a casa, e que, acima de tudo, têm muito a dizer. Aqui, nesta entrevista exclusiva para o Koreapost, ela nos conta um pouco da sua história e reflexões sobre a Coreia, o Brasil, suas experiências de vida e questões importantes da sociedade atual.

Conquistar um espaço no mundo da moda é uma tarefa bastante árdua. Como foi o início da sua carreira?

Comecei quando tinha entre 15 anos. Não sei exatamente o porquê de ter feito esta escolha, talvez fosse por constantemente folhear as revistas de moda e achar que aquelas meninas se pareciam comigo, então pensei que poderia ajudar a minha família deste jeito. Sempre trabalhei desde menina, com 14 anos distribuía panfletos nas ruas e fiz outros trabalhos temporários. Insisti com a minha mãe, que deu todo o apoio, e fiz o curso da Elite (Models). Nos testes, eu sempre acabava em segundo lugar, o que me fez pensar em desistir.

Foi difícil encontrar trabalho, até porque, em Fortaleza, há muitas agências fantasmas, que simplesmente pegam o seu dinheiro e somem, ou que fazem promessas que não são cumpridas. Muitos dos nossos recursos foram perdidos assim, por isso por um tempo, decidi desistir e entrar para a faculdade. Acabei cursando Filosofia e Design de Moda ao mesmo tempo. Aliás, era uma situação engraçada, porque no primeiro a maioria era de alunos homens, e no segundo, as mulheres estavam em maior número.

Mas com o tempo, uma nova oportunidade para a carreira de modelo surgiria…

Sim, durante o curso em design de moda eu participei como recepcionista do Fortaleza Fashion Week, para ganhar pontos para faculdade, e conheci a scouter Ming Liao Tao, uma chinesa que mora no Brasil e é conhecida por encontrar modelos para o mercado internacional. Fiquei um pouco reticente, então procurei saber um pouco mais sobre ela na internet e vi que se tratava de uma profissional muito conceituada.

Contudo, continuava desconfiada, em razão das más experiências do passado, mas resolvi tentar mais uma vez. Falei com os meus pais e ela quis conversar com a minha família para convencê-los. Meu pai não concordou, temendo inclusive tráfico de mulheres (a falsa promessa de uma carreira de modelo no exterior, infelizmente é uma das técnicas mais utilizadas pelo tráfico internacional para ludibriar moças e fazê-las deixarem o seu país). Após quatro anos, eu estava com 21 ou 22 anos e ela retornou a minha cidade. Entrou em contato comigo novamente e me incentivou a pensar em ir para a Ásia, pois achava que eu poderia dar certo naquele mercado. Naquela época, eu estava trabalhando em um hotel e conhecia uma menina que já tinha firmado contrato com a Ming e os pais dela falaram com a minha família. Depois de uns meses, fiz o meu primeiro trabalho com a Coreia do Sul.

No início da carreira, foto para Graphy Magazine. 2013. Seoul. Foto: Arquivo Pessoal
No início da carreira, foto para Graphy Magazine. 2013. Seoul. Foto: Arquivo Pessoal
E como foi este início de carreira de modelo na Coreia e na Ásia em geral?

Bom, sobre a Coreia, eu não sabia grande coisa, achava que devia ser parecida com o Japão. Não estava inteirada sobre a cultura pop coreana, por exemplo, nem sobre o país como um todo. Fiquei seis meses e depois retornei ao Brasil. Depois disso, a Ming enviou contratos da China, Tailândia, Singapura, e geralmente o trabalho de modelo é assim, são contratos que duram em média seis meses, você pula de país em país. Portanto, foi uma chance única e sou muito grata por trabalhar com a Ming, porque conheci todos estes países de cultura tão diversas. Porém, estar longe de Fortaleza foi algo bastante difícil, porque sempre fui muito família e caseira. O dinheiro era pouco, do que eu ganhava 10% ficavam para a agência do Brasil, e 50% permaneciam com a agência do país que estava trabalhando. No final, trabalha-se muito e financeiramente não é gratificante.

Estar longe e morar em casa de modelo, onde você divide apartamento com seis, ou sete meninas às vezes, algumas você não se dá muito bem e é vista como uma estranha, não pertencente ao grupo, todas estas questões fizeram com que eu refletisse sobre a continuar. Foi quando resolvi voltar e começar um negócio de família, com a minha mãe. No entanto, acabei por receber uma mensagem da minha agência da Coreia. A diretora disse que eu poderia voltar a trabalhar diretamente com eles, não precisaria mais da agência do Brasil. Afirmou que iria oferecer um contrato melhor, e que teria onde morar. Foi assim que retornei para a Coreia.

Com o ator Kenneth Fibbe. Seoul 2017. Fotografia por Brian Hammons.
Com o ator Kenneth Fibbe. Seoul 2017. Fotografia por Brian Hammons.
E definitivamente você passou a uma outra realidade como modelo na Coreia?

Correto, em 2014, conheci uma coreana-paraguaia que me falou da possibilidade de trabalhar no mercado de entretenimento. Antes eu tinha apenas o contrato de modelo, com duração de três meses, tendo sempre que retornar a Hong Kong para renovar. Eu estava bem estabelecida na Coreia, querendo ficar, foi ela que me informou sobre este outro visto para a indústria do entretenimento. Assim, mudei de modelo para trabalhar como freelancer e fazer trabalhos de televisão e de atriz e etc.

Neste período, abri o meu site, o meu Instagram, comecei a fazer a minha rede de contatos, buscar conhecer pessoas, pois atuar como freelancer não é fácil. É preciso estar constantemente em uma vitrine, fazendo as pessoas lembrarem de você, mas é bem gratificante ao mesmo tempo, pois você tem mais controle da sua carreira, do seu trabalho como um todo. Até agora está dando muito certo. Assim, eu tenho um contrato de freelancer com uma agência de entretenimento, quando eles conseguem trabalho para mim, ficam com 50% do que recebo, mas quando eu consigo meus trabalhos eles não recebem nada. Foi nesta situação que passei no teste para o comercial do Discovery Expedition, gravando com o ator Gong Yoo.

Campanha para a marca Coreana Duran Fit. Seoul 2017. Foto: Arquivo Pessoal
Campanha para a marca Coreana Duran Fit. Seoul 2017. Foto: Arquivo Pessoal
Neste trabalho com o Discovery Expedition você teve de mergulhar, sem ter grande experiência, o ator Gong Yoo ajudou, como foi o processo de gravação?

Foi bem interessante, eu já tinha feito mergulho antes no Brasil, mas nunca realizei um trabalho imersa na água. No teste nós não tínhamos que mergulhar, mas fingir que estávamos mergulhando. Foram 12 horas de trabalho com um dublê, para ver as marcações e o posicionamento de câmera. Tudo devia estar pronto para o dia real da gravação que, na realidade, foi em um aquário, de 8 ou 10 metros de profundidade. Tínhamos de fazer mergulho livre.

comercial para Discovery Expedition com ator Gong Yoo. Seoul Abril 2018. Foto: Discovery Channel
comercial para Discovery Expedition com ator Gong Yoo. Seoul Abril 2018. Foto: Buckwheat

O problema é que uso óculos e toda vez que eu mergulhava tinha de abrir os olhos e não enxergava nada. O diretor ficava bravo e perguntava porque eu olhava para cima e não para a câmera. No começo eu fiquei meio em pânico, sabendo que tinha de mergulhar e submergir bem fundo e ter de repetir várias vezes. Nadar é uma coisa, mas mergulho é outro esquema. Mas minhas aulas de Yoga ajudaram muito, com meditação e técnicas de respiração consegui manter uma certa tranquilidade. O Gong Yoo é um ótimo mergulhador, ele pode ficar bastante tempo sob a água, enquanto eu tinha de subir para respirar. Ele é gente boa, o que me fez feliz de trabalhar com ele, pois a maioria das celebridades aqui gostam de estabelecer um certo distanciamento com as pessoas, uma espécie de você no seu quadrado e eu no meu, mas Gong Yoo é muito amigável.

Com o Ator Gong Yoo backstage da gravação do Comercial Discovery Expedition. Paju Fevereiro 2018. Foto: Arquivo Pessoal
Com o Ator Gong Yoo backstage da gravação do Comercial Discovery Expedition. Paju Fevereiro 2018. Foto: Arquivo Pessoal

Ainda assim, eu tive de trabalhar 12 horas e ele apenas 4 horas. Ele tem a própria equipe de produção, eu tinha apenas uma pessoa para ajudar. Pois há alguns detalhes para gravar em uma situação como esta: cada vez que se mergulha o nariz escorre muito. Por isso, precisa ter alguém para ajudar. E ele percebeu o meu nervosismo no início e conversou comigo, deu algumas dicas de mergulho como abrir um pouco a boca para poder respirar. Sugeriu ao diretor usar uma luz laranja forte dentro da água para me ajudar a enxergar. Ele foi generoso e profissional, o que me deixou bastante nervosa, pois eu não queria ser aquela pessoa que estraga tudo (risos), mas tudo acabou bem.

Este comercial foi um ponto chave para outros trabalhos importantes como modelo?

Certamente, este comercial esteve em tudo que é lugar na Coreia, em todos os outdoors, o que foi ótimo, porque agora consegui um reconhecimento maior. Finalmente as pessoas estão associando meu nome ao trabalho. Depois fiz o comercial de uma cama que também deu bastante repercussão, tinha de fingir que eu estava bela e solta pulando em um colchão que era na verdade bem duro. Sai com dor de cabeça no fim da filmagem (risos).

O video de Hands Up do 2Pm também contou com a participação de Jane!
Um dos momentos em que Jane aparece no vídeo. Foto: Youtube
Um dos momentos em que Jane aparece no vídeo. Foto: Youtube

Participei de outros comerciais com K-Idols como 2 PM, e Park Chan-yeol do grupo Exo. Eu não conhecia este universo de K-idols, K-drama, mas comecei a pesquisar ao me mudar para a Coreia. Aliás, tive uma real noção do que era este mundo ao trabalhar com o cantor para a Maison Hermes. Eu não sou muito fã de K-pop, assim não sabia que ele era tão famoso, soube quando ao procurar as fotos que fizemos, muitas fãs escreveram comentários negativos, com insultos, dizendo até que queriam me matar.

Uma reação um pouco emocional (risos), creio que por serem todas fãs pré-adolescentes. Elas fizeram vários memes, colocando carinha de porco, que eu achei bonitinho. Mostrei para o meu namorado da época. Foi então que decidi tirar printscreens das imagens e refazer os memes para publicar no meu Instagram. Inclusive meu namorado também participou, tudo meio na brincadeira, porque foi estranho as fãs terem esta reação só porque eu toquei, em um trabalho fotográfico, o ombro do moço em questão.

Com o cantor do Exo Chanyeol para Hermes Maison. 2017. Foto: Arquivo Pessoal
Com o cantor do Exo Chanyeol para Hermes Maison. 2017. Foto: Arquivo Pessoal

E então postei este memes, sem saber que as pessoas iriam reagir. Em cinco minutos apareceram mil comentários e elas descobriram meu celular. Ligaram e enviaram mensagens, mas o ódio foi transformado em algo positivo, porque elas viram que eu não era uma ameaça à paixão platônica delas, em especial porque estava namorando. Assim, elas começaram a gostar de mim. Mas… falando um pouco do trabalho, foi uma experiência muito gratificante, porque se trata de uma marca francesa renomada e inclusive toda a equipe foi francesa e quem me escolheu foram eles.

Depois de toda esta experiência, quais as diferenças de métodos de trabalho você pode ver entre Coreia e Brasil?

No começo foi muito difícil, pois os métodos de trabalho são bastante diferentes. Por exemplo, nós temos mais liberdade de nos expor, ser nós mesmos nas gravações e dizer o que pensamos. Normalmente, no Brasil, gostam mais de modelos que se expressam de forma mais livre. Na Coreia, já há uma espécie de status, a coisa é mais hierarquizada, e você deve seguir o que eles querem e esperam muito de você, mas não necessariamente são mais eficientes que no Brasil.

Uma vez eu trabalhei para a Samsung por um mês, fiz a publicidade de todos os eletrônicos deles, trabalhamos por 20h ao dia no set. Contudo, sinceramente, era algo que poderia ter sido feito em 10h. A Coreia tem esta imagem do trabalho árduo, há um certo orgulho nisso, e no Brasil já é o contrário, nós queremos sempre tudo de um jeito mais prático, mais fácil. Para os coreanos tudo deve ser feito de uma forma perfeita. Então, no começo, foi difícil não ter esta voz, dar sugestões e praticamente apenas cumprir as “ordens”. Mas hoje trabalho com pessoas que já me conhecem, eu já tenho esta oportunidade de poder expressar a minha opinião.

No Brasil, o movimento das mulheres pelo fim da cultura do assédio moral e sexual é algo que chegou com bastante força. Como você vê esta questão na Coreia?

Acho a Coreia mais à frente do Brasil nesta questão. No entanto, uma vez em um comercial de sapato, o diretor gritou comigo, porque ele queria que eu ficasse estática, e eu tentei fazer posses diferentes como sempre faço para eles terem mais opções. Contudo, levei mais na boa, com leveza, pois acho que se eu ficasse com raiva, iria incitar o ego dele e fazê-lo continuar a gritar comigo. Fiquei rindo, às vezes fiz brincadeiras, dizendo que ia ser um robô, e etc. No final, o diretor já estava mais tranquilo e pediu desculpas. Assédio sexual nunca sofri, talvez tenha sido sorte, sempre estou acompanhada com uma assistente e tradutora, e sem falar que os coreanos são muito tímidos.

No Brasil, como no ocidente, aos poucos esta imagem da mulher magra e de pele perfeita vem sendo desconstruída em uma reação das próprias mulheres, mas ainda há muito que avançar. Na Coreia, esta realidade parece ainda ser mais dura para as que não possuem a imagem padrão. Você vê algumas transformações sobre esta questão entre os sul-coreanos?

Acho que a Coréia ainda almeja este tipo de beleza plástica, não real. Falta ainda um pouco de conhecimento para entender que beleza perpassa esta plasticidade. Tem este conceito que a pele alva, porcelana é uma pele mais pueril. E Coreanos buscam este ideal de “pureza e perfeição.”

Beleza é um conceito bastante subjetivo, qual a sua visão sobre ele?

Beleza para mim é para ser apreciada, observada. É algo bem mais profundo que um rosto simétrico eu acho, é mais uma questão de energia. É o tal do brilho e da aceitação que muitos falam. Quando se passa a aceitar o corpo tal como ele é, aquele tipo de pensamento por si só já invoca uma beleza, e por isso os outros tendem a perceber quase que subconscientemente esta energia, e é ela que forma o tal conceito de beleza física.

E como você enxerga a sua vida hoje de forma geral hoje, o que mudou?

Eu moro sozinha e tento focar no trabalho. Tento viver de forma simples. Meu objetivo é guardar dinheiro e trabalhar o máximo que puder. O curso de Yoga, que fiz ano passado, mudou minha forma de pensar e ver as coisas, filosoficamente. A vida na Coreia é muito fácil, você tem as coisas muito fácil. Pode ligar e a comida vem parar na sua porta, posso ter um motorista a qualquer hora. Todos os tipos de serviços você pode ter aqui 24h.

Hoje eu tento atuar de forma diferente, pego o metro e limpo a minha própria casa. Tento observar os meus hábitos de consumo. Vi muitos documentários sobre consumismo e os seus impactos para o meio ambiente. Então hoje, quase não compro nada para mim, sendo até meio pão dura. Não vivo este glamour da carreira de modelo como alguns pensam. Eu lavo os meus pratos (risos). Um conforto maior pode existir quando estou em uma gravação, onde fico em um hotel mais requintado, quando sou chamada para evento, mas a minha vida privada é a mais chata que existe.

E como estrangeira, o que pode dizer da vida na Coreia estes anos todos?

Olha, tenho muitos amigos e falo pouco coreano. Se tenho alguma dificuldade, posso contar com eles. São amigos íntimos, eu acho que nisso nós e os coreanos temos em comum, eles são os latinos da Ásia, são todos muito ligados à família. Eles têm muita paixão e emoção, mas diferentemente de nós, guardam tudo mais para si.

Com o cantor do grupo Big Bang Seung Ri. Monkey Museum Maio 2018. Arquivo Pessoal
Com o cantor do grupo Big Bang Seung Ri. Monkey Museum Maio 2018. Arquivo Pessoal

Meus amigos são todos muito expressivos. Quando mudei de apartamento, eles me ajudaram a arrumar as coisas. Há pessoas aqui na Coreia que são realmente amáveis, sempre que preciso de ajuda, eles estão prontos a ajudar. Eles podem ser bem atenciosos com estrangeiros, pois sabem que não estamos no nosso país. Mas a timidez deles pode passar uma mensagem de estranheza para quem é de fora.

Uma vez, fiz um trabalho para a Warner Bros. da Coreia para o lançamento do filme a “Mulher Maravilha”. A atriz que iria estar como a personagem para o lançamento não pode vir, então a substitui e recebi bilhetes para uma outra estreia. Eu queria dar para alguém e tentei conversar com as pessoas, mas ninguém quis. Em outra ocasião fiz parte daquele projeto mundial de “abraço grátis”, mas as pessoas ficam com medo de abraçar. Um menino uma vez pediu um autografo bem envergonhado.

Com o diretor de cinema John H Lee. Seoul Março 2018. Foto: Arquivo Pessoal
Com o diretor de cinema John H Lee. Seoul Março 2018. Foto: Arquivo Pessoal

Contudo, eu tive a chance de ter um círculo de amizades que me proporcionou inclusive conhecer pessoas maravilhosas como o diretor John H Lee, – diretor de “Operação Chromite”, (2016), e “A Moment to Remember”, (2004). Conversei com ele e soube mais sobre o seu interesse e paixão por cinema. John H Lee é uma pessoa muito sensível e profunda em todas as suas reflexões sobre a sétima arte e o mundo em geral. A Moment to Remember foi meu filme favorito. O amor incondicional e a bravura da personagem principal me cativaram. É um filme de amor tradicional, pueril, que passa dos limites do tempo, da vida.

Você falou sobre suas amizades. Há uma curiosidade do público que aprecia a cultura coreano em geral sobre relacionamentos amorosos, o que você poderia dizer a respeito disso?

Sobre namorados coreanos na Coreia, acho uma questão difícil porque os meninos demoram muito para amadurecer. Um homem de 30 aqui tem o cabeça de 20. Por isso, para algo sério, creio ser mais complicado, mas tudo é possível se você tiver um pouco de paciência.

Conte um pouco sobre a sua família.

Eu sou a mais nova, tenho uma irmã e um irmão, com os quais sou muito apegada. Meu sonho é poder trazê-los, para morar fora do Brasil comigo, por isso eu sigo firme no meu trabalho e busco crescer. Meu pai é vendedor de móveis, ele trabalha com empresas do sul do Brasil, representando estas companhias e viaja bastante. Já minha mãe abriu o próprio negócio que iniciou comigo, quando eu tinha 19 anos e estava na faculdade de Design de Moda.

Com a mãe Aparecida Aquino e o pai Edgilson Aquino♡ Virada do Ano novo em Fortaleza 2017-2018. Foto: Arquivo Pessoal
Com a mãe Aparecida Aquino e o pai Edgilson Aquino♡ Virada do Ano novo em Fortaleza 2017-2018. Foto: Arquivo Pessoal

A professora pediu que criássemos uma marca e na época eu assistia muito conteúdo produzido pela televisão japonesa NHK, gostava de e anime e comic com. Então pensei numa marca voltada para este público, com os looks que me definiam na época. Assim, abrimos uma empresa vinculado ao mundo da cultura pop coreana e japonesa. Minha irmã e mãe trabalham hoje nesta empresa, chama-se Yume Costumes. Meu irmão era consultor e hoje busca um novo caminho, pensando no que quer fazer, assim como eu.

No estande da Marca Yume Costumes Sana Fortaleza Brasil 2013. Foto: Arquivo Pessoal
No estande da Marca Yume Costumes Sana Fortaleza Brasil 2013. Foto: Arquivo Pessoal
Quais os seus planos futuros?

A carreira de atriz me encanta e acho que poderia aplicar nela tudo que estudei e aprendi até hoje. No futuro, penso em fazer curso de teatro no Rio, ou em Portugal, ou até em estudar cinema e atuação em Londres, ou Los Angeles. Contudo, sigo atualmente o meu foco no trabalho como modelo e, porque não, começar uma carreira de atriz na Coreia mesmo.

Fiz um vídeo musical com meus amigos e foi uma experiência ótima. Usar a criatividade, conforme os seus anseios é algo que eu adoro. Fiz o papel de uma garota que está meio perdida, mas se encontra na música, como uma dançarina não profissional. Ela tem um sentimento de solidão, carrega o mundo nas costas, por isso passar esta carga emocional é extremamente difícil, ainda mais através da dança. No entanto, a personagem tem um temperamento bem parecido com o meu, o que ajudou muito nesta hora.

Uma das coisas mais interessantes da sua biografia é ser formada também em Filosofia, porque escolheu este curso?

Sou geminiana, nasci no dia 10 de junho de 1990, e dizem que nós somos curiosos por natureza. Mas o que me fez mesmo entrar para este curso foi o livro “Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder, e virei fã do autor. Também gostava muito de ler sobre religião e psicologia, sobre o comportamento humano. Apreciava muito o livro “O corpo fala”, dos autores Pierre Weil e Roland Tompakow. Pensei até passar para psicologia, mas acabei gostando tanto que não mudei. As aulas eram muito interessantes, um dos meus professores me inspirou muito foi o professor Dalia que já faleceu.

Quais os seus pensadores favoritos?

Gosto muito de Platão. Em todos os meus anos da faculdade, eu sempre fiz um vínculo com ele, meus professores chegaram a me chamar de “a garota platônica”. Esta preferência vem pelo idealismo dele e o “Mito da Caverna” para mim é uma alegoria da vida, como ele explicou. Sempre achei ele o mais próximo de como eu vejo o mundo. (o Mito da caverna encontra-se na obra intitulada “A República” (Livro VII), e trata-se de uma metáfora da condição humana no mundo. Versa sobre a importância do conhecimento filosófico e a educação como forma de superação da ignorância. Fala da transformação gradativa da visão mundo, através do conhecimento filosófico: racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade. Desta forma, Platão discutiu sobre a teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal).

Da perspectiva de uma filósofa, como enxerga a sociedade coreana hoje?

Na minha opinião, o mais interessante é que a Coreia era um país bastante pobre, há pouco tempo atrás. Veio da guerra civil e após um tempo conseguiu desenvolver-se de forma muito rápida, mas ao mesmo tempo ela não aprimorou o seu lado humano. Creio que o rápido crescimento e desenvolvimento foi maior e mais rápido do que o país poderia suportar.

Fui ao museu da guerra e lembro de ler uma frase deixada pelos americanos que dizia aos coreanos que eles poderiam recuperar o país em 50 anos, ou 30 anos, porém eles deram um pulo de reconstrução e desenvolvimento de menos de 10 anos. Assim, as pessoas acabaram esquecendo de si mesmas. Por isso, há o maior índice de suicídios. Existe uma incompreensão dos problemas psicológicos, por exemplo.

Contudo, eu vejo uma vontade do país hoje, em tentar melhorar e buscar este lado mais humano. Aos poucos, eles estão percebendo que esta cultura materialista que existe aqui, o consumo exacerbado e esta preocupação quase doentia com a beleza são coisas que não trazem benefício algum. Portanto, é um país que está mudando profundamente e está em uma espécie de crise social, que eu vejo ser algo positivo. A partir deles também tomei esta consciência sobre a preservação do meio ambiente eu quero realizar trabalhos voluntários aqui neste campo. É uma das formas que vejo em como posso me conectar mais com a Coreia e ajudá-la a se tornar um lugar melhor. Agora, o assunto histórico é a reunificação. Sempre ouvi de amigos que isso não ia acontecer, mas nunca acreditei nisso. Acho que esta reunificação é possível sim e acho que os dois lados querem e estão dispostos a todos os esforços para tanto.

Uma vez uma psicóloga brasileira, conhecida por atender modelos, argumentou que uma das razões que levavam suas pacientes a depressão era o fato de que as pessoas pouco consideravam a opinião delas sobre os assuntos em geral. Como se uma modelo não tivesse nada a dizer. Como você enxerga esta dura realidade?

Concordo, muitas vezes me inclinava a me sentir desta maneira quando era mais jovem. Mas daí racionalizei sobre o porquê de me sentir chateada/triste com isso e acho que tem a ver com ego. Quando se está presente no trabalho o foco é o resultado final, o trabalho em equipe. Então, quando parei de me incomodar com isso (de ser ou não ouvida), as coisas fluíram de uma maneira mais amena. Sempre me divirto no trabalho porque não espero ser escutada. Muitas vezes por acabar não criando expectativas é que sou perguntada e escutada. Acho que tudo é uma questão de foco, objetivo no presente, esforçando-me ao máximo, se querem ou não escutar minha opinião já é questão do ego do outros, não meu.

Você argumentou durante a entrevista que nas aulas de filosofia a maioria eram homens e nas de designer de moda, mulheres. Isso, por um acaso, não reflete um pouco sobre como acaba-se definindo profissões e papeis para homens e mulheres no contexto social?

Hoje já vejo a filosofia de uma forma diferente. Porque estou mais ligada à filosofia budista também por estar no Oriente. Creio que tudo se transforma e o mais importante é o diálogo. Mas vejo que há muito do “quero provar que estou certo e outro está errado.” Não acho que exista certo ou errado, apenas visões diferentes. Lembrei da questão que você citou sobre modelos não serem escutadas. Por exemplo, se eu fosse me incomodar com isso, como seria minha vida? Iria ao set já com cara amarrada, o que criaria mais conflito. No entanto, quando opto por uma atitude positiva e “amorosa” vou no set sorrindo e a energia transforma-se. Todos nós temos esta capacidade. Então hoje já tenho atitudes focadas em coisas positivas e nas lições que posso aprender. Nunca me vejo como uma vítima, porque a gente pode criar “paraíso ou inferno” no nosso dia-a-dia, dentro do nosso chamado “eu interior” baseado em qual lado enxergamos e agimos. E eu escolho sempre a luz, o lado do não conflito, no mais simples possível

Você falou sobre proteger o meio ambiente. Hoje já se fala que o ativismo parece fazer parte do marketing autopromocional, como avalia esta questão?

Creio que quanto mais pessoas engajam-se em ajudar causas e pessoas, melhor para o nosso planeta. Se a intenção é autopromoção não sou eu que irei julgar ninguém. Cada um que faça sua parte! O que importa é a construção e o compartilhamento de atitudes positivas, que inspiram, que façam as pessoas moverem-se de uma atitude egoísta para uma mais ampla, mais em prol do outro e da natureza que tanto precisa.

Acesse este link para ver e saber mais sobre o trabalho de Jane de Aquino.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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